Katarina Gardfeldt esteve em Lisboa há dias para participar numa conferência sobre o degelo do Ártico e as suas implicações geopolíticas. Ex-investigadora e professora de Ciências Ambientais na Universidade Chalmers, em Gotemburgo, é a diretora-geral do Polarforsknings Sekretariatet, que é como quem diz Secretariado Sueco de Investigação Polar. É uma agência sueca de apoio à investigação e educação que opera no ambiente montanhoso subártico sueco e nas regiões polares, não só no Ártico, mas também na Antártida, ao realizar expedições com o navio quebra-gelo sueco Oden ou ao manter estações de investigação na Lapónia, na costa do Mar do Norte ou na Antártida.O Secretariado tem os recursos necessários?Na Suécia, e em todo o mundo, existe uma ambição crescente de colmatar a lacuna de dados necessária para compreender as consequências do aquecimento global. E não se trata apenas das consequências no Ártico, mas sim das consequências em todo o mundo. Por exemplo, aqui em Portugal, como é que a subida do nível do mar vai afetar o país? Por isso, precisamos de mais dados do Ártico, pois o Ártico e a Antártida são fundamentais para compreendermos as consequências do aquecimento global. O que precisamos agora é de garantir que a infraestrutura para o extremo norte, para o Oceano Ártico central, receba investimento. Até à data, na Suécia, temos contado com o nosso quebra-gelo sueco, o Oden. Tem sido forte e eficiente durante muitas décadas, mas agora está velho, e precisamos de garantir que não há uma lacuna. Quando o Oden for demasiado velho para expedições polares, e quando a sociedade e o governo finalmente decidirem construir um novo, poderá haver uma lacuna no caso de não trabalharmos para que haja uma sobreposição entre as embarcações quebra-gelo. E para isso, acredito que é necessário que o país assuma a liderança. A Suécia deveria fazer isso, porque temos o conhecimento necessário para construir um navio tão robusto. Não estou a falar dos quebra-gelos mais fracos, capazes de chegar à zona marginal de gelo. Falo de um quebra-gelo que possa ir facilmente ao Polo Norte, a norte da Gronelândia, realizar expedições durante todo o ano e estar presente no Ártico durante todo o ano, pois isso também é necessário para a segurança. A investigação polar tem uma importância que vai além de simplesmente preencher lacunas de dados. Não se trata apenas de contar plâncton, é também a presença da NATO no Alto Ártico. E se um país investe num quebra-gelo polar tão robusto e necessário, acredito que deve ser um país com experiência na navegação nestas águas. E isso não é algo que todos os países possuam. Na Suécia, temos capitães e tripulantes com experiência em navegar em gelo com três a cinco metros de espessura, além de terem experiência em empurrar icebergues. Possuem reputação internacional como os melhores capitães e tripulantes do mundo em gestão de gelo, com experiência em expedições com o Oden no Ártico e na Antártida. Para que um navio seja uma plataforma flexível que possa ser utilizada para fins científicos, é também necessário que os laboratórios sejam amovíveis. Nós temo-los em contentores e podem ser retirados, uma plataforma multifuncional que pode ser utilizada para outros fins, como o transporte ou até para uso militar..“Eu e o meu grupo de investigação recolhemos as primeiras amostras de microplásticos no Polo Norte, em 2016. O planeta enfrenta uma tripla crise climática: as alterações climáticas, as alterações nos ecossistemas, e a poluição no planeta.”.Quais são as descobertas científicas mais significativas realizadas através de expedições apoiadas pelo Secretariado, particularmente no que diz respeito às alterações climáticas e à dinâmica dos ecossistemas?Em 2014, colaborámos num consórcio internacional e realizámos a expedição ArcOp. Para esta expedição, utilizámos três navios. O mais potente era, na verdade, um quebra-gelo russo - já não trabalhamos com a Rússia. Mas tínhamos um quebra-gelo russo poderoso, o Oden, e também um outro navio sueco no qual instalámos um amostrador de sedimentos. E com esta expedição de perfuração conseguimos recolher núcleos de sedimentos que nos forneceram um arquivo das alterações climáticas de há 30 milhões de anos ou mais, mostrando que