"O partido foi verdadeiramente adotado por trabalhadores que o fizeram seu. Operários, camponeses, assalariados ou pequenos proprietários, empregados, professores, pequenos comerciantes, tomaram em suas mãos a proposta dos fundadores e levaram a todos os portugueses a social-democracia como caminho para a construção coletiva de uma sociedade socialista em liberdade.”Estas palavras são de Francisco Sá Carneiro, fundador do Partido Social-Democrata, em 1974, no encerramento do respetivo primeiro congresso. Podemos sempre considerar que este malogrado político, que tantos fazem hoje questão de invocar como santo padroeiro, assumia a construção de “uma sociedade socialista” apenas fruto do ar do tempo. Mas, mais de 50 anos depois do discurso de Sá Carneiro, continua a haver muitos partidos com “social-democrata” no nome a integrar a Internacional Socialista (IS), uma organização fundada em 1951 sobretudo com partidos sociais-democratas e trabalhistas europeus e da qual o PS fez parte desde que existe. Aliás, Sá Carneiro quis inscrever o PSD na IS — terá sido Mário Soares a impedi-lo.Podemos debater se o PSD continua a ser um partido social-democrata, mas foi decerto fundamental para, com o PS, construir a social-democracia em que vivemos. E há decerto nele, e à sua volta, muitos sociais-democratas (e portanto “socialistas democráticos”) no sentido clássico. Daí que seja tão bizarro ver vários nomes que reconhecemos como tal a assinar um manifesto de “não-socialistas” a favor de António José Seguro, fazendo assim a André Ventura o favor de aceitar e confirmar a divisão, por ele proclamada para a segunda volta das presidenciais, entre “o espaço socialista e o espaço não socialista”. Divisão essa que, é bom não esquecer, vem acompanhada da tirada “o socialismo mata”.O socialismo mata — nem mais, nem menos. De que falará Ventura? De que mortes? Em que país, este? De que socialismo, o de Mário Soares, que com o PS e os militares moderados de esquerda, fez o 25 de Novembro de 1975, acontecimento com o qual a direita e a extrema-direita agora embandeiram em arco, como se nele tivessem metido prego ou estopa? Do socialismo da manifestação da Fonte Luminosa? Do socialismo que criou o Serviço Nacional de Saúde? Do socialismo que criou a Segurança Social, instituiu pensões de reforma para toda a gente, mesmo para quem nunca descontou (as tais “pensões mínimas”, das quais Ventura passa a vida a queixar-se por serem baixas, são nada mais nada menos que um mínimo de pensão outorgada pelo Estado, ou seja pelos impostos de todos, a quem não tem uma carreira contributiva que chegue sequer para esse mínimo) e o Complemento Solidário para Idosos? Do socialismo que criou o ordenado mínimo, o subsídio por doença universal, a licença de parentalidade? O socialismo que garantiu a separação de poderes e a independência da justiça? Que aprovou as leis anti-corrupção que permitiram os julgamentos que estão a decorrer? É esse socialismo, essa social-democracia, que aumentou a esperança média de vida e melhorou muitíssimo o nível de conforto dos cidadãos do país, que André Ventura acusa de “matar”?Sabemos que não — aliás, Ventura é hoje, no discurso, como o Chega no atual programa (não foi sempre assim), um defensor acérrimo do Estado Social, tão acérrimo que quer aumentar as pensões todas, incluindo as de quem pouco ou nada descontou, para as equivaler ao ordenado mínimo; quer o fim das listas de espera na Saúde, mais médicos e mais bem pagos; mais professores nas escolas e mais bem pagos; e isto tudo enquanto baixa os impostos. Desse socialismo por agora não se queixa — só dos impostos e taxas que o tornam possível.O que Ventura está a fazer, sabemo-lo bem, é a jogar em dois campos — o da ignorância e revolta dos que acham que a democracia é culpada por não viverem tão bem como crêem ser seu direito, estando por esse motivo disponíveis para “tentar outra coisa”, e o dos que estiveram sempre contra a ideia de uma sociedade democrática e liberal e sonham com a refundação de uma autocracia, com Trump como guru. O que Ventura está a fazer é o que sabe fazer melhor: diabolização. Está, usando o PS e o socialismo como símbolos, a diabolizar o regime democrático e os partidos que construíram a social-democracia portuguesa — incluindo, naturalmente, o PSD (ou não tivesse colocado a cara de Luís Montenegro ao lado da de José Sócrates num cartaz no qual se lia “50 anos de corrupção, é tempo de dizer Chega”).(Diabolização, na qual, note-se, um partido fundador da democracia como o atual CDS-PP está repugnante e suicidariamente a participar, e que tem antecedentes em muitas personalidades afetas ao PSD — algumas das quais, em coerência, já se transferiram para o Chega —, tendo sido, com grande entusiasmo, assumida também como principal bandeira pela Iniciativa Liberal e seus exércitos de trolls cibernéticos em perpétua adolescência.)E, ante a tão renitente diabolização perpetrada por Ventura, que vemos? Um estimável manifesto de pessoas assumindo-se como “não-socialistas”. A intenção não é, claro, corroborar o discurso ventureiro, mas demonstrar que não há só pessoas do PS ou à esquerda do PS no apoio a Seguro, que também as há do centro-direita — e portanto que a divisão invocada por Ventura não faz sentido. Mas quem assina o manifesto não pode ignorar que este, assim denominado, é uma tácita aceitação da divisão propalada por Ventura — divisão que a cientista política Mafalda Pratas reputa, num notável artigo no Observador, de “manobra para atrair votos com um fantasma caricatural”, e “atiçar de uma guerra fabricada”. No entanto, esta mesma Mafalda Pratas é signatária do manifesto. Como o é Pedro Mexia, que, na SIC-N, parodiou: “Vem aí o socialismo! E a gente pensa no Exército Vermelho, pensa nos insurgentes de Mao Tsé-Tung com o seu livrinho vermelho debaixo do braço, pensa na Cortina de Ferro… E, afinal, é o Tozé Seguro”.Afinal é a social-democracia, pois. A tão vilipendiada social-democracia, o tão temível socialismo. E depois há, imagine-se, quem acuse os apoiantes de Seguro de andar a “chamar fascistas aos que apoiam Ventura”. Há até quem, como o historiador Rui Ramos, assevere que a candidatura de Seguro configura “uma candidatura de guerra civil, de exclusão e de ódio, profundamente iliberal” por ter sido, diz ele, transformada na candidatura da “democracia”. Porque, claro, democrata é Ventura, não é? Aquele que reduz os 50 anos de democracia a “corrupção”, e jura que se for eleito passa a juiz e “manda prender” gente. Aquele que promete medalhas a polícias que matam pessoas desarmadas à queima-roupa — porque, claro, se foram mortas por um polícia decerto mereciam, nem precisamos de saber o que aconteceu. Aquele que, recordemos, foi festejar, à frente da Casa Branca, a vitória de Trump. E, disso só podemos estar seguros neste momento, o trumpismo, que não é certamente socialismo, mata mesmo..André Ventura vê-se a repetir 1986 e promete lutar contra o socialismo que "destrói, mata e corrompe".Não-socialistas rejeitam "falta de sentido de Estado" e "divisionismo" de Ventura. Vão votar Seguro