Mísseis, porta-aviões, líderes retirados dos seus países pelas forças militares de outro país. Ainda vemos tudo isso hoje. Mas podemos dizer que a maior ameaça para os países é a ameaça cibernética? Porque não a vemos?É uma questão complexa porque, embora tenham surgido novas ameaças, as antigas continuam presentes. E é isso que torna o atual cenário de ameaças tão singular - é multifacetado. Mas, sim, muitas vezes é para aquilo que não conseguimos ver que estamos menos preparados. O Fórum Económico Mundial classificou, no ano passado, a desinformação como a principal ameaça. Este ano, a confrontação económica geoestratégica liderou, mas a desinformação continuou lá. Na verdade está tudo interligado. Além disso, o tema está nos primeiros lugares também no índice da ONU. A razão pela qual a guerra da informação é tão insidiosa é porque as pessoas nem sempre têm consciência do que realmente está a acontecer. Falamos de desinformação em termos de coisas que são comprovadamente verdadeiras ou não. Mas a indústria, as táticas dos agentes, têm mais a ver com distorcer a informação. Ou seja, como distorcem os algoritmos para dar mais visibilidade a certas coisas. Estão a aproveitar-se da nossa psicologia e dos nossos fatores sociológicos. A nossa psicologia leva-nos a ser mais atraídos por explicações fáceis ou explicações que coincidem com os nossos preconceitos. E, sociologicamente, dividimo-nos em câmaras de eco. E tudo isto é explorado por algoritmos. E esses algoritmos não são transparentes, podem ser manipulados. Portanto, está em curso uma guerra de informação, mas talvez a maior parte das pessoas não a consigam identificar. Depois, mencionou a ameaça cibernética, que está relacionada. Muitas vezes as duas andam juntas. Mas os ataques cibernéticos são generalizados. Os ciberataques são utilizados para ransomware, espionagem, para ataques à infraestrutura crítica, uma vez que grande parte desta está agora ligada à internet. Por isso, acredito que a próxima guerra será certamente uma guerra híbrida, envolvendo todos os elementos que referiu no início, incluindo o equipamento militar tradicional. Mas haverá uma maior percentagem de guerra cibernética, de guerra da informação e de sabotagem envolvidas.Falou dos algoritmos e o que vemos cada vez mais é que vivemos num mundo em que, apesar de termos toda a informação disponível à distância de uns cliques, os algoritmos só nos dão aquilo que queremos ver, ouvir e ler, sobretudo nas redes sociais. Vivemos numa espécie de bolha. Que novas gerações estamos a criar neste mundo?Bem, na Geração Z, 85% obtêm as suas notícias através das redes sociais. E as redes sociais são movidas por algoritmos. Entregam-nos informações de acordo com o que queremos ouvir, não necessariamente com o que precisamos de ouvir. E esta falta de exposição a uma diversidade de perspetivas está a corroer a nossa democracia. Está a corroer a nossa maneira de pensar. Quando se combina isto com atores hostis que estão a tentar criar divisões, para nos fragmentar ainda mais, começamos a ficar ainda mais polarizados. Temos de investir mais na resiliência dos nossos cidadãos. Para além da ameaça à democracia - e isto talvez seja menos discutido -, existe uma ameaça real à ciência. A ciência está a ser questionada. As pessoas que verificam os factos estão a ser atacadas. É quase um movimento anti-evidência. O que se enquadra na definição de propaganda. Nem sequer é uma distorção dos factos, é independente dos factos. A UNESCO tem um programa de apoio a jornalistas no estrangeiro. E agora acredito que estão prestes a iniciar um programa de proteção de cientistas no estrangeiro. Por causa desta reação negativa. E, no entanto, a maioria dos nossos avanços na história da humanidade deu-se através da aplicação do método científico. Se começarmos a perder esta ligação com a necessidade de provas e de ciência para fundamentar o nosso pensamento, estamos a dar um passo atrás como civilização.Se a guerra tradicional exige umas forças armadas poderosas e muito dinheiro, na guerra cibernética é possível - com o devido exagero -, causar muitos danos com um punhado de nerds e uns computadores?Bem, tem