"A probabilidade de uma segunda vaga no próximo inverno é muito alta"

Nuno Marques dirige o centro de investigação biomédica Algarve Biomedical Center (ABC), que tem estado no centro do combate à pandemia. Ao DN, fala dessa luta dos últimos três meses, e do futuro, em que máscaras, distanciamento social e lavagem das mãos serão obrigatórios, "pelo menos nos próximos dois, três anos".

Médico nos hospitais de Faro e Portimão, professor da Universidade do Algarve e presidente do Algarve Biomedical Center (ABC), uma parceria entre aquelas instituições para a investigação biomédica, Nuno Marques tem estado na linha da frente no combate à pandemia de covid-19 em Portugal. Foi um dos impulsionadores dos testes de diagnóstico nos centros de investigação científica por todo o país, numa rede que agora abrange 22 centros, que foi "decisiva" na fase mais crítica e que "é para continuar", afirma. O médico, professor e investigador não tem dúvidas de que esta rede "é uma oportunidade" para "um desenvolvimento global mais rápido e eficaz" do país. Quanto à probabilidade de uma segunda vaga da pandemia no inverno, diz, "ela é muito alta", pelo que "temos de estar muito atentos" e "continuar a preparar-nos". Já o distanciamento social, o uso de máscaras e a lavagem frequente das mãos, vieram para ficar "durante os próximos dois, três anos, pelo menos". É um novo modo de vida que "temos de adotar". E nunca baixar a guarda, porque "um novo surto pode ocorrer em qualquer altura".

O centro ABC teve um papel central no combate à covid no Algarve. Três meses depois de a doença ter chegado a Portugal, que balanço faz da situação no país e no Algarve em particular?
É um bom balanço. Em vários países a pandemia ultrapassou em muito a capacidade de resposta dos serviços de saúde, e em Portugal houve medidas que permitiram que isso não acontecesse. Para isso contribuíram a própria área da saúde, mas outras também, que estiveram a lutar juntas. Foi o que o centro académico ABC fez no Algarve. Percebemos logo que o combate à pandemia não podia estar só dentro das instituições da saúde e que era fundamental iniciar o combate numa primeira linha, fazendo o máximo possível de testes fora das instituições de saúde e deixando para estas apenas os casos que necessitavam de internamento hospitalar e de cuidados intensivos. Pela primeira vez, viu-se também uma grande união entre todos, na saúde, na ciência e na própria indústria, para se encontrarem as melhores soluções. Foi essa a chave para que o número de óbitos, que infelizmente existem, não fosse tão alto como aconteceu noutros países europeus.

Neste momento continua a haver focos ativos no país. Porquê?
Era expectável com esta reabertura, depois de o país ter estado fechado. Isso significa que temos de estar muito atentos. É fundamental que todos os casos sejam detetados a tempo, no início das cadeias de transmissão, traçados os contactos e isolados os casos, para se limitar a propagação do vírus. Quanto maior for o cuidado em usar máscaras, em manter o distanciamento social e em lavar as mãos, mais limitado será o contágio. A forma como as coisas correrem vai depender muito do comportamento das pessoas.

Tem-se discutido muito a utilização de aplicações móveis para identificar os contágios. Qual é a sua opinião sobre isso?
Sou favorável à utilização dessas aplicações, desde que elas protejam a privacidade e a identidade das pessoas. Essas aplicações permitem uma maior certeza na identificação de contactos com casos positivos e são uma ajuda importante para conter as cadeias de transmissão, porque temos de estar um passo à frente delas. E já há algumas aplicações na Europa que estão a ser testadas e lançadas, que preservam a privacidade das pessoas.

O que requer agora maior atenção no combate à pandemia?
É muito importante que a população compreenda que os cuidados têm de ser mantidos, senão vamos ter mais focos e um grande número de casos de covid-19. E os centros de investigação que tiveram uma ação decisiva no combate à pandemia, no esforço dos testes e na procura de soluções, vão ter de continuar ativos e a manter a capacidade de resposta. No próximo inverno no hemisfério norte, a partir de outubro, novembro, espera-se de novo um número de casos significativo, a par da gripe e de outras infeções respiratórias. Teremos de estar muito atentos e ter uma grande capacidade de fazer testes, para isolar os casos de covid-19, para que não haja cadeias de transmissão em massa que levem ao colapso do Sistema Nacional de Saúde [SNS]. Temos de ir melhorando o que já fizemos, otimizar tudo em cada uma das instituições de saúde e de ciência para termos o máximo de preparação possível para o próximo inverno, quando a necessidade de testes vai ser muito grande. No nosso caso do ABC, há ainda esta época de verão, com muitos turistas no Algarve. Temos de estar muitos atentos porque este aumento de população aumenta também o risco de propagação do vírus.

É inevitável uma segunda vaga de covid-19?
Ninguém pode afirmar com toda a certeza, mas a probabilidade é muito alta. Estamos a falar de um vírus e de uma doença que têm tudo para ter um carácter sazonal. A probabilidade de uma segunda vaga no inverno no hemisfério norte é muito alta.

