Palácio de Seteais. Como uma pandemia muda um hotel

Sem grandes planos, aqui vieram parar alguns dos portugueses que se fizeram às estradas nacionais neste verão. Não era costume ouvir-se tanto a língua materna pelos corredores e jardins históricos do hotel Tivoli no Palácio de Seteais, em Sintra. Há três meses de portas abertas, depois do estado de emergência, o palácio do século XVIII está a reinventar-se e a virar-se para dentro. O distanciamento físico está mais do que garantido, uma vez que espaço não falta, mas do check-in ou ao check-out, muito se faz agora de forma diferente.

Pelo caminho da misteriosa estrada de Sintra de Eça de Queiroz e de Ramalho Ortigão, por entre verdes e castanhos, curvas feitas ao sabor do ar da serra, e antes de chegar à Quinta da Regaleira, fica Seteais. Já com nome de lugar independente, mesmo que a dois quilómetros da vila de Sintra. O palácio do século XVIII, ponto de referência em todos os roteiros sobre Sintra, é conhecido pelos seus jardins cuidados, pela vista, pela mistura dos cheiros das árvores e das flores. Neste mês faz 65 anos nas mãos da cadeia de hotéis de luxo Tivoli, um aniversário diferente, num ano em que o Palácio de Seteais teve de fechar - à semelhança do que aconteceu com os outros hotéis, por causa da pandemia de covid-19 - e reabrir com preocupações acrescidas com a segurança sanitária.

As mudanças anunciam-se à entrada. Quando Marta, a rececionista, faz o check-in, a sorrir pelos olhos, porque a máscara lhe tapa a boca, afasta-se da secretária junto à porta da entrada. Acompanha os clientes recém-chegados até à sala de estar ao lado, onde há mais espaço para manter a distância recomendada pelas autoridades de saúde. A caneta que serve para preencher os dados pessoais é oferecida ao cliente e, se for necessário, há uma caixa com máscaras cirúrgicas, toalhitas e desinfetante para levar. O reforço está no quarto, onde é colocado um kit para cada pessoa.

A mala fica ali, na receção, uma vez que, pelo menos, as rodas têm de ser desinfetadas. E o cliente já pode seguir o seu caminho, pelos corredores silenciosos. Há hóspedes, não em todos os quartos, uma vez que estes fazem quarentena entre clientes, mas há hóspedes. Só é raro cruzarem-se, porque a oferta de escadarias torna a casa num labirinto. Não falta espaço, no interior e no exterior, sendo que a lotação máxima do hotel já são apenas 30 quartos em circunstâncias normais.

Os cuidados com a limpeza sempre foram aprimorados por se tratar de um edifício histórico, que precisa de manutenção constante. Mesmo assim, a pandemia veio aumentar o tempo que cada camareira passa dentro de um quarto. Parte da decoração foi removida para evitar toques desnecessários, mas tudo tem de ser limpo uma e duas vezes, para além de haver novas tarefas. Até as cápsulas da máquina de café de cada quarto têm de ser colocadas em quarentena e as cortinas de banho são renovadas a cada cliente.

Lucília, 55 anos, personifica o desafio dos novos tempos. Percorre o corredor do primeiro piso, em direção a uma das suites, vestida com um fato descartável, traz uma touca e calça luvas, usa óculos de proteção e na mão direita vem o cesto cheio de produtos de limpeza e desinfeção. Vai começar pela casa de banho e esperam-na umas horas de trabalho. Mas vem satisfeita, sabe que lhe vão perguntar pelo que faz e tem orgulho no que tem para contar. Lucília trabalha no Palácio de Seteais há 30 anos, é a segunda funcionária com mais tempo de casa.

"Trabalhar aqui era o meu sonho", conta. Nasceu em Castelo Branco e na família havia quem tivesse vindo ajudar no hotel quando este inaugurou. Sempre que regressavam à terra "via-se que tinham outra vida, que estavam melhores". Foi assim alimentando a ideia de que também ela deveria mudar-se para Sintra. Um dia apresentou-se à governanta do palácio, que falou com o diretor, e conseguiu um lugar nas limpezas. Dois anos depois passou a camareira.

