A vitória de António José Seguro nas presidenciais de 2026, com André Ventura a surgir como principal opositor, é o reflexo de um país sob tensão democrática. Num contexto de menor abstenção e forte fragmentação de candidatos, os eleitores escolheram entre contenção institucional e rutura populista, empurrando para a margem candidatos do centro-direita, do liberalismo e da esquerda à esquerda do PS. Mais do que um duelo pessoal, a eleição tornou-se um teste ao regime democrático português. Numas eleições marcadas por uma quebra significativa dos níveis de abstenção - explicada em grande parte pela proliferação de candidaturas e pela perceção generalizada de que cada voto contava -, a vitória de António José Seguro, seguido de André Ventura, na primeira volta das eleições presidenciais de 2026 traduz uma escolha profundamente reveladora do momento político português. Não se trata apenas de quem venceu ou perdeu, mas de compreender por que razão estes dois candidatos foram os escolhidos para protagonizar o confronto decisivo e o que isso revela sobre o eleitorado, os partidos e o próprio regime democrático. António José Seguro surge como vencedor porque encarna aquilo que, em contextos de tensão sistémica, o eleitorado português tende historicamente a privilegiar: segurança institucional, previsibilidade e continuidade democrática. A sua vitória não é entusiástica, mas racional e defensiva. Seguro não mobiliza pelo carisma nem pela promessa de transformação profunda, mas pela capacidade de garantir que nada de essencial se rompe. Representa o institucionalismo clássico, o europeísmo, o respeito pela Constituição e uma conceção tradicional do Presidente da República como árbitro e fator de estabilização do sistema político. Num ambiente marcado pelo crescimento do Chega, pela fragmentação partidária e pela erosão da confiança nas elites, essa previsibilidade torna-se, paradoxalmente, um ativo eleitoral decisivo. Em sentido oposto, André Ventura surge como segundo mais votado precisamente por representar a rutura explícita com o sistema. Ventura capitaliza o descontentamento acumulado, a perceção de injustiça social, o sentimento de abandono de setores relevantes da classe média e uma rejeição visceral do “regime”. A sua principal vantagem reside numa base eleitoral altamente mobilizada, disciplinada e fiel, que responde a um discurso emocional, simples e confrontacional. Ventura não é escolhido apesar da polarização que provoca, mas exatamente por causa dela. Para os seus eleitores, não representa um risco institucional, mas um instrumento de correção radical de um sistema percebido como falhado. . Ambos chegam ao topo por razões opostas, mas complementares. Seguro vence porque tranquiliza; Ventura avança porque mobiliza. As vantagens de Seguro - estabilidade, credibilidade institucional e capacidade de agregação transversal - são também as suas fragilidades: um discurso pouco inspirador, uma imagem associada ao “sistema” e dificuldade em entusiasmar jovens e eleitores anti-establishment. Já Ventura beneficia da clareza identitária e da energia mobilizadora, mas enfrenta limitações estruturais evidentes: uma taxa de rejeição elevada, dificuldade em conquistar o centro político e um isolamento quase total em termos de alianças institucionais. Os derrotadosO caminho para este desfecho foi, contudo, aberto por um falhanço particularmente expressivo no centro-direita com consequências profundas para o PSD e para a liderança de Luís Montenegro. O falhanço de Luís Marques Mendes assume um caráter quase estrutural. O ex-líder do PSD representava o candidato natural do centro-direita institucional: experiente, pedagógico, constitucional e alinhado com uma tradição presidencial que, no passado, foi bem-sucedida no partido. O seu insucesso não resultou de um escândalo concreto, mas de uma perceção acumulada de proximidade excessiva aos bastidores do poder económico e político. A circulação fluida entre comentário mediático, influência informal e redes empresariais construiu a imagem de um “facilitador”, alguém que conhece todos os caminhos do sistema. Em eleições presidenciais, essa experiência tornou-se um fardo. Num contexto de desconfiança nas elites, o que nos bastidores é visto como competência passou a ser lido eleitoralmente como promiscuidade. Esta perceção não destruiu totalmente - quase-, a base tradicional do PSD, mas foi decisiva para bloquear qualquer ambição de crescimento transversal, nomeadamente a uma parte do PS, nada entusiasmada com Seguro. Eleitores urbanos, jovens qualificados e segmentos moderados rejeitaram a candidatura não por prova de ilegalidade, mas porque, em presidenciais, a simples dúvida ética é suficiente para afastar um candidato. Marques Mendes - cuja campanha, à antiga, revelou também fraca presença e impacto nas redes sociais - falhou na resposta simbólica: nunca rompeu claramente com esse passado, preferindo normalizá-lo. Em eleições presidenciais, porém, o eleitor não procura normalização, mas elevação. . Este falhanço teve um impacto direto no PSD e em Luís Montenegro. Marques Mendes foi amplamente lido como o candidato do aparelho, confortável para a direção e expressão do “regime” laranja. A sua derrota representou uma derrota política indireta de Montenegro, evidenciando a incapacidade de organizar o espaço do partido, a perda