Eixo franco-alemão em confinamento, mas com escolas abertas

"O vírus está a espalhar-se por toda a França a uma velocidade que mesmo os mais pessimistas não previam", disse o presidente francês. "São medidas duras", reconhece a chanceler alemã.

É um exercício de equilibrismo, o que os governos francês e alemão propõem para o próximo mês: na tentativa de combater os números cada vez mais preocupantes de infeções, doentes em cuidados intensivos e mortes, mas sem agravar demasiado a fatura económica opta-se por um confinamento parcial, com escolas e fábricas abertas. Juntos, os dois países contam 46 mil mortes.

A Alemanha registou hoje o maior número de infeções de covid-19 em 24 horas: 16 044. Embora longe dos 36 437 em França em igual período, os alarmes já soaram e, face à curva que se desenha, o governo de Angela Merkel decidiu-se por um confinamento a entrar em vigor a partir de dia 4, com uma duração de quatro semanas, no mínimo.

A França, um dia depois de as autoridades terem anunciado 523 mortes por coronavírus em 24 horas, o número mais alto desde abril, também regressa, a partir de sexta-feira, a um confinamento que se junta a um recolher obrigatório que já vigora nas regiões mais povoadas, abrangendo 46 dos 66 milhões de habitantes.

Cabe ao governo francês apresentar nesta quinta-feira os pormenores das medidas que irão durar pelo menos até 1 de dezembro, mas foi Emmanuel Macron quem se dirigiu aos compatriotas em mensagem televisiva.

Começou por lembrar que a estratégia adotada foi a de viver com o vírus. "Fizemos tudo bem? Não", respondeu de imediato. Depois de rejeitar a hipótese de se atingir a imunidade de grupo, opção que poderia ter um custo de 400 mil mortes adicionais, declarou: "A minha responsabilidade é defender todos os franceses."

Macron explicou que este confinamento é menos rigoroso do que o anterior após ter dado exemplos de como a França está a ficar "sobrecarregada com a segunda vaga": por exemplo, estima-se que mesmo com estas medidas adicionais, cerca de nove mil franceses vão estar nos cuidados intensivos em meados do próximo mês.

Em relação a março, Macron disse que há importantes diferenças: a educação vai continuar a funcionar presencialmente, exceto as universidades; o teletrabalho vai intensificar-se na medida do possível, e os lares vão continuar a receber visitas.

Também as fronteiras europeias vão continuar abertas, outra diferença em relação à primeira vaga. Quem entrar em território francês de avião ou de barco será obrigado a fazer o teste de covid-19.

Como na primavera, disse, os franceses podem sair de casa para trabalhar, prestar assistência familiar ou ir a uma consulta médica. Também poderão deslocar-se nas vizinhanças de casa para praticar exercício. As reuniões privadas fora do âmbito familiar são proibidas, bem como as reuniões públicas.

Na véspera e no próprio dia o presidente francês realizou reuniões ministeriais e um funcionário do governo previu que o anúncio seria "impopular".

Em relação à economia, "que não pode parar nem colapsar", o trabalho industrial e agrícola vai manter-se, ao contrário de bares e restaurantes que voltam a fechar portas. O chefe de Estado anunciou o apoio até dez mil euros mensais às empresas encerradas administrativamente e os trabalhadores que fiquem sem trabalhar receberão subsídio de desemprego parcial. Um plano especial para as pequenas e microempresas vai ser revelado nas próximas horas, muito provavelmente durante a conferência de imprensa do primeiro-ministro Jean Castex.

"Em cada 15 dias, avaliaremos se podemos aliviar algumas das restrições", disse Emmanuel Macron. "Se conseguirmos controlar a situação dentro de 15 dias, podemos esperar reabrir algumas lojas, especialmente durante este período muito importante antes das férias de Natal", continuou.

Pacote de dez mil milhões

Também a Alemanha enfrenta a segunda vaga com medidas semelhantes a França, mas com um número redondo apresentado: dez mil milhões de euros para que as empresas aguentem o embate do encerramento de bares e restaurantes e dos setores da cultura e do lazer.

As medidas "duras e difíceis", como disse Angela Merkel, têm o objetivo de "desacelerar a taxa muito alta de propagação do vírus". O confinamento parcial é para evitar "um estado de emergência na saúde", acrescentou. Merkel informou que o número de doentes nos cuidados intensivos duplicou no espaço de dez dias e que na maioria dos casos já não é possível rastrear os contactos nem quebrar as cadeias de transmissão.

A "terapia de quatro semanas", como chamou o ministro-presidente da Baviera, inicia na segunda-feira com o encerramento restaurantes (exceto para take away) e bares, instituições culturais e cinemas, salas de espetáculos e teatros.

As reuniões poderão ter no máximo dez pessoas de duas famílias diferentes. Escolas irão permanecer abertas, bem como as lojas, "enquanto for possível".

Todas as competições desportivas profissionais serão realizadas a portas fechadas, enquanto os desportos amadores estão proibidos. Ginásios e piscinas também fecham.

As novas regras aplicam-se a todo o território nacional, depois do acordo alcançado com as autoridades estaduais. A estratégia é revista com os líderes regionais duas semanas depois.

Bélgica também confina. Polónia bate recordes

No dia em que a ministra dos Negócios Estrangeiros, Sophie Wilmès, saiu dos cuidados intensivos, devido ao coronavírus, o governo impôs um confinamento parcial a entrar já em vigor. O ministro da Saúde, Frank Vandenbroucke, em entrevista televisiva, disse que após as autoridades terem estudado os modelos de previsões da pandemia, se concluiu que um apertar de regras durante quatro semanas é insuficiente. "Com estas regras, de certeza oito semanas", afirmou, para depois lembrar os belgas que têm pela frente uma "maratona".

Excluindo Andorra, a Bélgica é o país na Europa com mais infeções por número dehabitantes. Na quarta-feira, mais 13 571 casos foram detetados, três dias após o recorde de 17 709 novas infeções.

As atividades culturais, desportivas e recreativas, já proibidas na Valónia e em Bruxelas, ficam agora banidas em todo país. Cafés e restaurantes estão encerrados desde a semana passada.

Os estabelecimentos comerciais não fecham portas, mas o cliente tem de limitar o tempo de compras a 30 minutos e só pode ir acompanhado, no máximo, com outra pessoa.

O recolher obrigatório mantém-se com horários diferenciados na Flandres (meia-noite às 05.00), Valónia e Bruxelas (22.00 às 06.00).

O ensino secundário está desde hoje a funcionar à distância, e muitas escolas primárias não abriram portas, permanecendo encerradas até ao período normal de férias, no calendário escolar.

Na Polónia, multidões permanecem nas ruas contra as novas leis que restringem ainda mais o aborto. Enquanto isso a situação sanitária do país agrava-se: o país de 37,9 milhões de habitantes está a chegar aos 300 mil casos de coronavírus e regista em dois dias seguidos recordes de novas infeções: 16 300 e 18 820. Nem o presidente Andrzej Duda escapou da onda de transmissões e foi infetado.

Nos hospitais há quase 14 mil pessoas internadas com covid-19, das quais 1150 ligadas a um ventilador.

Nos óbitos, depois de ter ultrapassado a barreira dos cem diários no dia 14, chegou a um novo pico na quarta-feira, com 236.

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