Mas poderá ocorrer ainda antes do inverno?
Pode ocorrer antes se não tivermos cuidado, porque este vírus tem uma grande capacidade de transmissão. Ocorrer no inverno será o mais natural, mas não podemos ficar descansados em altura nenhuma, porque uma pessoa pode contagiar muitas, mesmo com muito pouca sintomatologia. Se não tivermos cuidados, podemos ter um surto em qualquer altura, também no verão. Não podemos baixar a guarda até termos vacina, se é que é possível tê-la, ou tratamentos eficazes, se é que é possível tê-los. Está a ser feito um esforço mundial nesse sentido, mas não espero nenhuma das duas soluções para este ano. Se pensarmos no tempo que leva o desenvolvimento de qualquer um deles, tê-los no próximo ano será muito rápido. Vamos ter de continuar a conviver com a doença, estar muito atentos e, ao mínimo sinal, fazer testes, testes, testes, para isolar os casos e evitar que uma pessoa infetada contagie muitas outras.

Neste momento, estamos preparados para uma segunda vaga?
Estamos muito mais bem preparados agora do que há três meses, e esse trabalho continua nas unidades hospitalares. O SNS respondeu muito bem ao primeiro embate e está a preparar-se para um segundo, que pode ser ainda mais forte e violento. Está a fazer-se o reforço dos equipamentos de internamento, otimização dos circuitos e preparação das equipas. E temos a rede de centros de investigação que é complementar em termos de testes, e nos dá a garantia de capacidade muito alta de testes, e que ainda pode ser aumentada se necessário.

Os centros de investigação científica começaram muito cedo a fazer testes de diagnóstico para a covid-19. Como aconteceu isso?
Foi um movimento espontâneo. O IMM [Instituto de Medicina Molecular - João Lobo Antunes, da Universidade de Lisboa] começou a fazê-los, nós aqui, na mesma altura, desenvolvemos também essa capacidade, os centros comunicaram entre si e, a partir daí, criou-se uma rede. Estamos a falar neste momento de 22 centros investigação no país, que estão a partilhar experiências. Qualquer inovação de um deles é logo colocada à disposição dos outros. Nunca tinha visto os centros de investigação a partilhar a informação em rede desta forma, ao serviço da população.

Isso foi decisivo no combate à pandemia em Portugal?
Foi decisivo naquela altura em que não havia kits de diagnóstico disponíveis, porque permitiu que nunca houvesse quebra no número de testes. Até hoje [terça-feira, 16 de junho], os centros de investigação já fizeram mais de 172 mil testes de RT- PCR, que faz o diagnóstico direto, detetando o material genético do vírus. Isto só foi possível porque em muitos destes centros há investigadores qualificados que já aplicavam estas técnicas nas suas investigações.

Que ações fora das instituições de saúde foram também essenciais no combate à pandemia?
Uma delas foi a criação dos drive-thru [os utentes não saem dos seus veículos], onde se fizeram muitas colheitas de amostras para testes, evitando que doentes com pouca sintomatologia causassem aglomerações em unidades hospitalares. E nos lares, também. O Ministério do Trabalho e da Segurança Social percebeu que os lares seriam focos potenciais, e avançou com testes de forma preventiva, não indo apenas atrás do problema, como aconteceu noutros países. Aí tiveram um papel-chave os centros de investigação científica, que se disponibilizaram por todo o país, para que houvesse essa capacidade adicional de testes dos funcionários e dos utentes dos lares. Isto permitiu identificar focos muito cedo, e evitou muitas mortes no país.

E a intervenção do ABC no Algarve?
Ainda antes de haver casos em Portugal já estávamos no terreno. Percebemos o que estava a acontecer nos outros países, parámos as outras atividades e pusemos o nosso foco na covid-19. Ajudámos instituições no Algarve a preparar os seus planos de contingência e depois percebemos que era preciso retirar o máximo possível de doentes do centro hospitalar, que muitas vezes tem dificuldades no seu funcionamento, como é público. Acabou por não haver problemas porque muitos dos casos não chegaram sequer ao centro hospitalar. Criámos um centro de testes drive-thru no Estádio do Algarve, que já recolheu mais de 25 mil amostras, de pessoas que assim não passaram pelas unidades hospitalares nem centros de saúde, e os casos positivos puderam fazer a quarentena em casa. Além disso desenvolvemos e criámos a capacidade de testes. Até agora fizemos mais de 21 mil testes, e mantemos um laboratório funcional nesse sentido. O Algarve só tinha um laboratório para toda a região. O ABC apoiou também nos testes nos lares e creches no Baixo Alentejo e Alentejo Litoral, e isso vai continuar. Além disso, desenvolvemos algumas soluções quando havia escassez de dispositivos.

