As declarações do secretário-geral da NATO feitas na segunda-feira sobre a dependência da Europa face aos Estados Unidos para se defender - “se alguém pensa, mais uma vez, que a União Europeia, ou a Europa no seu todo, se pode defender sem os EUA, pode continuar a sonhar” - continuam a gerar respostas da parte de líderes europeus, seguindo o exemplo da França.“A NATO precisa de se tornar mais europeia para manter a sua força e, para isso, a Europa deve agir. Por exemplo, precisamos de garantir que as nossas iniciativas de Segurança e Defesa se mantêm complementares às da NATO”, afirmou esta quarta-feira, 28 de janeiro, a líder da diplomacia da União Europeia, deixando ainda um claro recado a Mark Rutte. “Para isso, a responsabilidade também recai sobre a NATO. Se queremos utilizar instrumentos da UE, como o nosso poder orçamental e regulamentar, para apoiar e capacitar a NATO, temos de saber quais são essas necessidades e objetivos. Quanto mais informação a NATO fornecer, melhor poderemos chegar a um consenso.”Falando na conferência anual da Agência Europeia de Defesa, Kaja Kallas referiu ainda que “precisamos de sincronizar os nossos esforços com a NATO para nos complementarmos e demonstrarmos como cada pilar europeu acrescenta valor através de uma maior partilha de responsabilidades e fortalecimento militar no nosso continente”.A Estónia abordou ainda a relação com os Estados Unidos, alertando que “a Europa precisa de se adaptar às novas realidades”, pois “já não é o principal centro de gravidade de Washington”. “Esta mudança já está a ocorrer há algum tempo. É estrutural, não temporária. Significa que a Europa precisa de assumir a responsabilidade. Nenhuma grande potência na História alguma vez externalizou a sua sobrevivência e sobreviveu.”No mesmo sentido, o comissário europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, referiu que a UE precisa de se preparar para uma presença reduzida dos Estados Unidos na Europa e avançar rapidamente para a sua “independência” em Defesa, sublinhando que esta não significa agir sozinho, mas fortalecendo o braço europeu da NATO.De Bruxelas para Paris, a primeira-ministra da Dinamarca também se focou neste tema, declarando que “a ordem mundial, como a conhecemos, acabou e não creio que regresse”. Antes de um encontro com Emmanuel Macron, Mette Frederiksen e o seu homólogo gronelandês discursaram na SciencesPo, com a dinamarquesa a afirmar que Europa e EUA partilham preocupações sobre Segurança no Ártico e “tentarão encontrar uma solução em conjunto” com a Casa Branca. Já Jens-Frederik Nielsen partilhou: “O que estamos a enfrentar, como governo, é uma tentativa de conter uma reação externa e de lidar com a nossa população, que está assustada.”Frederiksen foi questionada sobre os comentários de Rutte, admitindo que atualmente seria “extremamente difícil” a Europa defender-se sozinha, pois “quando se trata de inteligência, armas nucleares e outros assuntos, dependemos dos EUA”. Por isso, insistiu que o rearmamento do bloco deverá ser “a coisa mais importante” para os líderes europeus.No encontro no Eliseu, que se seguiu a uma reunião na terça-feira em Berlim com o chanceler Friedrich Merz, também com o objetivo de angariar apoios para a questão da Gronelândia, a primeira-ministra dinamarquesa voltou a abordar situação do bloco, dizendo que, “numa situação em que a ordem mundial, tal como a conhecemos, está sob pressão - a mudar rapidamente [ou] talvez já tenha desaparecido -, precisamos de uma Europa mais forte do que nunca”, notando que, “o caminho a seguir é bastante claro: cabe-nos a nós, e apenas a nós, europeus, criar uma Europa confiante e próspera para o futuro”.“A nossa estreita cooperação nesta situação não se limita à Gronelândia. Vai para além da Gronelândia. Para nós, trata-se de valores globais: a nossa democracia, o respeito pelo direito e a ordem internacional, a integridade”, acrescentou o líder do governo de Nuuk, realçando, porém, que “precisamos de intensificar a vigilância e a segurança na nossa região, devido à forma como a Rússia está a agir atualmente”.Para o presidente francês, o impasse com Donald Trump sobre a Gronelândia foi “um alerta estratégico para toda a Europa”, voltando a apelar para que o bloco sublinhe a sua “soberania” perante outras potências globais. Emmanuel Macron deixou ainda claro que Paris apoia o reforço da Defesa no Ártico, “dada a posição da Rússia no Extremo Norte, a presença económica da China e as consequências estratégicas desta aproximação”.Do outro lado do Atlântico, o secretário de Estado norte-americano falou ontem também sobre o interesse dos EUA na Gronelândia, referindo que “estamos numa boa posição agora”, esperando conseguir um “acordo positivo” com a Dinamarca. “Tivemos excelentes reuniões com o secretário-geral da NATO. Aliás, enquanto falo convosco agora, haverá algumas reuniões técnicas entre nós e os nossos parceiros na Gronelândia e na Dinamarca sobre esta questão”, disse Marco Rubio no Senado. “Começa hoje [esta quarta-feira] e será um processo regular. Vamos tentar fazer isto de forma a que não se transforme num circo mediático.”Rubio abordou ainda a situação da NATO, declarando que as capacidades da Aliança precisam de ser “reinventadas”. “A NATO tornar-se-á mais forte se os nossos aliados forem mais capazes, (...), quer queiramos aceitar isso ou não, nós [os EUA] temos interesses em todo o mundo. E quanto mais fortes forem os nossos parceiros na NATO, mais flexibilidade terão os EUA para garantir os seus interesses nas diferentes partes do mundo”, disse o líder da diplomacia norte-americana. “Isto não significa abandonar a NATO, é uma realidade do século XXI, e o mundo está a mudar.”.França critica Mark Rutte por minimizar poderio militar europeu.Copenhaga pronta a dialogar com EUA sobre a Gronelândia, mas militares têm ordens para disparar