Alunos e professores dizem que matéria transmitida na TV ficou aquém do nível das turmas

Finalizado o primeiro dia de aulas transmitidas para todo o país, na RTP Memória, recolhem-se impressões: houve alunos que estranharam a matéria lecionada, aquém do nível em que as suas turmas se encontram. Os diretores admitem ser consequência da flexibilização curricular a que as escolas se viram sujeitas.

Eram 10:20 da manhã quando o pequeno Duarte, de oito anos, se sentou em frente à televisão para a sua primeira aula de 30 minutos na RTP Memória. Arrancou com Português, depois Matemática - por hoje, era tudo o que estava programado para meninos e meninas da sua idade. A expectativa era muita, tanto da parte dos alunos como da parte dos pais. Mas o primeiro dia não escapou à crítica, de miúdos e graúdos: "mal começou, ele comentou logo que a aula era demasiado fácil e perdeu o interesse", conta o pai do aluno do 3.º ano, Carlos Faísca, de 37 anos. Uma opinião partilhada entre outros alunos, pais e professores.

O dia era esperado em tom de esperança. Na sua casa, os dias têm-se revelado caóticos, entre turnos repartidos pelo trabalho e pela ajuda pedagógica aos filhos. "É impossível ter quatro horas seguidas para trabalhar", confessa. Tanto Carlos como a esposa estão a funcionar em teletrabalho, dividindo "o período em que cada um fica com as crianças, para que o outro se possa dedicar à vida profissional". Uma tarefa tanto mais complexa quanto mais dependente forem os filhos dos seus pais. Por isso, com mais um filho de um ano e meio, o desafio intensifica-se. "Não é por acaso que existem educadores de infância e escolas. A sociedade está organizada para que, a partir de uma determinada altura, os pais se possam libertar deste encargo para dedicarem tempo à vida profissional e isso não está a acontecer", lembra.

Deixar parte do acompanhamento à responsabilidade de uma TV poderia vir a facilitar o andamento dos dias, esperava a família. Mas Duarte rapidamente perdeu o interesse no que lhe estava a ser transmitido, depois de convencido que aquela lição já há muito estava aprendida. Segundo Carlos Faísca, "a aula de hoje foi muito básica para o nível em que está a sua turma".

Por consequência, "os conteúdos trabalhados pelos professores não incluem nada do que os [seus] filhos veem" na televisão, acrescenta Céline Costa, mãe de três, natural de Leiria. A manhã foi um desafio ao silêncio, calando-se uns aos outros para que se pudesse ouvir a TV.

Se o conteúdo até entusiasmou a filha mais nova, a frequentar o 2.º ano de escolaridade, a mais velha, no 8.º ano, sentiu o mesmo que o pequeno Duarte. "Achou as primeiras aulas muito fáceis e 'um bocado seca'. Reconhece que as professoras até têm jeito e explicam bem, mas os conteúdos são maçadores e são revisões", conta. O que, a seu ver, coloca em risco a capacidade de complemento de ensino à distância a esta iniciativa. "Há uma indicação por parte dos professores para [os alunos] verem, mas depois não há seguimento", porque os conteúdos diferem.

Já o dirigente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima, garante que os professores estão preocupados em "incluir estas aulas na planificação semanal com os seus alunos". No final da semana passada, aliás, o Ministério da Educação enviou os conteúdos a ser transmitidos na televisão para que os docentes se pudessem preparar.

O desafio do ensino à distância trouxe uma "flexibilidade no currículo" das escolas, que trabalham a diferentes velocidades, diz Filinto Lima

"Há um certo receio em dar matéria nova"

Era o primeiro dia de aulas na RTP Memória e foi com a professora Isa que o país acordou. Confessou-se nervosa, mas otimista, e fã de histórias - não fosse professora de Português. A Casa da Mosca Fosca, de Eva Mejuto, soou na sala de aula, apresentando vários animais e convidando a um jogo de fonética aos mais pequenos, alunos do 1.º e 2.º anos de escolaridade. "Até aqui, tudo bem", comenta a professora Madalena Pereira, coordenadora da Escola Básica de Folgosinho, na Guarda. Uma das 52 escolas do 1.º ciclo que continuam a prazo, por não cumprirem o requisito legal mínimo de alunos para formar turmas.