o clima no Ártico tem vindo a transformar-se ao longo de milhões de anos. E também podemos rastrear esta transformação até à concentração de CO2 e outros gases com efeito de estufa. Desta forma, podemos ver que o clima irá mudar com o CO2 e outros gases com efeito de estufa, e podemos projetar o quão quente estará no futuro devido a esta fonte de calor. Ao termos as respostas do passado sobre como o CO2 e a temperatura variam, podemos ver e projetar no futuro o quanto a temperatura irá aumentar devido ao CO2. E isso pode ajudar a elaborar cenários para a produção de alimentos. Este é apenas um exemplo. Também o fizemos, quando eu era uma cientista no ativo — agora sou uma burocrata —, eu e o meu grupo de investigação recolhemos as primeiras amostras de microplásticos no Polo Norte. Isto foi em 2016. Encontrámos microplásticos nos sedimentos do Polo Norte, na coluna de água e nas placas de gelo. E esta foi a primeira prova de que existem microplásticos no Polo Norte. .Mais de 5,5 milhões de toneladas de plástico entraram nos oceanos este ano.Também fez investigações sobre a contaminação por mercúrio. Como é que a contaminação por mercúrio e a acumulação de microplásticos se comparam com o degelo global como uma ameaça imediata ao Ártico?Eu diria que estão interligados. Porque o planeta enfrenta uma tripla crise planetária. Há as alterações climáticas, as alterações nos ecossistemas que dependem das alterações climáticas, que são um problema em si, e temos ainda a poluição do planeta. E estas três crises estão interligadas e afetam o Ártico. Por exemplo, se considerarmos o meu tema, que é a disseminação global, o transporte e a transformação das formas de mercúrio, estão a ocorrer muitas reações nas massas de ar do Ártico e no mar. E a forma como a acumulação, que acaba por levar o mercúrio ao peixe, também se deve em parte às alterações climáticas. Por isso, não posso classificá-las, pois são independentes. Além disso, se considerarmos medidas para limitar a emissão de CO2, por exemplo, é crucial interromper a queima de carvão fóssil das centrais termoelétricas, porque não só aumenta a concentração de CO2 como, ao mesmo tempo, emite mercúrio. E isso precisa de ser enfrentado, e tem sido abordado há muitos anos. Este é um exemplo de como a poluição e as atividades que afetam as alterações climáticas, e as medidas para as combater, funcionam em conjunto.E qual destas questões representa um risco mais urgente para as comunidades indígenas?Repito, as três são extremamente importantes. Não se pode separá-los. Mas se trabalhar contra as alterações climáticas, por exemplo, contra o mercúrio e contra as centrais termoelétricas a carvão, é um exemplo de como, ao combater um, o outro também será combatido. Portanto, não há conflito de objetivos. Se trabalhar contra uma das crises, ao mesmo tempo beneficiará a outra. As pessoas que vivem no Ártico estão a sofrer muito com as alterações climáticas, uma vez que o permafrost está a derreter. Isto significa que a infraestrutura está a deteriorar-se e as casas estão a desabar. Outro exemplo são as áreas de caça e pesca que são utilizadas pelos povos locais e indígenas há muito tempo. Se o gelo derreter, será um problema para eles as utilizarem como faziam antes. E, na Suécia, temos problemas com a criação de renas. Porque quando o clima oscila devido às alterações climáticas, há congelamento e degelo, congelamento e degelo novamente. Obtêm-se camadas como um bolo, com camadas duras e macias. E as renas não conseguem remover facilmente a neve para ir em busca de alimento no solo. Forma-se, então, uma camada de gelo. Portanto, isso também é um problema. E para as comunidades indígenas, há muito que o mercúrio nos peixes e nas focas é um problema. Portanto, está tudo interligado..“Vejo grandes oportunidades para Portugal e Suécia intensificarem esta colaboração. Discutimos a possibilidade de utilizar o nosso quebra-gelo para treinar e praticar manobras de drones no Alto Ártico, acima do paralelo 80º norte.”