Quando chegou ao poder em 2022, uma das primeiras medidas de Giorgia Meloni como primeira-ministra de Itália foi o chamado “decreto anti-raves”, uma polémica lei que visava reprimir reuniões não autorizadas. Portanto quando no passado sábado dia 11 a presidente da Câmara de Génova, Silvia Salis, juntou mais de 20 mil pessoas numa praça no centro da cidade para dançarem gratuitamente ao som da tecno da DJ belga Charlotte de Witte não faltou quem visse na decisão da antiga atleta olímpica tornada estrela da esquerda um sinal de desafio à chefe do governo. As últimas semanas não foram fáceis para Meloni cuja credibilidade e mão forte sobre o país foram abaladas pela derrota no referendo sobre a reforma da justiça (e as demissões que se lhe seguiram) e em que viu a sua relação especial com Donald Trump abalada ao defender a posição do papa Leão XIV que fora alvo dos ataques do presidente americano após ter criticado a guerra no Irão. Foi neste contexto de crise política em Roma - e quando se fala na hipótese de Meloni antecipar as eleições, previstas para finais de 2027 - que Salis surgiu como uma figura capaz de unir uma esquerda italiana fragmentada. Apesar das notícias menos positivas, o Irmãos de Itália de Meloni continua a liderar as sondagens em Itália, com as últimas a darem-no à volta dos 29% das intenções de voto. O Partido Democrático (PD, de centro esquerda) surge em segundo lugar, com cerca de 22%. Mas o verdadeiro desafio parece ser mesmo encontrar um candidato capaz de desafiar Meloni nas urnas. Desde que chegou à liderança do PD, há dois anos, Elly Schlein, outra mulher em destaque na política italiana, virou o partido mais para a esquerda, mas para chegar a primeira-ministra precisaria de uma aliança com o Movimento 5 Estrelas. Além da dificuldade em acertarem um programa eleitoral comum, parece pouco provável que o antigo primeiro-ministro Giuseppe Conte, líder o 5 Estrelas, aceite não ser o candidato à chefia do Governo numa eventual coligação. É aqui que alguns analistas têm apontado Salis como alternativa, capaz talvez até de conseguir o apoio dos centristas do Italia Viva, de outro antigo primeiro-ministro, Matteo Renzi. Numa recente entrevista à Bloomberg, a presidente da Câmara de Génova não afastou a ideia de assumir um lugar na política nacional. “Não posso dizer que nem sequer o consideraria; isso seria mentir”, afirmou, explicando, no entanto, que não participaria nas primárias, condicionando uma sua candidatura a um apelo unânime.Para Lorenzo Castellani, professor da Universidade Luiss, em Roma, “Salis é uma possibilidade, mas não a mais provável”. Ou seja, “ela destaca-se certamente pela sua frescura, tanto a nível político como pessoal, mas ainda é demasiado cedo para dizer se será a candidata unificada da centro-esquerda”, explicou o académico ao site Euractiv. Mas quem é Silvia Salis? Nascida em Génova em setembro de 1985, foi naquela cidade portuária que cresceu. Filha de uma funcionária camarária e do zelador do campo de atletismo da Villa Gentile, aos oito anos começou a praticar salto em comprimento, antes de mudar para o lançamento do martelo. Foi nessa modalidade que se destacou, tendo ganho dois títulos nacionais e estado presentes em dois Jogos Olímpicos: Pequim em 2008 e Londres em 2012. Terminada a carreira de atleta em 2016 devido a uma lesão, Silvia Salis teve cargos em órgãos desportivos, o último dos quais no Comité Olímpicos italiano. .Sem qualquer filiação política conhecida, apesar de o pai ser comunista (tal como o pai de Meloni), Salis foi convidada a candidatar-se a presidente da Câmara de Génova por uma aliança de forças centristas e de esquerda. Em maio de 2025, derrota Pietro Piciocchi, o candidato do centro-direita, pondo fim a anos de domínio da direita na capital da Ligúria. A mega festa tecno, na qual surgiu de óculos espelhados a dançar atrás da DJ, foi o momento que chamou a atenção dos media internacionais para Silvia Salis, mas desde que foi eleita, a presidente da Câmara -casada com o realizador Fausto Brizzi e mãe de um menino - estabeleceu como prioridades revitalizar a economia da antiga república marítima. Combater o crime e melhorar os transportes eram outras das suas promessas. Nestes meses, Salis foi ainda notícia por participar em protestos contra a guerra em Gaza e por apoiar os trabalhadores do porto que bloquearam carregamentos de armas para Israel. Aos que a criticaram após terem surgido vídeos seus a dançar em cima dos saltos altos dos seus Manolo Blahnik respondeu que pode apoiar valores de esquerda, mas gosta de se vestir bem. Uma resposta que lhe valeu aplausos dos apoiantes e críticas dos detratores..Uma Meloni não se mede aos palmos