razão em relação ao baixo custo. Não sei o quão ameaçadora pode ser uma única voz numa cave - mas esse é o estereótipo. A Rússia, por exemplo, tem uma indústria tecnológica de 2,5 mil milhões. É um ecossistema diverso. Inclui trolls, bots e influenciadores. Os trolls e os bots são muito baratos, muito fáceis de obter. Amplificam a informação e podem até contaminar um modelo de linguagem complexo, como o Chat GPT, ou podem capturar um destes motores de busca. Conseguem disseminar narrativas num volume tão grande que acabam por distorcer a informação que recebemos. E sim, o custo inicial para tal é extremamente baixo.Num mundo onde já não podemos confiar no que ouvimos e vemos, onde a IA manipula tudo, a necessidade de resiliência, transparência e literacia mediática para proteger os valores democráticos é mais urgente do que nunca?Quando olhamos para o norte da Europa, especificamente para os países escandinavos e bálticos, vemos que estes têm sido alvo de uma guerra híbrida há já algum tempo. E desenvolveram algumas boas práticas. Incluindo abordagens que envolvem toda a sociedade e a ideia de que a guerra atual, como salientou, talvez seja menos sobre soldados, pelo menos no início, e mais sobre esta guerra da informação. Quanto mais conseguirmos tornar a população civil resiliente e informada, mais fortes seremos. Isto inclui, num mundo da desinformação, algo a que chamamos debunking [desmistificação] ou apresentação de contranarrativas Mas a informação está a acelerar muito. Principalmente quando é impulsionada por Inteligência Artificial ou alimentada por trolls e bots. É extremamente difícil de acompanhar. Estamos sempre a responder à narrativa de ontem. Assim sendo, uma boa prática é tentar antecipar as narrativas que se avizinham e garantir que a população civil compreende o que está para vir e porquê. E isto aplica-se a todos os níveis. A desinformação não se restringe apenas a uma lógica de Estado-Estado, também se aplica às empresas e até numa lógica Estado-empresas, como quando estão a investigar casos de sabotagem ou a analisar como obter direitos de propriedade intelectual. Quanto mais pudermos informar o público e melhorar a literacia nesta matéria, melhor. Não apenas a literacia digital e mediática, mas também o pensamento crítico. Porque, no fim de contas, somos democracias. Precisamos de incentivar os nossos cidadãos a analisar as coisas criticamente, mas também não queremos uma população tão desconfiada, que não acredite em nada. Esse seria o outro lado da moeda..Philippe Tibi: “A revolução industrial é domesticação da força mecânica; a IA é domesticação da força cognitiva”.Voltando à IA, esta é muitas vezes vista como uma ameaça, mas também está cheia de potencialidades. Do seu ponto de vista, como a podemos usar em nosso benefício?A IA oferece enormes vantagens. Em termos de análise de dados. Para buscas. Para resumos. Tem muitas vantagens. Para que as empresas sejam mais produtivas neste mundo da IA, têm de encontrar formas de tirar partido dela. Precisamos de investir mais na inovação em IA. O Canadá é o centro de excelência nesta área. Temos uma estratégia de IA focada, em primeiro lugar, em investir na inovação e em incentivar mais pessoas a adotarem a IA. Mas o reverso da medalha é como proteger as pessoas da IA. Como proteger a nossa infraestrutura de informação. E também podemos usar a IA para nos ajudar a fazer isso.Podemos usar a IA para nos protegermos da IA?Sim, para antecipar narrativas ou padrões que estão para vir, e depois tentar anteciparmo-nos a eles. Se falarmos com a maioria dos líderes empresariais, o que eles querem é regulamentação na área de IA, para que haja igualdade de condições e transparência sobre as regras e os limites, para que seja justo para todos. Temos de seguir nessa direção e minimizar os danos para as pessoas. E isso incluiria a desinformação de género, que explora as mulheres usando as suas imagens corporais, distorcendo-as e disponibilizando-as sem consentimento. Também com as crianças. Existem danos reais decorrentes da IA generativa, quando utilizada de forma inadequada. Além disso, ela pode ser extremamente