O treinador do Canal Panda que deu um título ao Benfica e acabou por se demitir

Bruno Lage não sobreviveu no banco à crise de resultados pós-pandemia. Técnico deixa a Luz como autor de uma recuperação inédita que valeu o título em 2018-19 e aquele que mais jogos ficou sem ganhar na Luz em 117 anos de história do clube encarnado. Quem se segue?

Bruno Lage colocou o lugar à disposição e o presidente Luis Filipe Vieira confirmou a saída do treinador, que assim deixou de liderar o Benfica na noite desta segunda-feira (29 de junho). O técnico do Benfica não resistiu a mais um desaire, desta vez frente ao Marítimo, na Madeira (2-0). Apesar de ter dito na véspera que não se sentia um treinador a prazo e de ser visto no autocarro da equipa sentado ao lado do presidente Luís Filipe Vieira, o técnico sabia que jogava na Madeira com o lugar em risco e falhou no teste.

A saída já era esperada na semana passada, após a derrota com o Santa Clara (4-3), mas Lage não colocou o lugar à disposição e Luís Filipe Vieira deu-lhe mais um voto de confiança. Após uma reunião ao mais alto nível no Centro de Treinos do Seixal, ficou então definido que ainda iria orientar a equipa no caldeirão dos Barreiros esta segunda-feira. O que aconteceu.

No final do jogo colocou o lugar à disposição, segundo o presidente do Benfica, que ficou de pensar. Como o técnico não foi à conferência de Imprensa não foi possível questioná-lo sobre isso. Ficou a imagem da saída do estádio ao lado do presidente e a palmadinha nas costas antes de entrar no autocarro. Minutos depois soube-se que tinha aceitado a demissão de Lage e, com algum drama à mistura, colocado o própria continuidade em causa.

O treinador que fez parte da solução há um ano aos substituir Rui Vitória, passou a ser um problema, com dois triunfos nos últimos 13 jogos. Para trás ficam alguns recordes e as conferências com discurso fluído e fora da caixa, que incluía recados para os adeptos apanharem o lixo da festa do título 2018-19, que ele conquistou com ajuda do "menino Félix", e as referências sem fim ao Canal Panda.

O treinador vindo da equipa B, que conseguiu 28 vitórias, um empate e uma derrota nos primeiros 30 jogos que dirigiu na I Liga, só venceu o Rio Ave desde que o futebol regressou aos relvados, após a paragem devido à pandemia, a 12 de março. Cinco jogos seguidos sem vencer no Estádio da Luz é algo nunca visto em 117 anos de história e ficará no currículo de Lage.

As derrotas da 28.ª e 29.ª jornada colocaram a nu a crise exibicional e de resultados do campeão, naquela que é a pior sequência de Lage esta época, depois de já ter estado quatro jogos seguidos sem ganhar: FC Porto (derrota), Famalicão (empate), Sp. Braga (derrota), Shakhtar (derrota).

A ascensão e queda

Tudo começou há mais de 20 anos, nas camadas jovens do Vitória de Setúbal, a sua cidade natal. Filho do treinador Fernando Lage, sem grande jeito para ser jogador (foi extremo direito) cedo revelou vontade e aptidão para o treino. Tinha 21 anos quando começou a ser adjunto dos juvenis sadinos. Função que acumulava com os estudos académicos - Educação Física, Saúde e Desporto - na área do treino em futebol. Sem perder o foco no treino foi-se cultivando em outras áreas, rodeando-se de alguns bons mestres. Foi por indicação de um deles, Jaime Graça, que passou a ser preparador físico do Fazendense, clube de Santarém.

Foi depois adjunto e treinador no 1.º de Maio, Estrela de Vendas Novas, Comércio e Indústria e Sintrense. Muitas etapas ganhas no caminho para o Seixal, onde chegou em 2004 por indicação do ex-magriço. O "mestre" Jaime Graça como lhe chamou Bruno Lage, depois de lhe dedicar a primeira vitória no Benfica (4-2, na Luz, frente ao Rio Ave). Trabalhou de perto com algumas das pérolas da formação encarnada, como Bernardo Silva, André Gomes, Gonçalo Guedes ou João Cancelo, que o chegou a irritar - coisa rara - quando lhe fez um carrinho numa peladinha.

