"Qual é o verdadeiro Bruno Lage, o do ano passado ou o deste ano?"

Os encarnados ainda não venceram desde que o futebol voltou aos relvados e comprometeram o ambicionado bicampeonato. Treinador contestado, após derrota com o Santa Clara. Simões questiona onde anda a pressão alta do Benfica e pede decisões "com sentido". Álvaro Magalhães aponta fragilidades à equipa e ao técnico.

"O lugar não é meu, é do Benfica", atirou Bruno Lage, na terça-feira, após a derrota com o Santa Clara (4-3), quando questionado se tem o lugar em risco. Depois carregou contra os jornalistas, que na opinião do técnicos estão ávidos de "promover alguém" para o lugar dele desde a terceira jornada. O discurso, que antes era fluído, incluía o Canal Panda e até explicava com um anormal à vontade, numa roda com jornalistas, como colocou a equipa a jogar em redor de um miúdo chamado João Félix para levar a águia ao título nacional no ano passado, endureceu após uma retoma negra.

O treinador vindo da equipa B, que conseguiu 28 vitórias, um empate e uma derrota nos primeiros 30 jogos que dirigiu na I Liga, só venceu o Rio Ave desde que o futebol regressou aos relvados, após a paragem devido à pandemia, a 12 de março. Cinco jogos seguidos sem vencer no Estádio da Luz é algo nunca visto em 117 anos de história. A derrota da 28.ª jornada colocou a nu a crise exibicional e de resultados do campeão, mas não é a pior sequência de Lage, que esta época também já teve quatro jogos seguidos sem ganhar: FC Porto (derrota), Famalicão (empate), Sp. Braga (derrota), Shakhtar (derrota).

Já esta quarta-feira, o Benfica utilizou o site oficial para expressar a desilusão pela pesada derrota em casa e transmitir uma mensagem de esperança aos adeptos. "Aconteceu, não devia ter acontecido, e agora não nos resta outra possibilidade que não seja a de olhar para o próximo jogo com a ambição de regressarmos às vitórias", pode ler-se na newsletter encarnada, que finaliza com um recado interno: "Estamos certos de que a equipa técnica e o plantel, afinal os campeões nacionais em título, mais do que todos quererão dar essa alegria aos milhões de benfiquistas que, por fora, só querem uma coisa: ganhar e lutar em cada jogo pela vitória. Não desistiremos!"

Estará Bruno Lage em xeque?

Mas o que se passa com este Benfica de Bruno Lage? Estará o treinador em xeque? Na Grécia já apontaram Marco Silva ao lugar dele. As antigas glórias, António Simões e Álvaro Magalhães ajudam a perceber a crise do Benfica.

Para António Simões a "derrota é muito comprometedora" no que diz respeito ao título. O antigo jogador do Benfica admite que haja adeptos que não compreendam como a equipa rende tão pouco e como os jogadores cometem tantos erros e não rendem o que já renderam. "O adepto não sabe das causas, só vê o efeito. E é difícil perceber este descontrolo da equipa, o facto de haver jogadores chave que não estão bem. Talvez não seja preciso mexer tanto à procura de quem resolva, quando é a equipa que tem de resolver e não uma peça ou duas. A equipa parece confusa, sem coordenação, direção ou liderança. E acho que há alguma confusão na passagem da mensagem para os jogadores, que demonstram insegurança e têm períodos em que se eclipsam do jogo".

Qual a responsabilidade do treinador nisso? "A responsabilidade por a equipa não jogar bem e não ganhar é do treinador, para o bem e para o mal", lembrou a antiga glória, : "É muito importante que se faça uma reflexão e se discuta todos os pontos que há a discutir. Há que unir, há que assumir responsabilidades e, se tiver de se tomar decisões, que se tomem. Mas têm de fazer sentido. E se a solução for substituir o treinador, a direção do Benfica tem legitimidade para isso. Bruno Lage ficará para sempre associado à recuperação épica que levou ao título no ano passado, ma isso não o deve agarrar ao lugar."

"Se a solução for substituir o treinador, a direção do Benfica tem legitimidade para isso"

Sem querer entrar numa análise profunda ao trabalho ou à competência do treinador, depois do que fez no ano passado, o antigo extremo interroga-se: "Qual é o verdadeiro Bruno Lage, o do ano passado ou o deste ano? Será um treinador de circunstância ou será um treinador que precisa de mais tempo para ser mais consistente? A competência não tem idade, mas a experiência tem e eu acho que há aqui alguma inexperiência para lidar com situações adversas. Por vezes é preciso uma palavra cruel, por vezes um gesto de afeto, ainda mais nesta altura em que não há adeptos nas bancadas."

A experiência diz-lhe que uma liderança forte em campo "é essencial" para dar a volta ao mau momento. "É agora que se pede aos jogadores mais experientes que façam o papel do treinador em campo porque são eles que interpretam o jogo em campo. Não é preciso mais empenho é uma questão de união e balneário."

