Depois da guerra na Ucrânia, a guerra no Irão, que afeta todo o Médio Oriente, representa um desafio ainda maior para a segurança energética global?A guerra no Irão representa um desafio maior para a segurança energética global do que as consequências da guerra da Rússia na Ucrânia. No conflito iraniano, cerca de 10 a 11 % do abastecimento total mundial de petróleo e 20 % do abastecimento mundial de GNL não conseguem chegar aos consumidores.Ao bloquear o Estreito de Ormuz, o Irão provou que não é preciso grande poder militar para perturbar a economia mundial?O Irão demonstrou que é capaz de bloquear o Estreito de Ormuz de forma seletiva e fácil. No passado, o bloqueio do estreito pelo Irão era considerado um evento extremo para os mercados petrolíferos, mas improvável, uma vez que o Irão não conseguiria exportar o seu próprio petróleo. Pensava-se também que as potências militares reabririam rapidamente o estreito. Mas o Irão está a recorrer a ameaças e a ataques ocasionais a navios com pequenas embarcações, drones ou mísseis para bloquear o estreito - um bloqueio naval não é necessário quando o perigo de ataque faz com que os navios não consigam obter seguro para atravessar o estreito.As guerras na Ucrânia e no Médio Oriente demonstraram a necessidade premente da Europa de diversificar as suas fontes de energia - nuclear, renováveis, etc.?A guerra no Irão é mais um motivo para a Europa diversificar o seu abastecimento energético, mas grandes mudanças no sistema energético exigem tempo, investimento e vontade política.A pressão exercida pela Rússia e pela China, e agora pelos EUA sob a liderança de Donald Trump, como diz no relatório apresentado em Lisboa, “mobilizou a Europa”. Os líderes europeus perceberam que, para mitigar as suas vulnerabilidades e reforçar a sua soberania, têm de agir rapidamente. Poderá esta crise energética ser uma oportunidade para a Europa, uma oportunidade para impulsionar a competitividade e o crescimento da UE?A Europa poderia impulsionar a sua competitividade e crescimento com um sistema energético diversificado e menos dependente dos combustíveis fósseis, mas essa transição levará anos. A perturbação está a prejudicar as economias neste momento.Quando analisamos os três aspetos do trilema energético de que fala no seu relatório - segurança, acessibilidade e sustentabilidade -, será que a integração energética, tanto dentro da UE como com os países vizinhos, é a única solução?A integração energética não é a única solução, mas é certamente útil, especialmente para disseminar mais amplamente as vantagens de custo da eletricidade renovável. Todas as grandes mudanças no sistema energético levam tempo. Contudo, não é necessário um sistema europeu totalmente integrado para começar a colher benefícios.A energia nuclear é sempre controversa. A França é totalmente a favor, a Alemanha encerrou as suas centrais nucleares. Será uma boa opção quando enfrentamos uma escassez de fontes de energia não renováveis, como o petróleo ou o gás natural?A energia nuclear pode ser uma fonte de grande quantidade de energia de base. No entanto, as tecnologias têm de ser aceites pelas populações locais, e as opiniões variam muito em toda a Europa. Além disso, a construção de novas centrais nucleares demora muito tempo e estão em desenvolvimento novos tipos de reatores. A nova energia nuclear é mais uma solução a 10 ou 15 anos do que uma solução a curto prazo.O presidente Trump afirmou repetidamente que os EUA são independentes em termos de petróleo e não precisam do petróleo do Médio Oriente. Quão correto é isso? Porque podemos ver que as consequências da guerra no Irão também se fazem sentir nos EUA…O impacto da guerra no Irão nos EUA difere consoante se trate de petróleo ou de gás natural. O preço do petróleo é fixado a nível global (com ajustamentos para custos de transporte e qualidade do petróleo) e, por isso, os clientes nos Estados Unidos pagam preços globais pelo petróleo e pelos combustíveis derivados do petróleo. As nossas refinarias estão, de um modo geral, bem abastecidas neste momento, mas o petróleo continua a ser caro. No que diz respeito ao gás natural, os Estados Unidos não são afetados pela perda do fornecimento de GNL do Qatar. Os EUA produzem muito gás natural e a sua capacidade de exportação tem limites. Os EUA já exportavam o máximo de gás natural possível antes do conflito no Irão, pelo que não podem exportar mais para responder à escassez. Assim, o mercado interno de gás natural dos EUA está a funcionar exatamente como antes e os preços não são afetados.O petróleo foi um argumento quando Trump decidiu destituir Maduro do poder na Venezuela. É um argumento agora no Irão. Apesar das alegações de independência petrolífera, o petróleo continua a ser um argumento para a guerra?O petróleo foi provavelmente uma das razões para a decisão da administração dos EUA de interferir no governo da Venezuela através da detenção do seu presidente. Outra razão fundamental foi a frustração com a forma como a economia frágil e corrupta da Venezuela afetava os EUA, uma vez que um grande número de migrantes fugiu da Venezuela e as atividades do mercado negro floresceram no país. Não acredito que o petróleo tenha sido uma razão fundamental para o conflito no Irão. O Irão tem sido, há muito, uma ameaça para Israel e um espinho para muitos amigos e aliados dos EUA. A administração dos Estados Unidos estava preocupada com o progresso do enriquecimento de combustível nuclear e do desenvolvimento de mísseis balísticos, entre outras coisas. O conflito com o Irão resultou numa enorme perturbação nos mercados do petróleo e do gás, mas não acredito que tenha sido a razão para iniciar o conflito.A Rússia detém das maiores reservas mundiais de petróleo e gás, com mais de 14% dos recursos globais. Apesar das sanções, a Rússia continua a ser um dos principais exportadores de energia, tendo como principais compradores a China, a Índia e a UE. Apesar de todas as críticas que a Rússia enfrenta, o mundo continua a depender de Moscovo para satisfazer as suas necessidades energéticas?O mundo está agora mais dependente do abastecimento energético russo do que estava antes do conflito com o Irão, porque grande parte do petróleo e do GNL não consegue chegar aos mercados através do Estreito de Ormuz.A China tem-se mostrado bastante hábil na gestão da atual crise energética; o que pode o mundo aprender com os chineses?Há anos que a China se tem concentrado na segurança energética - diversificando as suas importações de combustíveis fósseis, recorrendo à produção interna de carvão e investindo fortemente em novos produtos energéticos, como painéis solares e veículos elétricos. A China possui também a maior reserva mundial de petróleo bruto - 1,4 mil milhões de barris, o que corresponde a 120 dias de importações. É muito tentador concentrar-se mais na acessibilidade e na sustentabilidade, mas a China sempre se concentrou fortemente na segurança energética para alimentar o seu rápido crescimento. Esse foco está agora a dar frutos.Esta crise energética poderá ser uma oportunidade para os produtores de petróleo africanos, por exemplo?Sim, a crise energética pode ser uma oportunidade para outros produtores de petróleo, mas a resposta destes levará tempo. Pensamos no petróleo que não temos neste momento, mas que não pode ser rapidamente substituído. A oportunidade maior poderá surgir porque o petróleo do Golfo Pérsico deixará de ser considerado tão seguro como era antes do conflito, e os consumidores poderão procurar diversificar o seu abastecimento.."Israel sempre encontrou diferentes formas tecnológicas de tornar a sua matriz energética mais resiliente"