Ficou oito anos no Seixal. Passou pelos iniciados, juvenis e juniores. "Quando entrei aqui, com 27 anos, foi quando senti mais aquela oportunidade de seguir uma carreira profissional", contou Lage, que em 2012 foi desafiado a emigrar, por Carlos Carvalhal. Foi adjunto do atual técnico do Rio Ave no Al-Ahli, dos Emiratos Árabes Unidos, no Sheffield Wednesday na Championship inglesa, e no Swansea na Premier League, que desceu de divisão e o libertou para voltar ao Benfica.

Seguiram-se "dez meses alucinantes", nas palavras do próprio. Começou a época 2018-19 no comando da equipa B. Com um grupo assente em jogadores jovens e formados no Seixal estava tranquilo no 4.º lugar da II Liga, enquanto a equipa principal perdia pontos e se afundava na I Liga e a contestação a Rui Vitória subia de tom a cada jogo. A saída de Vitória precipitou a ascensão. Era para ser interino até chegar um novo dono para ao banco, mas Luís Filipe Vieira viu um Luz e apostou no jovem e inexperiente técnico, após uma entrada vistosa ao serviço das águias, com vitórias frente ao Rio Ave e Desp. Aves. O contrato foi revisto a 18 de maio de 2019, dias antes de se sagrar campeão nacional, depois de vencer o Santa Clara (4-1) no último jogo do campeonato. O mesmo Santa Clara que na terça-feira venceu no Estádio da Luz (4-3) e o colocou na porta de saída.

O 4x3x3, João Félix e o festival de golos

Não teve receio de imprimir a sua marca, ao alterar o tão criticado sistema 4x3x3 de Rui Vitória para um 4x4x2 com filosofia de jogo diferenciada da do seu antecessor. E com um miúdo ao leme. Lage colocou a equipa a jogar em redor de João Félix. Ele ficará para sempre ligado à promoção da mais cara e surpreendente transferência do futebol português. Até à chegada de Bruno Lage, João Félix tinha feito 453 minutos em 14 jogos, mas o técnico moldou a equipa à volta dele, juntando-o a Pizzi, Rafa e Seferovic na frente. No final da temporada, o jogador formado no Seixal saiu para o Atl. Madrid por 126 milhões de euros.

O Benfica estava lançado e iria recuperar de uma desvantagem de sete pontos para o então líder FC Porto. Dava gosto ver jogar o onze de Lage. O festival de golos era recorrente e as águias igualaram o melhor ataque de sempre no campeonato com um total de 103 golos que datava de 1963-64. Houve até um triunfo por 10-0 (Nacional), algo que não se via há mais de 50 anos no Benfica. Na 23.ª jornada uma vitória no Dragão, frente ao rival FC Porto, colocou os encarnados de novo na liderança do campeonato. Precisou de apenas 19 encontros para se sagrar campeão, apenas o quinto português depois de Mário Wilson, Toni, Jorge Jesus e Rui Vitória. Foi a segunda vez na história das águias que um técnico pegou numa equipa a meio da época e acabou campeão.

Começou a época a vencer a Supertaça. Humilhou o Sporting com um 5-0 e os adeptos deitaram foguetes para o bicampeonato, mas o destino tinha outros planos para Lage e o Benfica. Um início de época intermitente e uma desastrosa campanha na Liga dos Campeões fizeram a equipa derrapar. As lesões prolongadas de Chiquinho, Rafa e Gabriel trouxeram problemas, mas não tantos como as aposta falhada em RDT. As indefinições na equipa base e a ausência de um líder no balneário após as saídas de Jonas e Luisão também não ajudaram.

E se já estava mal antes da paragem devido à pandemia (empate no Bonfim), pior ficou no regresso, com apenas um triunfo em quatro jogos. Agora há quem questione: "Qual é o verdadeiro Bruno Lage, o do ano passado ou o deste ano?"

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG