O Mistério da Estrada de Sintra. Mais do que um folhetim de verão

Em julho de 1870, Lisboa aborrecia-se ao sol. Provocadores, dois jovens membros da chamada Geração de 70, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, decidem agitar tal modorra com um folhetim intrigante iniciado com um crime na Estrada de Sintra. Publicaram-no no Diário de Notícias durante dois meses em que ninguém perdeu pitada.

Sintra ainda se escrevia com "C" mas foi através das páginas do DN que dois jovens escritores, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, se dispuseram a abanar a sonolenta Lisboa, mergulhada na languidez da canícula: "Há 14 anos numa noite de verão, no Passeio Público, em frente de duas chávenas de café, penetrados pela tristeza da grande cidade que em torno de nós cabeceava de sono (...) deliberámos reagir sobre nós mesmos e acordar tudo aquilo a berros, num romance tremendo, buzinando à Baixa das alturas do Diário de Notícias", escreve Eça de Queiroz no prefácio à segunda edição em livro de O Mistério da Estrada de Sintra, datada de 1884.

Como o fizeram? Usando essa novidade do seu tempo, que era o poder absoluto da imprensa escrita na formação da opinião pública, para expor as pequenas misérias de uma certa aristocracia lisboeta que ia a Sintra refrescar-se dos incómodos estivais da capital. Para isso, engendraram um enredo de tal maneira rocambolesco que seria digno das Proezas de Rocambole, o folhetim de Ponson du Terrail que criara este adjetivo ainda hoje comum: certa noite, indo um médico e um escritor de caleche pela estrada de Sintra (que se iniciava onde hoje é a Estrada de Benfica e ligava a capital àquela vila), foram surpreendidos e raptados por quatro homens embuçados, que os levariam a uma casa isolada. O objetivo era confirmar o óbito de um oficial britânico, a quem fora ministrada uma dose excessiva de ópio. À medida que a noite avançava os dois compreenderiam estar diante do trágico corolário de um triângulo amoroso constituído pelo assassinado, uma condessa portuguesa mal casada e uma bela rapariga chegada de Cuba. Tudo começara meses antes da fatídica noite, durante uma estada em Malta, à época parte do império britânico. Isto, claro, sem perder o tom jocoso com que Eça e Ramalho habitualmente tratavam as suas personagens.

Forjada a intriga, a mesma começaria a ser enviada em sucessivas cartas a Eduardo Coelho, primeiro diretor do Diário de Notícias. Na primeira, a atmosfera de mistério preparava já o espírito do leitor para um caso cheio de suspense: "Senhor Redator do DN, venho pôr nas suas mãos a narração de um caso verdadeiramente extraordinário em que intervim como facultativo, pedindo-lhe que, pelo modo que eu entender mais adequado, publique a substância do que vou expor. Os sucessos a que me refiro são tão graves, cerca-os um tal mistério, envolve-os uma tal aparência de crime que a publicidade do que se passou torna-se importantíssimo como chave única para a desvendação de um drama que suponho terrível conquanto não conheça dele senão um só ato."

Na véspera da sua publicação, a 23 de julho, o próprio jornal aguçará o apetite do leitor ao publicar este aviso no espaço imediato aos «Assuntos do dia»: "A hora já adiantada recebemos ontem um escrito singular. É uma carta, não assinada, enviada pelo correio à redação, com o princípio de uma narração estupenda, que dá ares de um crime horrível, envolto nas sombras do mistério, e cercado de circunstâncias verdadeiramente extraordinárias, e que parece terem sido feitas para aguçar a curiosidade, e confundir o espírito em milhares de vagas e contraditórias conjeturas. Trata­‑se da sequestração noturna de um médico, e de um amigo seu para assistirem a um ato gravíssimo, e, demais factos subsequentes. O interesse que esta narração desperta, a forma literária que a reveste, e o crime que parece revelar nos obrigam a não buscar resumi­‑la, e a dá­‑la na íntegra aos nossos leitores. Não podemos, porém, inseri-la sem eliminar o folhetim, e substituí­‑lo por esse escrito, o que faremos em a nossa folha de domingo."