"Nunca o hotel esteve sozinho."

"Os funcionários têm um vínculo muito grande com o hotel. Muitas destas pessoas quase nasceram aqui ou tiveram aqui o primeiro emprego. A dona Lucília vinha todos os dias regar as plantas, mesmo com o hotel fechado [por causa da pandemia]. O Horácio vinha olhar para as pratas para ver se estas não estavam a escurecer. Nunca o hotel esteve sozinho", mesmo quando tiveram de fechar as portas para os clientes, nos primeiros três meses da pandemia de covid-19, aponta Graziela Rocha, a diretora do Tivoli de Seteais.

De volta ao ativo, já se desdobram em tarefas e precisam de dar mais atenção a cada pessoa. Na piscina, as toalhas têm de ficar quase à conta e envolvidas num saco, as espreguiçadeiras desinfetadas sempre que alguém deixa o lugar, no spa os horários das marcações estão mais rígidos e no restaurante já não existem buffets.

Na sala do pequeno-almoço e jantar, as mesas encontram-se afastadas e é o empregado de mesa quem traz a comida, evitando-se movimentações. Cada hóspede chega à hora certa, marcada no check-in, e sua mesa já está pronta.

"O Palácio de Seteais é património dos portugueses" e reabriu com a ajuda destes

O Palácio de Seteais foi o primeiro hotel Tivoli da região da Grande Lisboa a preparar a abertura em época de pandemia, a 10 de junho, Dia de Portugal, por ser um dos espaços mais facilmente adaptáveis à realidade imposta pelo novo coronavírus. "Seteais tem o potencial daquilo que as pessoas procuram: espaço, ar livre", diz a diretora do hotel, Graziela Rocha, enquanto abarca num gesto de mãos a paisagem envolvente, na esplanada com vista para o Jardim dos Limoeiros.

Não sabia o que lhe ia reservar a abertura durante a pandemia, mas não se queixa. Os quartos têm tido procura e até os eventos - minicasamentos e minibatizados - agora com um limite máximo de 20 convidados decidido pela Direção-Geral da Saúde - se têm mantido e recebido novas marcações. Em agosto, recuperaram a vida do hotel, mas "virados para um mercado completamente diferente". As reservas espelham a imprevisibilidade dos tempos: são de last minute [em cima da hora], explica Graziela Rocha, que vai para casa muitos dias com os quartos por alugar e regressa no dia a seguir para encontrar as reservas preenchidas.

"Vou para casa com cinco quartos ocupados e, quando chego para trabalhar, há 18. As pessoas estão a decidir muito em cima da hora. Há muita gente que está a fazer viagens por Portugal, passa por aqui e resolve ficar para dormir", continua a gerente.

A quantidade de portugueses tem sido também uma agradável surpresa. Há anos que os clientes do hotel de luxo de Sintra eram essencialmente estrangeiros; neste ano, continuam a vir muitos franceses e espanhóis, mas também há portugueses. A mudança agrada à diretora: "O palácio é património dos portugueses e é importante abrir o palácio a todos", diz, lembrando que o edifício neoclássico pertence ao Estado português, desde 1946.

Mandado construir em 1783 por Daniel Gildemeester, cônsul holandês, o Palácio de Seteais depressa mudou de dono, uma vez que o edifício ficou terminado pouco antes de Gildemeester morrer. Esteve depois na posse do quinto marquês de Marialva, responsável pela edificação do arco central em honra do rei D. João VI, e teve muitos outros proprietários até ser adquirido pelo Estado na década de 1940, o que o salvou do abandono em que é descrito na obra Os Maias do escritor Eça de Queiroz.

Dos sucessivos donos foi herdando mais de duas mil peças de decoração que dão um aspeto de museu ao palácio, entre estátuas, pinturas com cenas mitológicas, um piano centenário, tapeçaria. Aqui já dormiram desde a família real holandesa à escritora britânica Agatha Christie.

Mas ninguém terá até agora conhecido o palácio assim, com pessoas de máscaras e frascos de desinfetante em mobiliário centenário. Só a natureza imperturbável concede a normalidade a Seteais.

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