Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia.
Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia.FOTO: EPA/SERGEY DOLZHENKO

"Ainda existem oportunidades reais para terminar a guerra com dignidade." Zelensky anuncia nova ronda de negociações trilaterais

Nas conversações de Genebra, foram acordados mecanismos para monitorizar um eventual cessar-fogo, disse Zelensky, sublinhando que os EUA deverão liderar o processo de verificação.
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Ucrânia, Rússia e Estados Unidos acordaram a realização de uma nova ronda de negociações de paz no prazo de dez dias, que deve decorrer novamente em Genebra, anunciou esta sexta-feira, 20 de fevereiro, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

“Foi acordado que haverá outra reunião nos próximos dez dias, muito provavelmente também em Genebra”, afirmou Zelensky, numa mensagem de voz enviada ao grupo de jornalistas que acompanham diariamente a sua atividade.

O anúncio foi feito após o chefe de Estado ter recebido no seu gabinete a equipa negocial ucraniana que participou na última ronda de conversações, realizada na cidade suíça na terça e quarta-feira.

Zelensky indicou ainda que Moscovo e Kiev deverão ultimar nos próximos dias os detalhes de uma nova troca de prisioneiros e que dará instruções adicionais aos seus negociadores antes do próximo encontro.

O presidente reiterou que, nas conversações de Genebra, foram acordados mecanismos para monitorizar um eventual cessar-fogo, sublinhando que os Estados Unidos deverão liderar o processo de verificação.

Contudo, Zelensky reconheceu que não houve progressos quanto à questão territorial, um dos principais impasses nas negociações para pôr fim ao conflito iniciado há quase quatro anos.

A Rússia exige que a Ucrânia entregue a parte da região de Donetsk ainda sob controlo de Kiev como condição para o fim da guerra, enquanto o Governo ucraniano recusa ceder territórios que mantém sob domínio militar.

Numa mensagem publicada nas redes sociais, Zelensky afirmou acreditar que “ainda existem oportunidades reais para terminar a guerra com dignidade” e considerou que a pressão internacional poderá ser determinante para assegurar uma paz duradoura.

O chefe de Estado ucraniano disse ainda esperar que a nova ronda de negociações "seja verdadeiramente produtiva". "As respostas da Ucrânia às questões mais difíceis antes da próxima reunião estão prontas. As prioridades da nossa equipa de negociação para a futura reunião no formato trilateral e com os Estados Unidos foram definidas", assegurou.

“Americanos e russos dizem que, se querem que a guerra termine, saiam do Donbass”

Zelensky disse ainda que os Estados Unidos e a Rússia exigem a retirada completa das tropas ucranianas do Donbass (leste) para colocar fim à guerra e acusa Moscovo de o querer substituir no poder.

“Os americanos e os russos estão a dizer que, se querem que a guerra termine amanhã, saiam do Donbass”, declarou Zelensky. A região do Donbass, no leste da Ucrânia, inclui as áreas de Donetsk e Lugansk, sendo que menos de 20% da região de Donetsk permanece sob controlo de Kiev.

O chefe de Estado acusou ainda Moscovo de pressionar pela realização de eleições na Ucrânia em plena guerra, considerando que tal objetivo visa fragilizar a liderança atual. “Sejamos honestos, os russos só me querem substituir”, afirmou, acrescentando que, no contexto atual, “ninguém na Ucrânia quer eleições durante uma guerra”, devido ao receio de divisões internas e instabilidade. O presidente disse não ter decidido se será candidato em futuras eleições presidenciais.

Zelensky assumiu a presidência em 2019 e o seu mandato de cinco anos terminou em 20 de maio de 2024, quando foi automaticamente prorrogado, uma vez que a Constituição proíbe a realização de eleições enquanto a lei marcial estiver em vigor.

Quanto a um eventual cessar-fogo, reiterou que Kiev pretende que uma força internacional de manutenção da paz seja posicionada junto à linha da frente. “Gostaríamos de ver o contingente mais perto da linha da frente”, afirmou, reconhecendo que poucos países estariam dispostos a destacar tropas para zonas de maior risco.

“É claro que ninguém quer estar na linha da frente, mas os ucranianos desejam que os nossos parceiros estejam ao nosso lado”, concluiu o chefe de Estado ucraniano.

Zelensky garante que não está a perder guerra e anuncia avanços no sul

Volodymyr Zelensky garantiu que a Ucrânia não está a perder a guerra contra a Rússia, embora reconheça que o desfecho do conflito permanece incerto e com um custo elevado.

“Não podemos dizer que estamos a perder a guerra, sinceramente, não estamos certamente. A questão é se vamos ganhar, essa é a questão, mas uma questão que tem um preço muito elevado”, declarou Zelensky numa entrevista à AFP, a poucos dias do quarto aniversário do início da invasão russa.

O chefe de Estado indicou ainda que as forças ucranianas recuperaram recentemente cerca de 300 quilómetros quadrados no sul do país, no âmbito de uma contraofensiva em curso, informação que a AFP não conseguiu confirmar de forma independente.

A guerra, iniciada a 24 de fevereiro de 2022, constitui o conflito mais grave na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

As negociações diretas entre Kiev e Moscovo, mediadas pelos Estados Unidos, continuam bloqueadas pela exigência russa de que a Ucrânia se retire do Donbass, região industrial no leste do país atualmente quase totalmente sob controlo das forças russas.

Segundo Zelensky, tanto Washington como Moscovo defendem que uma retirada ucraniana do Donbass permitiria pôr termo imediato à guerra, mas o presidente considera que essa solução favorece os interesses russos.

“Para a Rússia, é uma forma de tomar o Donbass rapidamente sem perder homens”, afirmou, acrescentando que os Estados Unidos pressionam mais Kiev por esta se encontrar “numa posição mais difícil”.

Zelensky reiterou que qualquer eventual concessão territorial deverá ser precedida de garantias de segurança por parte de Washington e acompanhada por uma retirada equivalente das forças russas.

“Se nos retirarmos 10, 20, 30 ou 40 quilómetros, eles também devem retirar”, defendeu Zelensku, argumentando que o Donbass dispõe de importantes linhas defensivas que travam o avanço das tropas russas para o interior do país e sublinhando ainda o elevado custo humano e simbólico de uma eventual retirada, após milhares de mortos na defesa da região.

O presidente ucraniano insistiu na necessidade de garantias internacionais para evitar futuras invasões, incluindo o eventual destacamento de tropas europeias ao longo da linha da frente após um cessar-fogo.

Do lado russo, o presidente Vladimir Putin tem reiterado que a Rússia alcançará os seus objetivos pela força caso as negociações diplomáticas não produzam resultados.

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