Não me parece que, até ao momento, a economia do mar tenha sido uma prioridade deste governo. O que não deixa de ser surpreendente dada a dimensão da costa portuguesa e da sua Zona Económica Exclusiva, devido à existência dos Açores e da Madeira.As alterações climáticas estão a provocar o degelo no Ártico. Desde 1979, quando começou a observação por satélite, o Ártico perdeu em cada década 12% do gelo que o constitui. Isto, em termos absolutos, representa uma perda de 40 % da área existente de gelo no período de Verão. Portanto, com estes valores, o gelo do Ártico está aquecer quatro vezes mais rápido do que a média global. O gelo do Ártico está a ficar mais fino e os cientistas falam da possibilidade de, em algumas décadas, não existir gelo no Ártico no Verão. Esta situação tem provocado alterações climáticas que se manifestam em ondas de calor prolongado, fora do Verão, e tempestades violentas de chuva intensa. Surgem, assim, os incêndios e as inundações.O degelo no Ártico irá, inevitavelmente, provocar um aumento do número de navios que usam aquela rota para transporte de mercadorias e também para atividades pesqueiras. De acordo com o site The Artic Council, atualmente, passam no Ártico 1800 navios o que representa um aumento de 40% em relação ao ano de 2013. Atravessam o Ártico sobretudo embarcações russas que transportam petróleo e gás natural. Navegam ainda cargueiros, navios de cruzeiro e científicos. O volume de carga dos navios no Ártico está a crescer 38% ao ano.Dada a posição geográfica de Portugal no Atlântico Norte isto significa que o nosso país e os Açores vão, no futuro, ter um papel importante na reorganização geopolítica do Atlântico Norte. Portugal fica na porta sul de entrada no Ártico através do Oceano Atlântico.Novas oportunidades vão, então, surgir a Portugal com este previsto crescimento. Com certeza que isto não significa que vamos ser os donos do Ártico, mas o aumento logístico do número de navios que vão passar a usar aquela rota à medida que o gelo vai derretendo, vai provocar um incremento na economia portuguesa, muito em especial nos Açores. E em que é que esse incremento se traduz? Maior movimento logístico, mais necessidade de comunicações, reparação e manutenção de navios, vigilância marítima, e obrigatoriedade do aumento da capacidade dos portos, muito em especial do porto de Sines. Futuramente Portugal pode vir a receber financiamento europeu para projetos de investigação cientifica oceânica, para o desenvolvimento de novas tecnologias marítimas. Inserido na Nato o nosso país vai, seguramente, ter um papel importante na vigilância do Atlântico Norte onde, aliás, passam os cabos submarinos que ligam a América do Norte à Europa e transportam um importante manancial de dados digitais que são a base da comunicação e servem diferentes realidades económicas, empresariais e de segurança.Será pois apropriado que este governo e os próximos, tenham em atenção esta nova realidade geopolítica que poderá vir a expressar-se no aumento do emprego e das oportunidades de crescimento económico do nosso país.O Ártico representa, num futuro a breve trecho, o acesso a mais e maiores reservas de petróleo e minerais. Aumenta também a área pesqueira. Isto implica que os Açores já são e serão no futuro, um dos mais importantes activos estratégicos situados a meio caminho na circulação de navios de diferentes nacionalidades entre a Europa e a América do Norte, através do Oceano Atlântico.O Ártico transformou-se num dos activos geopolíticos mais cobiçados pelas grandes potências, nomeadamente Rússia, Estados Unidos e China. Não é por acaso que Donald Trump, numa das suas vertigens imperialistas, tentou abocanhar a Gronelândia tendo de imediato recebido uma resposta firme da Dinamarca. Este país juntamente com os Estados Unidos, a Rússia, o Canadá, Noruega e Islândia são os que mais vão beneficiar das riquezas ainda por explorar no Ártico.Relativamente a Portugal quanto mais o eixo económico e logístico se deslocar para norte no Atlântico maior importância logística ganhará o nosso país e, particularmente, os Açores.Será, pois, avisado, que este governo e os próximos fiquem atentos a esta nova realidade da economia do mar que pode transformar-se numa oportunidade única no desenvolvimento da economia portuguesa.