.Como é que as disputas territoriais, a extração de recursos e as mudanças nas estratégias de alianças militares estão a moldar as estruturas de governação, como o Conselho do Ártico?Sabemos que existem problemas no Conselho do Ártico. Pessoalmente, acho muito triste que a exceção do Ártico seja agora história. Mas temos de lidar com a situação. E o que é mais importante do que nunca é que haja agora uma colaboração ainda mais forte entre pessoas que partilham os mesmos valores em relação a esses temas. Vejo grandes oportunidades para Portugal e Suécia intensificarem esta colaboração. Porque Portugal é historicamente uma nação marítima de referência mundial, com um vasto conhecimento nesta área. E também temos alguma experiência. Seria fantástico se pudermos colaborar mais com as instituições de investigação marinha e marítima. Também discutimos a possibilidade de utilizar o nosso quebra-gelo de investigação para treinar e praticar manobras de drones no alto Ártico, acima do paralelo 80º norte. Não é uma tarefa fácil. Por conseguinte, a minha resposta é que devemos reforçar a colaboração com países que partilhem os mesmos ideais..À procura das riquezas do Ártico, Putin virou a Rússia para norte.Uma provocação: deveria a comunidade internacional reformular a sua abordagem em relação ao Ártico, considerando-o como um bem comum global que exige uma gestão coletiva?Isso não é possível. É absolutamente impossível. Estamos a realizar pesquisas na Antártida. E a Antártida, bem como o espaço exterior e o fundo do mar, são águas internacionais reconhecidas como bens comuns globais. Na Antártida, não vivem nações. Há países com uma presença e existem bens comuns globais. No Ártico, a situação é totalmente diferente. Isso precisa de ser dito muitas vezes. De acordo com a ordem ou a sociedade baseadas em regras, temos fronteiras territoriais e países que rodeiam o Oceano Ártico. E é muito importante respeitar isso. Penso que é importante que os países do Ártico estejam abertos à colaboração. Porque não somos muitas pessoas e precisamos de colaboração internacional por várias razões, mas esta é a nossa casa. O Ártico é a nossa casa. Nós temos as nossas fronteiras. E é importante que a ciência colabore com a ciência política. Por exemplo, estamos a trabalhar arduamente na recolha de dados do fundo do mar para apoiar os países do Ártico que rodeiam o Oceano Ártico. São necessários dados científicos sobre o fundo do mar para que se possa saber onde estão as fronteiras de cada país. As fronteiras territoriais são conhecidas, mas também existem extensas zonas marítimas que precisam de ser clarificadas. E uma vez que se sabe quem se é e onde se está, pode-se estar muito mais aberto à colaboração. Mas se acha que alguém lhe está a tirar alguma coisa, é claro que se vai defender e não vai querer colaborar, e assim por diante. Por isso, é muito importante respeitarmos a soberania dos países do Ártico. E, ao fazê-lo, estaremos abertos à colaboração. Portanto, nada de tomar terras.."Preocupa-se que os seus filhos e netos tenham um planeta saudável? Então tem de se preocupar com a Antártida".Já realizou missões na Antártida? Quais as principais diferenças para com o Ártico?A grande diferença é que o Polo Norte, o centro do Oceano Ártico, é um oceano, mesmo estando coberto de gelo. É preciso um navio para lá chegar. No caminho para o Polo Norte, há muita vida animal. Existem ursos polares, focas, baleias e outros animais. Quanto mais perto do Polo Norte, menos animais se encontram. Mas sabemos que estamos em alto mar. Na Antártida já realizei expedições de investigação nos mares que circundam a Antártida, mas fica muito mais longe do Polo. Para chegar ao Polo Sul, é preciso primeiro entrar no continente. E só depois sair do navio. E depois precisa de usar outros meios de transporte para lá chegar. Nunca estive no Polo Sul. Já estive numa estação de investigação na Antártida Oriental e fui até lá em pequenos aviões, com várias mudanças de avião. Também já estive na Antártida em navios, tanto no Oden como em navios de investigação alemães. Mas é muito diferente. Em redor da costa, existem pinguins e outras espécies, mas não se vê muita vida selvagem por lá. É como uma experiência no deserto ou na lua. E é gelo, gelo e vida selvagem. Também já estive na Antártida durante o inverno antártico. Foi uma experiência realmente fantástica a bordo de um navio.Mas condições meteorológicas muito extremas.Estava uns 50 graus negativos. Foi duro.