Pode o regresso da telescola salvar o que resta do ano letivo?

COVID-19

Pode o regresso da telescola salvar o que resta do ano letivo?

O extinto programa da RTP foi desenhado para garantir a educação em zonas do país onde ela não chegava. O governo admite a telescola como uma possibilidade a anunciar a 9 de abril, embora em moldes diferentes.

Mesas vazias, cadeiras sem alguém para se sentar, bibliotecas e salas de estudo paradas no tempo. Eis o retrato das escolas portuguesas, obrigadas a suspender as suas atividades letivas presencias desde 12 de março, por conta de uma pandemia que assola o mundo. Ao passo que as escolas se esvaziaram, as casas encheram-se: o ano letivo não travou a fundo, continuou em frente, apenas funcionando à distância, com recurso a diversas plataformas digitais. Para trás, não pode ficar ninguém, mas vão ficando alguns daqueles que não têm acesso a um computador ou internet - cerca de 50 mil alunos até aos 15 anos, de acordo com um levantamento do Instituto Nacional de Estatística, de novembro de 2019.

Foi a pensar neste grupo de estudantes que o ministro da Economia e Transição Digital, Pedro Siza Vieira, admitiu que estariam a ser estudadas soluções para o terceiro período, que se avizinha de escolas fechadas também. Entre as quais a transmissão de conteúdos pela televisão por cabo. Pois se a internet ou os equipamentos informáticos não são recurso para 5% dos agregados familiares com filhos até aos 15 anos, por outro lado "83% dos lares em Portugal têm TV por cabo", segundo o governante.

Estuda-se um modelo idêntico à Telescola, mas não o regresso integral àquilo que foi o programa da RTP que permitiu a escolarização dos 5.º e 6.º anos em zonas onde a escola não chegava, entre 1965 e 2000. Algo lá perto, admite.

Este sábado, 4 de abril, o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, admitiu que as escolas estão a preparar-se para aulas através da televisão pública para alunos até ao terceiro ciclo, de forma a chegarem aos que não têm acesso à Internet, sem contudo avançar datas.

"Como não era possível chegar a todos os alunos através dos meios mais tecnológicos, vamos poder fazê-lo pelos meios mais tradicionais", enquanto estiverem suspensas as aulas presenciais nas escolas devido à pandemia, explicou o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, em declarações à RTP.

O governante adiantou que a solução é a telescola, mas num cenário "completamente diferente" do que existiu no passado para o segundo ciclo, em que era dada com "alunos e professor na sala de aula".

Ainda não sendo certo que o ensino à distância tenha vindo para durar todo o restante ano letivo, o governo assume este como o cenário mais provável. "A decisão mais difícil é a de reabertura das escolas", disse o primeiro-ministro, nesta sexta-feira. Decisão esta que está marcada para o dia 9 e abril.

A força da imagem

Em quase 900 anos de história nacional, cabem 40 de telescola. A escola possível para os jovens que viviam "no Portugal profundo". Manuel Pinheiro, 72 anos, lembra o velho estúdio improvisado no monte da Virgem, "mesmo ao lado das instalações da RTP" no norte, através do qual se mudava a vida de milhares de alunos. Entre as 14.00 e as 19.00, a emissão na televisão pública era da responsabilidade da equipa que Manuel coordenou, de 1985 até ao final da história da telescola (em 2000). "Chegámos a atingir 35% da população portuguesa em idade escolar, que frequentava o ensino preparatório", conta o antigo diretor nacional do projeto.

Naquele alto de Vila Nova de Gaia saíam aulas para 1400 postos espalhados pelas zonas mais remotas do país, onde só existiam escolas primárias. "Não tendo a possibilidade de se deslocarem para a rede de escolas do ensino preparatório", devido à deficiente rede de transportes e à "muita pobreza", criaram-se postos em prefabricados ou nas salas vazias das escolas primárias das aldeias para que os jovens pudessem fazer os 5.º e 6.º anos. Por estes postos, eram distribuídos dois professores, um da área de letras, outro de ciências, que acompanhavam a emissão em direto com os alunos na sala de aula e, depois, desenvolviam o conteúdo apresentado.

Para Helena Gama, 63 anos, a telescola foi amor à primeira vista. Mal tinha terminado o curso, partia de Lamego, onde nasceu, em direção a Bustelo da Lage, Cinfães, para integrar o núcleo de quase 4000 professores ao serviço da iniciativa. Andou pelas aldeias, "onde os transportes não existiam", e foi lá que "fez a gravidez da filha sozinha", regressando a casa apenas aos fins de semana. Nesta primeira terra, partilhou o posto com o professor que era também o padre daquela comunidade. Ele dava letras, ela ciências.

"As aulas eram excecionais", suspira. "Não era só os professores a falar, os alunos viam as imagens de laboratórios de ciências, as experiências realizadas diante dos seus olhos." A imagem "era muito forte" e fazia a diferença na vida de jovens "que não tinham poder para ver nada além da aldeia". "Eles passavam a saber que as coisas que ensinávamos eram mesmo reais", conta.

Não deixava de ser "o retrato da pobreza nacional, ali diante de nós", lembra Manuel Pinheiro. "Aliás, falamos da televisão, mas estas famílias não as tinham senão nestes postos de ensino" e "a prova disso é que, enquanto decorria a aula na RTP, a população vinha para as janelas das escolas ver a emissão".

