O azul mais ou menos desbotado denuncia os anos de carreira de quem enverga o traje de voo, mas, mais ou menos forte, a mancha azul constituída pelas duas dezenas de astronautas que na quarta-feira se juntaram no Grand Palais de Paris no primeiro dia da Cimeira Internacional Sobre o Espaço não deixava de chamar a atenção. Liderados por Thomas Pesquet, o enviado especial de Emmanuel Macron para este evento, agruparam-se todos para uma selfie sob o teto de vidro e aço do edifício construído para a Exposição Universal de 1900 antes da chegada do presidente francês, organizador e anfitrião da cimeira.
Um grupo de homens e mulheres – cada um exibindo a bandeira do seu país no braço – que impressionavam, não só pelo traje contrastante com os fatos e gravatas à sua volta, mas porque entre eles estavam nomes como Luca Parmitano, o italiano que será o piloto da Artemis 3, a próxima missão de preparação para o regresso à Lua, ou o canadiano Jeremy Hansen, que esteve recentemente a bordo da Artemis II, além do próprio Pesquet, o astronauta-estrela francês, que no próximo ano deverá fazer a sua terceira viagem até à Estação Espacial Internacional (ISS).
Mas não foram só astronautas que se juntaram por estes dias em Paris, e a capital francesa tornou-se uma espécie de centro do universo do setor espacial, unindo numa só cimeira chefes de Estado e de Governo, organizações internacionais e regionais, cientistas, militares, líderes do setor privado, sociedade civil e bancos de desenvolvimento.
E nem o facto de as empresas americanas Space X, de Elon Musk, e Blue Origin, de Jeff Bezos, terem cancelado a participação, alegadamente por pressão da Administração Trump, parece ter estragado a festa francesa.
A mensagem de fundo é simples: sem cooperação, a Europa não consegue competir com os EUA, sem dúvida, mas também com China ou Índia. Como dizia Macron, em 2025, estamos no “início de uma reconquista a passo acelerado” para conseguir a independência europeia no espaço.
O facto de esta primeira cimeira mundial dedicada ao espaço se realizar em Paris não espanta, se pensarmos que França é a principal potência espacial europeia em termos industriais. Possui o maior orçamento espacial civil da Europa: 3 mil milhões de euros. O Centro Espacial em Kourou, na Guiana Francesa, porto espacial europeu e atualmente a base de lançamento de Ariane 6, é um dos seus trunfos.
A esta capacidade nacional, França alia o peso na ESA, a Agência Espacial Europeia. “Temos os nossos próprios lançadores. Somos o segundo maior contribuinte da ESA. Sempre tivemos uma visão ambiciosa para o espaço, quer a nível nacional, quer a nível europeu”, dizia há dias o ministro delegado para a Europa, Benjamin Haddad, na receção a um grupo de jornalistas no Quai d’Orsay.
Rodeado pelos astronautas junto ao foguetão da ESA, na entrada do Grand Palais, Macron deu o pontapé de saída da cimeira com três curtas palavras: “Viva o espaço!”