Família Trump. "Há uma insistência de que o nepotismo não é um problema"

Obra da biógrafa do presidente dos EUA, Gwenda Blair, mostra como desde muito cedo este percebeu que "tornar o seu nome grande, o maior possível, seria a sua vantagem competitiva".

A primeira biógrafa da família Trump levou "The Donald" a sério quando muitos o viam como um rico fanfarrão de personalidade descarada, ao estilo de Nova Iorque. Gwenda Blair, professora na Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, publicou The Trumps: Three Generations That Built an Empire (Os Trumps: Três Gerações Que Construíram Um Império) em 2000, quando o panorama político dos Estados Unidos estava longe de imaginar um futuro presidente Trump. Em entrevista ao DN, a biógrafa analisa a estratégia do chefe de Estado ao rodear-se de membros da família na sua administração e a presença de vários Trumps na convenção do partido republicano, que confirmou nesta semana a nomeação à recandidatura para a Casa Branca.

Como interpreta a proeminência de membros da família Trump na Casa Branca e na recém-realizada convenção do Partido Republicano?
É uma extensão da marca. Donald Trump deixou a sua impressão no mundo dos negócios com branding. Em meados dos anos 1970, começou com a ideia de que tornar o seu nome grande, o mais possível, seria a sua vantagem competitiva. No momento em que se formou e começou a trabalhar com o pai, o branding não era um fenómeno tão grande como é agora. Ele não o inventou, mas aquela noção de pôr o nome Trump em tudo o que fosse visível e tornar-se grande, conhecido, famoso, uma celebridade, essa influência extra que traria, foi algo que teve em mente desde cedo.

Foi, portanto, o influenciador original?
Sim, exatamente. Percebeu que tinha um poder multiplicador. Começou no imobiliário, passou para os casinos e ao longo da década de 1980 fez tudo para promover o seu nome e associá-lo a ser um magnata. Comprou uma equipa de futebol, um iate gigante, uma companhia aérea, hotéis. Fez tudo o que podia para dar a imagem de ser um homem de negócios extremamente bem-sucedido e rico, ter todos esses atributos associados ao nome Trump. De tal forma que conseguiu meter-se numa série de empreendimentos em que os bancos é que queriam emprestar-lhe dinheiro, porque acreditaram nessa imagem de sucesso. Obviamente, ele foi à falência quatro vezes porque na verdade não era um homem de negócios assim tão bom.

No entanto, não é nisso que as pessoas acreditam até hoje.
Não é. Essa associação ao nome é tão poderosa porque ele fez um trabalho notável em tornar o nome sinónimo de sucesso, luxo, génio dos negócios e as falências não têm importado. Os próprios bancos que lhe fizeram grandes empréstimos não conseguiram executá-los, porque se retirassem o nome dele as propriedades perdiam valor. Ele encurralou os bancos. Hoje, tem o Partido Republicano encurralado.

Considera que a proeminência de Trumps no governo e na convenção é uma extensão dessa estratégia de negócios de que escreveu na biografia?
Sim. É uma continuação do branding no espaço da política. Manter a ideia de que este nome conota sucesso e sagacidade nos negócios e agora sagacidade política. A proposta de valor que ele oferece é que Trump é o fiador, um garante de ser bem-sucedido, um vencedor, um campeão, no topo de tudo. Ter toda a sua família tão presente é algo que ele também fez em 2016. Houve alguém com sobrenome Trump em todas as noites da convenção, ele estava muito presente e está ainda mais presente agora.

O que é um desvio da norma no partido.
O comportamento de quebrar normas e tradições que ele tem demonstrado desde que começou a sua campanha faz parte deste cálculo. É para mostrar que ele é maior, mais forte, mais importante, não constrangido por tradições e normas ordinárias. A jogada que ele fez é que usaria todo este poder e força em nome dos eleitores, não seria constrangido por tradições antigas nem comportamentos normais. Fez que parecesse que estava a fazer isso em nome dos cidadãos que foram vitimizados pelas elites e políticos, seria o seu campeão. A exibição de poder e a recusa de seguir normas de comportamento é uma demonstração de força.

Como se explica que essa imagem tenha resistido às críticas, mesmo as vindas da sua própria família, como se viu recentemente com a sobrinha Mary e a irmã Maryanne?
Penso que ele compreendeu muito bem como o branding funciona e que esta é uma era de poder das celebridades. Isso passa por cima de praticamente tudo.
Ao mesmo tempo, em especial numa presidência, isso é acompanhado de uma deslegitimação dos meios de comunicação em massa, do jornalismo, dos padrões da verdade, dos factos, da precisão. É um enfraquecimento constante das convenções.

E portanto, quando diz aos apoiantes que os jornalistas vão criticá-lo e depois isso acontece, tudo se torna uma profecia autorrealizável?
Precisamente. Ele percebeu, muito cedo, a importância de aparecer nas colunas de mexericos, conferências de imprensa, ser audacioso nas suas declarações e apoderar-se do território. Antes de ser nomeado, durante os debates, antes de qualquer coisa acontecer, ele tomava imediatamente uma posição e dizia algo a que toda a gente passava a ter de responder. Põe toda a gente na defensiva, é o que tem feito durante a sua presidência. Dizer algo ultrajante, acusar alguém de algo, gozar com alguém, denegrir e obrigar a responder. Esse tem sido o modo de operação.