Aos poucos, houve frutos: enquanto a telescola atingiu uma taxa de insucesso escolar na ordem dos 10% ou 15%, o ensino direto rondava os 30%. Os milhares de professores dedicados à iniciativa faziam "das tripas coração", eram "do mais alto gabarito" e estavam "muito motivados". "Era pela causa", garante Manuel.

Uma solução em tempos de pandemia

A última emissão em direto da telescola aconteceu em 1987. "Talvez por necessidade de libertar tempo para a Universidade Aberta", lança o antigo diretor nacional Manuel Pinheiro. Mas o projeto continuava de pé, apenas em moldes diferentes e com um novo nome: "Passámos a gravar capítulos de matéria em cassetes, enviadas para as escolas para auxiliar a matéria dada pelos professores, e chamamos a esta fase da telescola o EBM." Isto é, Ensino Básico Mediatizado.

Entra em ação a professora Laura Moreira, atualmente com 67 anos e já aposentada. Muitos ainda lhe lembrarão o rosto em cenários idílicos pelo país fora, a relatar a invasão dos muçulmanos na Península Ibérica, ou em frente a mapas que mostravam o tempo em que se descobriu a América. Laura largou a sala de aula para se dedicar à construção dos pequenos documentários que serviriam de auxílio aos professores da velha telescola. A professora de História passou a levar o país a todos. "Era uma forma de poderem ver onde as coisas se tinham realmente passado."

Tentar replicar o modelo nesta altura em que as escolas foram obrigadas a fechar devido ao covid-19 não lhe parece má ideia. Em parte, porque "os alunos hoje são muito diferentes e preferem assistir a vídeos em vez de estarem sentados numa sala a ouvir o professor", diz. Na ótica de Manuel Pinheiro, seria "uma mais-valia para dar resposta à situação que estamos a viver, para os anos mais críticos". "Em tempo de guerra, não se limpam armas", frisa.

A acontecer, teria de ser alicerçado em matrizes distintas. "Não podemos reunir os alunos todos na mesma sala, senão tínhamos a escola nos moldes tradicionais. Mas há vários esquemas possíveis. Com o peso que as emissões teriam e sabendo os jovens que era a única fonte de conhecimento, com os horários adequados, era possível substituir o ensino nesta fase com videoaulas na televisão", diz. Não duvida de que "há pessoas no país bem preparadas para implementar isto e muito rapidamente". Mas avisa: "Não se pode cair na tentação de querer tudo perfeito no primeiro dia, porque este é um momento único que requer respostas rápidas e dinâmicas".

"Através da televisão conseguimos chegar a muito mais pessoas", diz. Mas a experiência de 23 anos de telescola concede à professora Helena Gama a legitimidade para assegurar que a telescola não seria solução para chegar a todos. "Há famílias que não têm televisão ainda." O papel do governo deve ser o de dotar as famílias carenciadas dos meios necessários. "Temos tantas ferramentas de e-learning, porque é que vamos voltar àquele sistema que a própria Telescola abandonou?", remata. O veredicto terá de esperar pelo dia 9 de abril.

Como faz o país com a melhor educação do mundo

Há anos que a Finlândia ocupa o pódio dos rankings internacionais da educação, embora esteja a ser gradualmente ultrapassada por países da Ásia. Ainda assim, o sistema educativo deste país continua uma das suas maiores imagens de marca e serve de modelo a muitas outras nações do mundo. Mas nem um ensino tão forte escapa aos desafios que a atual pandemia impõe. Comparativamente a Portugal, o governo finlandês decidiu bem mais tarde o encerramento das escolas. No entanto, o país tem-se mostrado mais proativo ao nível de apoios para estudantes sem recursos para o ensino à distância.

Com o primeiro caso de um infetado confirmado no final de janeiro, pouco mais de um mês de avanço relativamente a Portugal, a Finlândia contabiliza um total de 21 mortes e 1615 infetados (dados desta sexta-feira). Por outro lado, o covid-19 já fez 246 mortos em terras lusas e perto de dez mil casos positivos, apenas desde 2 de março. Não só se acelerou os números por cá, mas também as decisões: a 12 de março, o Governo decretou a suspensão das atividades letivas presenciais, pelo menos até 9 de abril. Na Finlândia, esta medida foi anunciada dias depois, a 16 de março, mas já foi estendida até 13 de maio.

Numa coisa ambas as nações são unânimes: nenhum estava preparada para passar a ter o ensino inteiramente à distância. "O ensino à distância nesta escala é uma situação nova, nunca antes vivida na Finlândia e, até agora, a capacidade de adaptação tem requerido um esforço adicional tanto dos professores como das famílias", relata a Embaixada da Finlândia em Portugal, em resposta ao DN.

O que separa estes países é a forma como têm reagido aos desafios, nomeadamente aos alunos com falta de equipamento informático para o ensino à distância. A Agência Nacional de Educação finlandesa tem fornecido todos os materiais e instruções às escolas, para trabalhar nestas circunstâncias excecionais, através de uma linha de contacto própria para o efeito. Ao mesmo tempo, várias empresas, como a Microsoft, uniram-se para levar computadores aos alunos carenciados.

texto atualizado às 21.46 de dia 4 de abril, com declarações do ministro da Educação

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