Simões nota "algum desgaste emocional" no discurso do técnico, que já foi mais claro e lúcido, mas compreende que ele se possa sentir confuso. "Há meses meses o elogio era permanente, agora a critica também passou a ser permanente e ele deve questionar-se sobre qual será a verdade", defendeu o ex-jogador, avisando que isso não desculpa o discurso de vitimização para o exterior, pois "os primeiros responsáveis pela atual situação do Benfica estão lá dentro".

Simões questiona ainda onde anda a famosa "pressão alta" do Benfica. "A equipa deixou de pressionar alto e recuperar rapidamente a bola ao adversário. O Santa Clara saiu a jogar de trás e chegou à baliza com sucesso por quatro vezes, O Benfica não sabe o caminho do jogo e em vez de andar à frente anda sempre atrás do jogo e andar atrás de qualquer coisa e não encontrar é cansativo e não traz sucesso. Dá-me a sensação que falta uma linha de orientação. O Benfica perdeu o GPS. Esta é a imagem do Benfica", lembrou.

"Bruno Lage depois daquele jogo em Tondela foi traído por alguém"

Álvaro Magalhães lembra que "o Benfica já não estava bem antes da pandemia" e só piorou. "Nota-se que os jogadores não vêm bem preparados fisicamente da paragem de quase três meses. E psicologicamente também estão muito mal. O que eu não entendo. Um jogador do Benfica tem de reagir sempre a uma situação mais negativa. Tem todas as condições. A estrutura nem cortou nos ordenados e dá-lhe as condições para correr e lutar", avisou o antigo jogador encarnado, admitindo que "as coisas não estão bem" e "alguém tem de explicar" aos adeptos o que se passa com o futebol do Benfica e "sem teatro".

Parte do problema já vem da pré-época. "A equipa está fragilizada em algumas posições. A aposta na formação é uma aposta certa, mas temos de ter um certo cuidado. Uma equipa que luta por títulos nacionais e europeus tem de ter uma equipa experiente e equilibrada em temos de qualidade-quantidade e encaixando um ou outro jogador mais jovem na equipa",

Na opinião do ex-treinador, "mudar seis ou sete jogadores não ajuda a equipa a ganhar automatismos" e as "alterações sistemáticas interferem no desempenho dos jogadores e o coletivo não funciona". E nisso, o atual técnico pecou: "Alterava muito a equipa e não criou uma base sólida. Os resultados iam aparecendo, mas nos momentos menos bons a reação foi negativa."

Lage ainda faz parte da solução? "Não está fácil e já outros foram despedidos por menos. A corda parte sempre para o lado do treinador. A treta do ganhamos todos, perdemos todos é a maior mentira do futebol. Quando se perde só perde um, o treinador e o Bruno Lage depois daquele jogo em Tondela foi traído por alguém. Como é possível uma palestra dentro do balneário estar na comunicação social dez minutos depois? Isso fragilizou-o", respondeu Álvaro, lembrando que ele devia ter "fechado o balneário a sete chaves".

Jogar à porta fechada também não têm ajudado: "É impossível não sentir falta dos 60 nas bancadas. Seja para aplaudir ou assobiar. A pressão do adepto do Benfica é muito forte e há adversários que não aguentam essa pressão e isso tem-se notado. Os adeptos fazem muita falta. As palmas e os assobios. O assobio dos sócios do Benfica é moralizante, obriga-nos a dar mais para ganhar os jogos, faz parte da mística."

O que falta jogar a Benfica... e ao líder FC Porto

Quando faltam jogar seis jornadas para acabar a I Liga pandémica, o FC Porto com três pontos de vantagem sobre o Benfica. Além dos três pontos a menos a equipa de Bruno Lage está em desvantagem no confronto direto e por isso não depende só de si para ser campeão. Os encarnados precisam que os dragões cedam pontos em pelo menos dois dos seis encontros que faltam jogar. A próxima jornada tem uma difícil deslocação ao reduto do Marítimo (segunda-feira, 29 de junho, às 18.00, Sport TV), enquanto a equipa de Sérgio Conceição visita o Paços de Ferreira (segunda-feira, 29 de junho, às 21.15, Sport TV).

Na ronda 30, o Benfica recebe o Boavista (no sábado, dia 4 de julho, 21.15, BTV), e no dia seguinte o FC Porto espera pelo Belenenses no Dragão (21.30, Sport TV). Depois na jornada 31 é o FC Porto que entra em campo primeiro, mas por uma questão de horas. A 9 de julho (quinta-feira), os portistas vão a Tondela (19.15, Sport TV), antes de o Benfica jogar em Famalicão (21.30, Sport TV).

Na 32.ª, o Benfica recebe o Vitória de Guimarães (terça-feira, 14 de julho, 21.30, BTV), com o FC Porto a enfrentar e Sporting, num clássico, no Dragão (quarta-feira, 15 de julho, 21.30, Sport TV). Na jornada seguinte os dragões recebem o Moreirense (segunda-feira, dia 20 de julgo, às 21.15, Sport TV) e os encarnados jogam em casa do Desportivo das Aves (terça-feira, 21 de julho, às 21.15, Sport TV).

A última jornada ainda não tem data e horas marcadas, mas a 34.ª ronda promete ser quentinha e emocionante com um Sp. Braga-FC Porto e um Benfica- Sporting.

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