A dúvida estava lançada: notícia ou ficção? Durante mais de dois meses, de 24 de julho a 27 de setembro, os leitores do jornal não perderam pitada, desconhecendo totalmente a autoria de quem escrevia, mas incapazes de resistir ao suspense que se lançava no final de cada capítulo do folhetim, uma técnica de "engodo" ainda hoje adotada pela ficção televisiva. O sucesso foi total. As 31 cartas seriam reunidas em livro nesse mesmo ano, numa edição da Parceria António Maria Pereira, só se revelando a sua na última, que também encerra a história.

Como escreve o estudioso da obra de Eça de Queiroz e catedrático da Universidade de Coimbra, Carlos Reis, na nota prefacial à edição crítica de O Mistério da Estrada de Sintra: "Este é um exercício de construção de uma ficção que habilmente disfarça essa sua condição. Ou que joga, de forma deliberada e divertida, com as frágeis fronteiras da ficção e com dispositivos contratuais e discursivos que põem em causa a distinção entre mundo ficcional e mundo real. Era um jovem que andava pelos 25 anos quem comparticipava naquele exercício, já então, como acontecera alguns anos antes com os folhetins da Gazeta de Portugal, com o claro propósito de introduzir uma vibrante nota de provocação nas rotinas culturais da burguesia lisboeta. Acompanhava Eça de Queiroz, na composição do romance, Ramalho Ortigão, mais velho nove anos do que o amigo (e seu antigo professor, como se sabe), na que seria uma primeira colaboração entre ambos, aprofundada, no ano seguinte ao do aparecimento d"O Mistério da Estrada de Sintra, quando irromperam, na cena cultural portuguesa, As Farpas."

Quinze anos depois, com os dois autores a serem já nomes conhecidos do grande público, far-se-ia uma segunda edição da obra, em que os dois esclareceriam as circunstâncias em que esta fora produzida: "O que pensamos hoje do romance que escrevemos (...)? Pensamos simplesmente - louvores a Deus - que é execrável." Mas acrescentam, sempre provocatórios. "Aos 20 anos é preciso que alguém seja estroina, nem sempre talvez para que o mundo progrida, mas ao menos para que o mundo se agite."


Folhetins, entretenimento das famílias

Num mundo anterior à rádio, ao cinema e à televisão, a leitura era o principal meio de entretenimento das famílias. Em França e em Inglaterra, jornais e revistas de grande tiragem começaram a publicar histórias, fundamentalmente de aventuras, em "episódios", de modo a fidelizar os leitores. Quanto mais agitadas fossem as peripécias dos heróis, melhor. Assim se estrearem, nas lides literárias, homens como Alexandre Dumas que começaria por escrever os seus maiores êxitos como Os Três Mosqueteiros ou O Conde de Monte Cristo no jornal Le Siècle. O mesmo aconteceria com outros autores como o referido Ponson du Terrail, Paul de Kock ou mesmo grandes nomes do cânone literário francês como Balzac ou Zola. Do outro lado da Mancha, o mesmo faria Charles Dickens, que, aliás, começaria por assinar a crónica judicial do que se passava nos tribunais de Londres. Em 1833 começaria a publicar na revista The Monthly Magazine um conjunto de apontamentos humorísticos a que daria o nome de Sketches by Boz, que reuniria em livro em 1836. Mas várias obras de Dickens fariam o mesmo percurso, como Os Cadernos de Pickwick ou mesmo romances como Oliver Twist (publicado originalmente na Bentley"s Magazine) ou Nicholas Nickleby. Lá, como cá, o método era sempre o mesmo: aparecia na parte inferior de uma página ímpar e, de edição para edição, tratava de agarrar o leitor com suspense e "cenas dos próximos capítulos". Já no século XX, jornalistas como Reinaldo Ferreira (o famoso Repórter X) usariam técnicas não muito diferentes em reportagens de longa duração, publicadas na imprensa diária, como O Táxi n.º 9297 (sobre o assassinato da atriz lisboeta Maria Alves, que mais tarde o próprio transformaria em livro e em filmes), que, ao longo de meses, acompanhou a intricada investigação em torno de quem, numa noite escura de 1926, atirara o corpo da mulher, já morta, de um táxi em andamento. Tivesse ele usado o título O Mistério do Regueirão dos Anjos e ninguém se teria escandalizado.

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