“A China usa o Ártico porque precisa de rotas que os Estados Unidos não consigam fechar”
Competição geopolítica também se disputa no Ártico. Rússia e China jogam as suas cartadas, Estados Unidos tentam recuperar do atraso e responder.
Os chineses estão a inaugurar esta nova “Rota da Seda Polar” porque lhes trará vantagens no futuro, mesmo que essa vantagem neste momento seja limitada porque só podem navegar durante alguns meses e os porta-contentores são relativamente pequenos?
Não quer dizer que será sempre assim e que, mesmo agora, seja irrelevante, porque o número de dias de rota da Ásia para a Europa é uma vintena, cerca de metade comparado com a do Suez. E não só. Mas é preciso salientar que é uma rota que a Rússia controla tanto nos pontos de entrada como de saída, e que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, aparentemente já ofereceu à Índia, e que a Rússia pretende expandir, obviamente para países amigos. Portanto, esta nova rota da seda polar dá à Rússia muita influência, mas é claro que a Rússia não teria conseguido fazer isto sem o apoio da China, não tanto por causa dos quebra-gelos, dos quais a Rússia tem muito mais do que a China hoje, mas porque o financiamento para tudo isto vem da China. Depois, é claro que a China tem a capacidade de determinar certas regras para a utilização dessa rota, regras essas que a Índia ou outros países, mesmo amigos da Rússia, certamente não terão.
Portanto, a China assegura o financiamento, e a Rússia tem o controlo político, territorial, naquilo que é mais uma faceta da aliança entre os dois países. Mas referiu a Índia poder utilizá-la, o que faz sentido porque é um aliado tradicional da Rússia, mas isso não seria algo que interessasse à China, pois não?
Sim, exatamente, mas a China pode impor um custo, um preço via Rússia, como a entrada de investimento direto chinês na Índia. Quer dizer, é uma moeda de troca que a China provavelmente não vetará, porque, de qualquer forma, o comércio internacional da Índia é muito limitado. Esta rota não interessa assim tanto à Índia. Trata-se mais de um ato político da Rússia para demonstrar que é ela que determina quem entra na rota, mas isso não é realmente relevante; seria muito mais relevante para a Europa. Em segundo lugar, a importância desta rota reside no seu papel de salvaguarda contra eventos geopolíticos, como o encerramento do Estreito de Ormuz, e outras vias estratégicas, como temos visto nos últimos meses. Por outras palavras, a rota do ártico torna-se mais importante nestas circunstâncias, mesmo que não seja utilizada permanentemente.
Um aspecto que me chamou a atenção na análise que publicou no Le Monde foi o grande número de navios quebra-gelo que a Rússia possui em comparação com outros países com interesses no Ártico, como o Canadá ou mesmo os Estados Unidos. Isto representa uma vantagem geopolítica significativa para a Rússia neste momento em que o degelo permite novas rotas marítimas?
Sim, porque a Rússia possui estes quebra-gelos militares há muito tempo. Se estes navios são eficazes hoje em dia, ou seja, se são modernos, etc., é outra questão. O que eu quero mostrar é que, embora possa parecer evidente a ideia de que a China domina esta rota não é exatamente assim. E é precisamente essa a única vantagem real que a Rússia tem atualmente sobre a China. E os mísseis supersónicos. Mas, esses, todos sabemos que o Exército Popular de Libertação já adquiriu muita tecnologia de armas supersónicas, mesmo antes da guerra na Ucrânia e especialmente durante a mesma. Diria que esta é a única via que resta para a Rússia ter uma relação — não diria simétrica , porque não é simétrica, mas menos assimétrica — com a China.
Significa também que esta rota é muito importante para o desenvolvimento económico da China e é isso que dá poder à Rússia?
Acredito que a China usa o Ártico porque precisa de rotas que os Estados Unidos não consigam fechar. Mais do que simplesmente precisar desta rota vezes sem conta, não podemos esquecer o que aconteceu no Canal do Panamá. No Estreito de Ormuz, acabámos de ver recomeçar a campanha de bombardeamentos dos EUA; não sabemos o que acontecerá ao controlo do Estreito de Ormuz. O Canal do Suez: a China está a tentar estabelecer ali uma área de comércio livre, investindo fortemente no Egipto, mas hoje a segurança egípcia depende dos Estados Unidos. O Estreito de Malaca: outro ponto importante. A China precisa de rotas alternativas. Não diria que é tanto um benefício comercial neste momento a rota do Ártico, mas certamente traz uma enorme vantagem estratégica. E os Estados Unidos terão de esperar muito tempo para replicar isto, para se tornarem independentes com uma rota alternativa no Árctico. Portanto, a China tem a vantagem de ter chegado primeiro.
Quando falamos dos Estados Unidos, estes têm muito menos navios quebra-gelos que a Rússia, e a rota que poderiam utilizar seria através do Alasca mas também do Canadá. Há questões de soberania com o Canadá nessa opção?
Sim, fiz algumas pesquisas. Alerto que não sou o maior especialista do mundo neste assunto, mas falei com várias pessoas quando estive em Washington em julho. Disseram-me que existe uma rota que os Estados Unidos poderiam seguir sem incluir o Canadá. O problema é que se trata de uma rota muito fria, o que significa que é muito difícil de navegar e exigiria um enorme investimento em quebra-gelos. E, de facto, parece que os Estados Unidos que têm estado a negociar com Finlândia, que tem grande capacidade de construir quebra-gelos, sabiam perfeitamente que a China iria anunciar esta rota, como de facto aconteceu, pelo que este é um assunto muito discutido em Washington.