enganadora. Tanto Portugal como o Canadá já experienciaram burlas em contextos onde a cibersegurança é aparentemente promovida por figuras públicas. As pessoas confiam nas figuras públicas, logo confiam na mensagem. E podem não perceber que não é a pessoa a falar. Porque a qualidade é de facto muito boa…A qualidade é muito, muito, muito elevada. E houve uma operação patrocinada pelos russos, chamada “Operação Doppelgänger”, em que assumiram o controlo de sites de jornais fidedignos. E replicaram-nos. Parecia o The Guardian ou outro jornal muito respeitado. E só se percebia que não era se se olhasse para o URL no topo. Mas para um olhar menos atento, parecia que estava a ler um jornal. Mas era um jornal clonado. E estava a ser utilizado para disseminar narrativas de desinformação.Falou há pouco de regulamentação. A UE tem a primeira lei sobre IA - ao EU AI Act - mas esta tem sido criticada, principalmente pelos EUA, por ser demasiado restritiva. Como encontrar o equilíbrio ideal entre segurança e abertura na internet? Esse é um ponto crucial. Não queremos criar uma bolha. Como a bolha norte-coreana, onde a sociedade como um todo não está aberta a outras perspectivas. Isso seria uma câmara de eco para toda a sua sociedade. Portanto, na perspetiva canadiana, somos líderes em inovação em IA, sempre fomos líderes na internet aberta, e agora estamos num momento em que discutimos a soberania digital. O que significa em termos de infraestruturas, em termos de dados. Essa é uma das questões principais: queremos segurança, mas também queremos soberania. Como sociedade queremos soberania; a nível individual desejamos proteção. Isto num mundo em que se torna cada vez mais difícil regular as empresas tecnológicas. A Europa tem a Lei dos Serviços Digitais. E todos nós torcemos por ela. Está agora na fase de implementação, mas vai ser interessante ver como se vai desenvolver. Pessoalmente, não estou convencida que as multas sejam o caminho a seguir, porque estas empresas são muito ricas. Mas será um teste decisivo.Os atuais líderes mundiais são bastante idosos - Trump tem quase 80 anos, Putin e Xi Jinping têm mais de 70. Estarão estes homens preparados para lidar com este mundo hipertecnológico?Não pensei nessa questão. Mas certamente estão a prosperar nisso. Eles sabem definitivamente como usá-lo a seu favor.Como diplomata, a Jennifer serviu em vários países, incluindo Israel, México, Cuba e Chipre, e fez parte das Missões Permanentes do Canadá junto à ONU em Genebra e Nova Iorque. São países muito diferentes mas qual era a maior preocupação que todos partilhavam?A maior parte dos meus destacamentos ocorreu antes de estas questões de guerra híbrida e cibersegurança realmente ganharem destaque. Eu estive com uma audiência empresarial esta manhã e quando ele perguntou: “Quantos de vós têm estratégias de cibersegurança?”, todos levantaram a mão. Há dez anos, isso não teria acontecido. Mas, pela minha experiência como diplomata, penso que sempre houve preocupações com a soberania a todos os níveis. E a soberania nunca foi tão questionada nem tão ameaçada como é hoje. De diversas formas, desde os meios militares tradicionais, que foi onde começámos esta conversa, até ataques cibernéticos, guerra de informação, sabotagem e espionagem. Todos eles estão em ascensão e transcendem fronteiras. Por isso, qualquer país que esteja preocupado com a sua soberania estará certamente apreensivo com os tempos atuais.Não deixa de ser irónico que os países estejam preocupados com a sua soberania mas ao mesmo tempo precisem mais do que nunca de partilhar informação se desejam mantê-la e garantir a sua segurança...Sim, esse é um bom ponto. O nosso primeiro-ministro [Mark Carney] fez um discurso em Davos sobre a importância de encontrar estas coligações de pessoas dispostas a cooperar, ou de tentar encontrar alianças baseadas em interesses comuns. Isso será cada vez mais comum. E é algo que, acredito, unirá o Canadá e a Europa de formas interessantes. Porque partilhamos muitos valores, principalmente no que diz respeito à democracia..“As histórias sobre a IA são ou sobre o apocalipse dos empregos ou sobre ‘chatbots’ psicopatas”