Que soluções foram essas?
Zaragatoas e kits de colheitas de amostras que, em abril não havia no país, e que foi necessário desenvolver. Foram inicialmente produzidos por uma startup da Universidade do Algarve e depois por uma empresa do norte, a Hidrofer, que tinha maior capacidade de produção. Além disso, os nossos alunos de Medicina reforçaram a linha SNS 24 que a certa altura não estava a conseguir dar resposta, como se sabe. São 150 alunos dos dois últimos anos do curso de Medicina da Universidade do Algarve que continuam hoje a fazer esse atendimento. Mais tarde, o ABC e a Universidade do Minho abriram outro call center para atendimento à linha SNS 24 em Braga, com alunos do último ano de Medicina do curso do Minho. Este está agora temporariamente encerrado, por não haver necessidade, mas mantém-se a disponibilidade de todos, caso haja mais algum pico. O do Algarve, em Faro, continua a funcionar.

Que frutos pode no futuro dar esta colaboração entre os centros de investigação?
É uma oportunidade e um exemplo que no futuro podemos usar noutras coisas. O país precisa desta colaboração. Ela ajudará a que o desenvolvimento global possa ser muito mais rápido e eficaz. Vê-se um contacto fácil entre todos que vai ficar e deixar marcas no país e na ciência. Os centros vão continuar interligados, a reunir-se, a desenvolver ações de carácter científico. E isso vai levar a uma maior interligação com a indústria e a mais partilha em projetos europeus. Esta ligação da ciência à saúde foi algo único, até em termos europeus. Estou num grupo europeu nesta área dos testes covid e não há em termos europeus paralelo com isto. Portugal está muito bem colocado na resposta que deu aos testes também pelo facto de ter estes centros de investigação a fazê-los, o que deu uma capacidade que muitos outros países não esperavam de nós. A criação desta rede foi chave porque não deixou nenhuma região a descoberto.

Na preparação para o futuro, nesta pandemia, o que falta ainda fazer?
Continua o reforço dos centros hospitalares, que estão a fazer aquisições e a criar reservas de equipamentos de proteção individual. A capacidade de testes está a ser otimizada. Os testes já são mais rápidos. Para as análises urgentes já não precisamos de seis horas, uma equipa bem treinada já consegue fazê-las em três horas e meia. E os desenvolvimentos não vão parar por aqui. Há vários centros de investigação a desenvolver novas soluções para o combate à pandemia. Houve duas calls de apoio à investigação da FCT [Fundação para a Ciência e a Tecnologia], os projetos estão a ser desenvolvidos e produzirão ajudas num curto espaço de tempo, para estarem disponíveis no próximo inverno.

Que novas soluções poderão sair daí?
Algumas são soluções informáticas de desenvolvimento de algoritmos para o acompanhamento das situações ou novas metodologias para testes ainda mais rápidos para uma melhor resposta no contexto hospitalar. Acredito que alguns dos projetos vão ter sucesso e que isso será uma mais-valia para esta segunda fase.

E no ABC, o que está a ser feito nesse sentido?
Adquirimos equipamentos para fazer testes em contínuo e ao mesmo tempo podermos continuar a fazer o trabalho de investigação. Mas isso também significa que se tivermos um pico de pandemia passamos a ter o dobro da capacidade de testagem, o que numa região como o Algarve pode ser chave. Por outro lado, ao longo do tempo fomos otimizando a forma de fazer colheitas, conseguimos uma capacidade de drive thru em que chegámos a fazer uma colheita a cada 15 segundos, com mais de mil colheitas por dia. Estamos agora a fazer um ponto de situação nos lares do Algarve e Alentejo e a atuar sempre que há um caso identificado e a trabalhar com as instituições na preparação para o próximo inverno. Sempre em articulação com a saúde pública e com uma comunicação fácil e rápida entre todos. Temos de ter a capacidade máxima instalada no terreno neste verão, dado o grande número de turistas que vêm ao Algarve nesta altura, e que nós queremos que se mantenham seguros.

Em relação à pandemia, quanto tempo mais teremos de continuar a manter a distância social?
Esta é uma nova forma de vida que temos de adotar nos próximos anos. Mesmo que apareça alguma vacina ou terapêutica, a sua eficácia não vai ser a cem por cento. Basta ver as outras doenças. E, até termos vacinação em massa, não podemos estar descansados. O distanciamento social e o uso de máscaras vieram para ficar durante os próximos dois, três anos, pelo menos.

E a imunidade? Ainda não se sabe qual será a sua duração.
Ainda não há dados para saber isso. Na maioria das outras doenças causadas por vírus, a imunidade é relativamente duradoura, mesmo não se detetando muitas vezes anticorpos. Mas não se prevê que esta doença tenha um comportamento muito diferente das outras doenças virais do mesmo género, em que é desenvolvida imunidade pelo hospedeiro. Sem termos a certeza, porque perante algo novo não podemos ter certezas absolutas, é muito maior a probabilidade de virmos a ter pessoas imunes, do que a desenvolver novamente a doença. A não ser que o vírus tenha mutações suficientes para poder infetar novamente as pessoas. Mas, pelo que se sabe, isso ainda não aconteceu até agora.

Este artigo faz parte de um série dedicada aos investigadores portugueses que é apoiada pela abbvie

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