de autoridade interna e a ausência de uma estratégia presidencial coerente. O PSD ficou fora da decisão final e passou de protagonista a fornecedor de votos, sem projeto próprio para Belém. O primeiro-ministro fica pressionado entre um PSD moderado em retração, um Chega em expansão à direita e um centro político que converge para Seguro. Perante a segunda volta, o partido ficou limitado a opções politicamente fracas: apoio explícito a Seguro (difícil internamente), neutralidade ou ambiguidade - esta última, a mais provável. Com uma campanha fortíssima, João Cotrim de Figueiredo confirmou outro limite estrutural do sistema político português. O liberalismo - programático e racional - mostrou-se pouco adaptado à lógica simbólica e emocional das presidenciais. Cotrim esbarrou num teto eleitoral claro. Entre Ventura (emoção), Seguro (segurança) e Gouveia e Melo (autoridade), surgiu como excessivamente calculista. A acusação de assédio não destruiu a sua base, mas funcionou como multiplicador negativo, bloqueando a expansão para o centro e facilitando o voto útil contra a sua candidatura. Fica no entanto com um capital de votos, veremos que uso lhe dará. . Já a derrota de Henrique Gouveia e Melo, que partiu para a corrida como grande favorito, pode marcar o fim da ilusão do “salvador apolítico”. O enorme capital simbólico construído durante a pandemia revelou-se sobretudo popularidade passiva. Muitos eleitores respeitavam a figura, mas não sentiram urgência em votar nela. A ausência de uma máquina partidária, a ambiguidade ideológica e a falta de uma narrativa presidencial clara tornaram-se decisivas num contexto polarizado. O candidato ficou preso entre o populismo mobilizador e o institucionalismo político, respeitado, mas ultrapassado, deixando claro para o centro político que presidenciais não se ganham sem política. . À esquerda, as derrotas de Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto refletem um falhanço coletivo da esquerda à esquerda do PS. Em momentos de risco sistémico, as presidenciais penalizam candidaturas identitárias. Catarina Martins pagou a associação ao combate parlamentar e à polarização ideológica; António Filipe enfrentou o declínio estrutural do PCP e o peso simbólico do passado; Jorge Pinto sofreu sobretudo com a lógica do voto útil. O resultado foi a compressão do espaço à esquerda e a concentração do voto em torno de candidatos percebidos como capazes de travar Ventura. A segunda volta: estabilidade institucional versus rutura populista É neste contexto que se constrói a segunda volta entre António José Seguro e André Ventura. O confronto deixa de ser apenas entre dois candidatos e transforma-se numa escolha estrutural entre dois modelos de exercício do poder presidencial: de um lado, a estabilidade institucional, a previsibilidade democrática e a defesa do quadro constitucional; do outro, a rutura populista, a contestação aberta ao sistema e a mobilização política através do conflito. Ventura chega à segunda volta apoiado por uma base eleitoral altamente mobilizada, disciplinada e fiel, composta sobretudo por eleitores descontentes com os partidos tradicionais, segmentos das classes médias empobrecidas e um eleitorado conservador em matéria de costumes. O seu principal trunfo reside na intensidade emocional do discurso e na capacidade de transformar frustração difusa em voto político. As suas fragilidades são igualmente evidentes: uma taxa de rejeição elevada, dificuldades claras em captar eleitorado moderado e um isolamento político quase total, sem alianças institucionais relevantes. Ainda assim, ainda que não consiga vencer, poderá atingir um resultado entre os 30 e os 35%, aproximando-se perigosamente da antecâmara do poder governativo. Seguro, por sua vez, apresenta-se como o polo agregador da contenção democrática. Conta com o apoio do PS, talvez de setores moderados do PSD e de eleitores liberais, de parte significativa da esquerda e de cidadãos que, independentemente de afinidades partidárias, se mobilizam sobretudo pelo receio de uma presidência populista. O seu capital político assenta na credibilidade institucional, na imagem de seriedade e na adequação ao papel constitucional do Presidente da República. Em contrapartida, enfrenta limitações conhecidas: um discurso pouco mobilizador, dificuldades em entusiasmar o eleitorado jovem e a perceção persistente de ser um candidato “do sistema”. A decisão final dependerá menos de programas e mais de dois fatores-chave: mobilização eleitoral e abstenção. Neste contexto, uma participação baixa tenderá a favorecer Ventura; uma mobilização cívica ampla poderá favorecerá Seguro. Nos debates, Ventura dominará o impacto mediático; Seguro ganhará em credibilidade, contenção e perfil presidencial. Assim, a segunda volta funcionará como um verdadeiro referendo ao regime. Não estará apenas em causa quem ocupará Belém, mas se a Presidência será usada como fator de estabilização do sistema ou como instrumento de rutura política. Num contexto de elevada incerteza, esta clivagem - estabilidade institucional versus rutura populista - tornar-se-á o eixo central da decisão eleitoral..Carneiro apela à mobilização dos democratas em torno de Seguro na segunda volta contra Ventura.André Ventura pressiona AD e IL: "Quem liderar a direita na segunda volta tem mais probabilidades de vencer"