“Sei que ficamos espantados quando há gente com convicções na política”.A frase é de Teresa Nogueira Pinto, a “ministra da Cultura sombra” do Chega — que, filha da centrista Maria José Nogueira Pinto e do hagiógrafo de Salazar Jaime Nogueira Pinto, melhor teria o cognome de enviada-especial-do-Chega-para-a-velha-direita-endinheirada — num programa da Rádio Observador, referindo André Ventura. E que convicções lobrigou na pessoa em causa esta Nogueira Pinto, nas últimas semanas em pressuroso rodopio de entrevistas e comentários no desiderato de apor a sua patine bon-chic-bon-genre ao candidato presidencial da extrema-direita? Vejamos.Supõe-se que o encontraremos explicado num texto que publicou no Expresso intitulado “porque voto Ventura”. Nele, começa por referir “a tríade 'Deus, Pátria, Família’” — que, como é sabido, foi usada por Salazar como esteio central do seu regime e tem sido apropriada pelo líder do Chega. Segundo Nogueira Pinto, essa tríade, que “tanto horror suscita ao progressismo dominante”, não nasceu com Salazar mas sim da pena de um italiano oitocentista democrata e revolucionário, e é “uma ideia bonita e simples”.Conviria quiçá lembrar que o ditador português Salazar pediu emprestado o slogan ao ditador italiano Mussolini — a quem, creio, ninguém se atreverá a negar o apodo de fascista — dando-se o caso, nada secreto, de Salazar ser contemporâneo do fascismo italiano. Tentar refutar essa referência evidente — tanto mais evidente quando Ventura anda a clamar aos quatro ventos que o que faz falta são “três salazares” — faz tanto sentido como asseverar que se alguém andar aí de cabeça rapada a vender T-shirts com “O trabalho liberta” se está a referir ao bem que faz trabalhar e ao título do livro de 1873 do alemão Lorenz Diefenbach (outro oitocentista) e não aos infames letreiros dos campos de concentração nazis.Teresa Nogueira Pinto, obviamente, sabe-o bem — o seu pequeno texto é uma espécie de prestidigitação infantil, onde semeia aquilo a que se costuma dar o nome de “apitos de cão” enquanto pretende estar a negá-los. Porque a ideia é precisamente acicatar. Quando no citado programa da Rádio Observador assevera que é preciso “debater com toda a serenidade” matérias como a imigração, logo de seguida desculpabiliza como “uso da retórica e da comunicação política” o facto de Ventura assegurar que com ele como presidente haveria pessoas que iriam presas. É, diz a militante do Chega que se apresenta como “especialista em ciência política” e “professora universitária”, não um anúncio de alteração de regime e do fim da separação de poderes que caracteriza o Estado de direito democrático, mas “uma espécie de pedra que se manda para o charco de águas paradas, e funciona, porque ficámos a falar dos três salazares.”Desde que funcione, tudo bem, então — supõe-se que Nogueira Pinto, que parece considerar muito a religião e a fé, também não achará mal que Ventura se tenha anunciado escolhido pelo seu deus para salvar Portugal (afirmação que deu origem a uma das melhores perguntas alguma vez feitas numa entrevista — aquela que Miguel Pinheiro, o diretor do Observador, colocou ao líder do Chega sobre tal revelação: “Quando é que isso aconteceu?”). Talvez seja essa uma das “convicções” que a ministra-sombra vê no presidente do seu partido: a de ter sido ungido pelo Deus dos católicos. Certo é que no texto que escreveu sobre o seu candidato não colhemos referência às alegadas convicções que este terá, e que, segundo ela, o distinguem — só a certificação de que Ventura é “dissenso”, “divergência e alternativa” a “um consenso sufocante e despolitizado”. É, portanto, “contraditório”, ou “do contra”. Em quê? Para quê? Bom, isso agora não interessa nada.O mesmo vale para o historiador e colunista do Observador Rui Ramos, que, num texto justamente intitulado "Ventura contra todos os outros", garante ser esse “o único líder político em atividade que interessa aos portugueses”, mas não, ao contrário do que “os rivais crêem”, pelos seus truques de comunicação, mas pela “substância”. E a substância é? “O choque a que o país foi sujeito quando percebeu que os governantes, sem lhe perguntarem, tinham decidido abolir qualquer controlo da imigração.”Passando à frente, por motivos de espaço, da afirmação de que “foi abolido qualquer controlo de imigração”, talvez seja de recordar que quando Ventura se começou a afirmar politicamente, ainda como candidato do PSD à autarquia de Loures, em 2017, a sua “causa” — Rui Ramos afirma que “é o único político ativo que está associado a uma causa, e mais: à necessidade de manter essa causa, que não é uma causa qualquer, mas existencial, no debate público” — era o ataque aos ciganos e àquilo a que dá o nome de “subsídio-dependência”. É estranho estar a chamar a atenção de um historiador para a história, mas a tal “causa existencial” que segundo ele faz o sucesso de Ventura só surgiu no seu discurso em 2024, quando o Chega já tinha um bom número de deputados e o seu líder era há muito o político mais entrevistado pelas TV portuguesas. Pelo que, lamento, não, não é de todo verdade o que Rui Ramos diz. Se Ventura tem desde o início da sua ascensão política uma causa, é a da discriminação dos discriminados, à mistura com os “apitos de cão” que Teresa Nogueira Pinto tão diligentemente refere no texto citado.Acresce que, nas dores de crescimento, o Chega, ou seja o seu líder (porque o Chega é o seu líder), largou o hiper-liberalismo à Milei do programa inicial (de 2019) e transformou-se num partido que defende o Estado Social, ou seja, mais dinheiro para os hospitais públicos, as escolas públicas, os funcionários públicos, mais dinheiro para os pensionistas (incluindo os que pouco ou nada contribuíram para a Segurança Social, numa curiosa contradição face à sua propalada aversão à “subsídio-dependência”) — em suma, aquilo a que os “liberais económicos”, como será o caso de Rui Ramos, execram como “socialismo”. .Chega prepara "inversão" do seu programa anti-Estado Social.De resto, o Chega é sistematicamente apanhado a votar contra, a favor e a abster-se no mesmo assunto — ou seja, destituído de convicções, a não ser uma: a de que tudo, incluindo todas as piruetas, vale para chegar ao poder. Se há algo que distingue André Ventura, algo em que é realmente exímio, é em não ter qualquer outra convicção a não ser a de que tem de fazer tudo o que for preciso, por mais repugnante e por mais vil, para chegar onde quer. Não pode haver ninguém com o mínimo de cultura política e histórica que não veja e não saiba isso — pelo que todos os que, de forma mais ou menos sonsa, tentam articular defesas intelectuais do voto em Ventura são, como ele, meros oportunistas que ou pretendem uma boleia para o que esperam seja o seu destino ou sonham poder usá-lo..As verdades de André Ventura.O que raio é o “não-socialismo”, por obséquio?