Mas o dia seguiu, passando por Matemática, História, Ciências Naturais, Inglês e Espanhol de diferentes anos, e as fragilidades saltaram à tona. A aula de Matemática do 3.º e 4.º anos, por exemplo, considerou ser "muito básica", aquém do nível a que se encontram os alunos nestas idades. Mas reconhece que "há um certo receio", por parte dos professores, "em dar matéria nova", principalmente nestas idades.

"As indicações que temos são de ir revendo os conteúdos. Nestas idades é muito complicado ir além disto, porque estaríamos a dar matéria através de um papel", diz. Dotar-se de um computador, no caso das crianças de 1.º ciclo, não basta. É preciso educar as crianças para literacia digital. Os trabalhos têm sido encaminhados fisicamente. "Têm computador, mas não têm impressora, em grande parte dos casos. Por isso, a direção contacta a GNR, que faz chegar as fichas aos alunos", conta.

O próprio ministro da Educação disse, na apresentação oficial do #EstudoEmCasa, ser "impossível que o professor acerte no local exato" em que as turmas se encontram a nível pedagógico. E o dirigente da ANDAEP, Filinto Lima, lembra que o desafio do ensino à distância trouxe uma "flexibilidade no currículo" das escolas, que trabalham a diferentes velocidades.

"Não podia ser perfeito", acrescenta Rui Martins, presidente da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE). "O Ministério da Educação entendeu que é preciso reforçar, para já, os conteúdos dados, do que estar a avançar para matéria nova" e, por isso mesmo, deixou "a garantia de que, no próximo ano, será reforçada a aprendizagem destes novos conteúdos".

"É como se voltássemos à sala de aula outra vez"

Contudo, há quem veja neste atraso dos conteúdos face ao nível real das turmas uma oportunidade. É o caso de Madalena Sampainho, aluno do 9.º ano do Agrupamento de Escolas de Alcanena - do qual migraram algumas das professoras que dão rosto a esta nova telescola.

Por volta das 16:00, depois de uma manhã de aulas por videoconferência, preparava-se para a primeira aula na TV: arrancou com Português, passou por Inglês e terminou em História. O sentimento é de entusiasmo. "Estou a gostar muito. Começa a ser mais parecido com o que tínhamos na escola, porque temos um professor, numa sala de aula, a falar connosco. É muito mais natural do que ter um professor sentado do outro lado do computador a fazer uma videoconferência", admite a jovem de 14 anos. "É como se voltássemos à sala de aula outra vez", reforça.

Em Português, na RTP Memória, a professora Ana Carla Ferreira apresentou-se com a introdução ao estudo d'Os Lusíadas, obra obrigatória neste ano de escolaridade. Embora não fosse novo para a turma de Madalena, que "já ia mais à frente na matéria", a jovem vê vantagens na repetição dos conteúdos. "Gostei muito, porque nos fez rever. Principalmente depois de termos estado estas duas semanas sem aulas, fez a diferença", ​​​​​​​diz.

O anúncio do #EstudoEmCasa foi recebido com entusiasmo pela comunidade educativa, que já apontava esta como uma opção viável para fazer chegar o ensino a mais alunos. Os conteúdos serão transmitidos diariamente (em dias úteis), no canal RTP Memória - acessível por cabo, satélite e também através da televisão digital terrestre - para alunos do 1.º ao 9.º ano. A grelha de programação semanal é a seguinte.

Além da transmissão em direto de conteúdos pedagógicos, o Ministério da Educação desafiou os professores a disponibilizarem aulas em vídeo através de cinco novos canais criados na plataforma Youtube, permitindo que fiquem acessíveis à comunidade educativa alargada. Nestes canais será ainda possível rever os conteúdos transmitidos ao longo do dia na RTP Memória.

Para o pré-escolar, a iniciativa é outra. Também na RTP 2 haverá uma programação especial de manhã para crianças dos 3 aos 6 anos.

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