Durante a pesquisa e entrevistas que fez para a biografia, encontrou paralelos com os Kennedys?
Há certamente um esforço para estabelecer uma dinastia, há um ethos dinástico que é apresentado. Mas os Trumps não o inventaram, os Kennedys também não. Houve os Tafts, os Roosevelts, um número de famílias aqui e noutros países que acumularam poder e riqueza. O esforço é tornar a família Trump maior do que a vida, insistir nas suas capacidades sobre-humanas para levar dos sucessos nos negócios aos sucessos na política. Os homens são mais charmosos, as mulheres são mais glamorosas, são ícones que as pessoas reconhecem. Os Kennedys certamente apoiaram-se nisso. Há também uma insistência de que o nepotismo não é um problema. Que não há tal coisa como demasiado poder numa família como esta. Que estas são as pessoas que devemos querer no poder. Os Kennedys fizeram isso. John F. Kennedy nomeou o seu irmão e vários outros membros da família.

As fronteiras entre a política e a família esbatem-se.
Há aqui também um elemento de lealdade. Estas são as pessoas que vão ser leais a Trump, com quem ele não tem de se preocupar. Há um aspeto de valores familiares embebido nisto.

Mas isso não aconteceu com os Clintons. Hillary foi sempre criticada e acusada de subir à custa do marido, o ex-presidente Bill Clinton. Porquê?
Bom, ainda não vimos nenhuma mulher da família Trump a dar um passo individual e a tentar ser eleita para alguma coisa. O sexismo e as noções tradicionais dos papéis dos sexos não foram desafiados. A Ivanka [Trump] teve um negócio, mas era roupa de mulher. Ela tem aparecido no papel de esposa, mãe e filha. Tem tido uma versão de alto perfil do papel de mulher subordinada. Exemplifica a mulher moderna que ainda assim retém o papel feminino tradicional. Melania [Trump], apesar dos esforços de muita gente para detetar ali alguma rebelião, não demonstrou nada. Há este livro que vai sair [da autoria de Stephanie Winston Wolkoff], mas não parece que vá sair daí muita coisa. Não há nenhuma rebelião a acontecer, com a exceção singular da sobrinha Mary que escreveu um livro, e da irmã Maryanne, que foi gravada a dar voz à sua reprovação.

Chegou a falar com ela quando escreveu a biografia?
Entrevistei-a e ela foi extremamente franca e direta. Não fiquei nada surpreendida pelo que ela disse na gravação. Mas foi o único membro da família que eu entrevistei - e entrevistei bastantes - com essa franqueza e perspicácia.

Houve alguma coisa que a apanhou de surpresa quando fez a pesquisa e as entrevistas para a biografia?
Claro. Comecei a escrever o livro que era para ser originalmente uma biografia do Donald [Trump]. Entrevistei-o várias vezes no seu escritório. A Arte da Negociação tinha sido publicado anos antes e nesse livro ele parecia um bad boy, muito audacioso, havia algo muito interessante sobre si, como conseguia sempre levar a melhor com toda a gente. Tinha muita energia e o livro foi bastante bem-sucedido e estabeleceu a sua reputação pública. Quando o entrevistei não vi muitos traços disso. Ele não parecia ter grande perspicácia, tinha muito pouco interesse pela história da sua família ou até um olhar mais profundo sobre ele próprio. Sentindo-me frustrada com isso, decidi olhar para a família e acabei por fazer a biografia do avô, do pai e de Donald. Foi um retrato interessante de um século nos Estados Unidos, em que o comportamento empreendedor destas três gerações abarcou o século de desenvolvimento económico. O avô viu a oportunidade da sua era, a corrida ao ouro, e abriu restaurantes. Entendeu o que os seus clientes queriam, que era álcool, comida e mulheres, e forneceu-os todos. O pai viu a fronteira seguinte no governo federal, explorando apoios federais para o alojamento. Fez uma fortuna à conta disso. Para Donald, terceira geração, a próxima fronteira foi o branding e a presença pública, em que o valor de ser famoso e uma celebridade foi um tipo diferente de ativo para trocar. Ver como esta astúcia, o oportunismo e o comportamento transacional navegaram pelo século inteiro e pela história do país e pela cultura desta família foi muito informativo.

Imaginou que Donald Trump seria eleito presidente quando escreveu a biografia?
Quando escrevi o livro, estava a seguir a família até um certo ponto, até ao ano 2000. Não diria que não podia imaginar, mas pensei que ele não se candidataria porque não quereria pôr em foco as suas transações financeiras. Que não quereria chamar a atenção para o lado financeiro da Trump Organization. Teria de revelar a sua declaração de impostos e pensei que essa era a linha que ele não pisaria. Eu estava certa de que ele não pisaria essa linha. O que não antevi é que as pessoas aceitariam isso.

E porque aceitaram?
Houve outro par de coisas que não antevi. O meu livro foi publicado em 2000 e não antevi o surgimento de The Apprentice e que isso seria o cumular de tudo o que a sua carreira até aí vinha estabelecendo, a sua marca, o seu nome, ligar isso com a noção de luxo e magnata, que entraria pelas casas das pessoas através da televisão. Isso levou-o além das páginas do social em Nova Iorque e tornou-o conhecido nacional e internacionalmente, apresentando essa imagem de magnata. Levou-o ao próximo nível de fama. Também não antevi que, em 2011, ele estaria ao leme do movimento birther [que questionou a autenticidade da cidadania americana de Barack Obama] e que isso teria um apoio tão enorme. Deu uma guinada para a direita nessa altura. Estas foram as duas grandes peças que fizeram acontecer a sua candidatura.

Prevê escrever mais algum livro sobre ele?
Estou a escrever um livro, mas sobre outra coisa. Já escrevi a biografia. Levei este homem a sério quando ninguém o levava a sério. Isso mudou e agora há centenas de livros sobre ele. Não vou fazer mais um.

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