André Ventura não prometeu a vitória na segunda volta, mas disse que irá "percorrer cada rua" no que descreveu como "uma luta pela alma do nosso país".
André Ventura não prometeu a vitória na segunda volta, mas disse que irá "percorrer cada rua" no que descreveu como "uma luta pela alma do nosso país".Paulo Spranger

André Ventura vê-se a repetir 1986 e promete lutar contra o socialismo que "destrói, mata e corrompe"

Líder do Chega voltou a pressionar os outros partidos da "direita fragmentada" a evitarem a vitória de António José Seguro numa segunda volta que apresentou como "uma luta pela alma do nosso país".
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Recebido por duas centenas de deputados, dirigentes e militantes do seu partido com gritos de "8 de fevereiro, Ventura em primeiro", o líder do Chega fez um discurso de vitória vindoura na noite em que passou à segunda volta das eleições presidenciais, atrás do candidato socialista António José Seguro.

Apesar de os resultados preliminares, ainda com 11 consulados por apurar, indicarem que Seguro ficou em primeiro, com 1.753.387 votos (31,14%), enquanto Ventura assegurou o segundo lugar, com 1.321.676 votos (23,47%), o político que passou de deputado único a líder da oposição em apenas seis anos deixou antever a estratégia para tentar reverter essa desvantagem, repetindo aquilo que o fundador do PS, Mário Soares, conseguiu há 40 anos, quando ultrapassou o centrista Freitas do Amaral, vencedor da primeira volta, acabando por tornar-se Presidente da República. "Em 1986, era o espaço da esquerda que estava fragmentado", recordou.

Num discurso presenciado pelas principais figuras do Chega, desde aderentes de primeira hora até a figuras que se juntaram ao partido nos último anos - estiveram presentes o ex-ministro social-democrata Rui Gomes da Silva e o atual vereador da Câmara do Porto Miguel Corte Real, dois membros do seu Governo-sombra -, Ventura defendeu que a direita não saiu derrotada das presidenciais, apesar de um antigo secretário-geral do PS ter sido o mais votado. "Só perderemos estas eleições por egoísmo do PSD, da Iniciativa Liberal e de outros partidos que se dizem de direita e que terão agora de escolher entre um socialista e alguém que quer fazer reformas no país", disse, retomando as declarações que fizera no início da noite, ao entrar no hotel lisboeta que voltou a servir de quartel-general a uma das suas noites eleitorais.

"Eu não quero voltar ao socialismo em Portugal", disse o líder do Chega, repetindo que "o socialismo destrói", "o socialismo mata" e "o socialismo corrompe". Dirigindo-se ao povo "que não vota no PS e que não quer o PS", mas sobretudo a Luís Montenegro, que pouco antes excluíra o PSD da disputa de 8 de fevereiro, pois nenhum dos candidatos representa o seu espaço político, e também a Mariana Leitão e Nuno Melo, Ventura referiu-se à segunda volta como "uma luta pela alma do nosso país".

Sem prometer a vitória que os seus apoiantes fizeram rimar quando entrou na sala, André Ventura prometeu trabalhar pelo que descreveu como natural caso os eleitores que optaram neste domingo por Cotrim de Figueiredo e Marques Mendes se juntarem aos seus. "Vou percorrer cada rua deste país. Vou dizer que não podemos voltar para trás. E um país inteiro se levantará", anteviu.

Colagem de Seguro a Sócrates e a Costa

Adversário direto na disputa eleitoral que garante mobilizá-lo "mais do que qualquer outra luta", António José Seguro foi descrito por Ventura como o "representante máximo de tudo o que não queremos e que o país não pode aceitar". Nesse sentido, o líder do Chega não hesitou em colar o antigo secretário-geral do PS à "corrupção" de José Sócrates ou à "imigração descontrolada" de António Costa, muito embora Seguro não seja propriamente conhecido como um apoiante do seu antecessor ou do seu sucessor no Largo do Rato.

"António José Seguro representará o regresso da tralha de José Sócrates a Portugal. Não queremos o regresso de António Costa ao Portugal que rejeita Ferro Rodrigues. Esse país só tem uma escolha agora. Há uma escolha segura e não Seguro", disse o candidato presidencial, provocando tantos risos na plateia quanto as referências ao PSD e à Iniciativa Liberal haviam gerado apupos.

Voltando a reclamar a liderança da "direita fragmentada", após derrotar "o candidato do Governo e do montenegrismo" e o "candidato que se dizia liberal, mas que tinha estado sempre na agenda globalista e woke, contra Portugal", Ventura deu alguns sinais exteriores de moderação. Nesse registo, defendeu que fez uma campanha "sem picardias pessoais e sem ofensas", sem deixar de dizer verdades, "enfrentando tudo e todos", sobre o Serviço Nacional de Saúde ou a imigração. "Quando outros falavam de um país cor de rosa e abstrato, falámos dos problemas do país", disse.

Para o final, no entanto, reservou ataques à imprensa estrangeira, insurgindo-se contra artigos que associam a sua votação a ter "o fascismo de volta a Portugal". Garantindo que, se vencer a segunda volta, "Portugal continuará a ser o país amistoso que sempre foi", disse que não deixará que "seja humilhado por qualquer chefe de Estado estrangeiro" - numa referência às críticas à antiga potência colonial feitas pelo Presidente de Angola, João Lourenço, aquando das comemorações do 50.º aniversário da independência -, Ventura terminou mesmo o seu discurso com a promessa de que irá "lutar até que esta bandeira seja novamente respeitada no mundo inteiro".

André Ventura não prometeu a vitória na segunda volta, mas disse que irá "percorrer cada rua" no que descreveu como "uma luta pela alma do nosso país".
Seguro e Ventura passam à segunda volta nas presidenciais mais concorridas das últimas décadas

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