O primeiro debate a seis. Ou todos contra Costa

TSF, RR e Antena 1 transmitem o embate entre os seis representantes dos partidos parlamentares. Será tempo de corrigir insuficiências e afinar respostas depois dos debates a dois. Mas Costa sabe que será ele o alvo de todos.

Assunção Cristas não hostilizará Rui Rio, nem o seu contrário acontecerá, um e outro até já disseram que podem vir a entender-se, e preferem virar-se contra as esquerdas encostadas, em especial o PS. Jerónimo de Sousa e Catarina Martins - na primeira vez que se encontram frente a frente - devem pôr o dedo no ar a cada reivindicação de recuperação de direitos e rendimentos, lembrar os desmandos da direita e acusar Costa no que faltou fazer. António Costa puxará os galões rosas em cada uma das medidas, as que os seus parceiros de geringonça aprovaram e as que criticaram, mas sempre a estender uma mão porque nunca se sabe de quem precisará na noite de 6 de outubro. Ah, e há o PAN, com André Silva, que tendo agora mais do que o minuto e meio em apneia que tinha no Parlamento, parece arrastar convergências e desconfianças em doses iguais.

O debate a seis nas rádios, com transmissão na TSF, na RR e na RTP Antena 1, nesta quarta-feira de manhã, às 10.00, promete replicar um miniparlamento, no que será o segundo de quatro embates entre António Costa e Rui Rio - depois do debate de segunda-feira dia 16, os líderes dos dois maiores partidos portugueses voltam a encontrar-se na segunda-feira dia 23, para o último debate a dois, também nas rádios, e de novo a seis nas televisões. António Costa já sabe que este poderá ser o primeiro debate de todos contra o socialista.

Nesta quarta-feira, será tempo de corrigir insuficiências e afinar respostas relativamente aos debates bilaterais.

Para começar, Costa procurará encostar às cordas Rio, depois de no primeiro debate a dois o líder social-democrata ter mostrado uma atitude mais combativa no frente-a-frente com o secretário-geral socialista. E o socialista não vai querer ser apanhado desinformado, como nos números da emigração, como o social-democrata terá oportunidade de se explicar sobre o que pode dar aos professores.

A geometria variável de um debate a seis colocará sob fogo a governação socialista dos últimos quatros, que contou com o apoio parlamentar da esquerda (BE, PCP e PEV). E na hora das contas, adivinham-se dois polos, o da esquerda a defender o que foi, no seu entendimento, a reposição de rendimentos e de direitos, e a direita a atacar o que aponta serem as deficiências dos serviços públicos.

Assunção Cristas já apontou o dedo a Catarina Martins, no debate que mantiveram: "O Bloco de Esquerda é corresponsável pela maior carga fiscal de sempre", acusou a líder do CDS. "Não sei que famílias conhece, as que eu conheço sabem que estão a pagar menos impostos", replicou a porta-voz do BE, com as duas a falarem para a classe média, a partir dos dois extremos políticos do Parlamento e acusando-se mutuamente de promover um aumento dos impostos para os eleitores dessa classe média.

Longe do discurso mais eufórico depois das autárquicas, a presidente do CDS terá ainda de marcar terreno junto do seu antigo parceiro de coligação, o PSD, para captar votos no centro-direita, mas sem hostilizar em demasia o líder social-democrata. Já foi assim no debate entre ambos, com Assunção Cristas a manifestar "orgulho" de ter participado num governo de Passos Coelho e de Paulo Portas, que "tirou o país da bancarrota", e de o CDS ter sido a oposição ao governo e ser "muito claro" a rejeitar qualquer acordo com o PS ou com António Costa. Por oposição também ao PSD de Rio.

Rui Rio corre contra muitos, incluindo no seu partido, que se surpreenderam com a sua prestação no debate com Costa, mas que não tinham ficado impressionados noutros embates a dois. Agora num pequeno hemiciclo, o líder que não gosta muito da ideia de ficar como deputado terá de passar por entre os pingos das críticas que, à esquerda e à direita, vão apontar ao programa eleitoral do PSD.

Com António Costa, a discordância é total - e será ainda o alvo principal de Assunção Cristas, como os dois estabeleceram no verdadeiro debate de opostos que mantiveram. Só concordaram em não concordar. Um e outra começaram logo a dizê-lo, recusando qualquer cenário de entendimento entre os dois partidos, com a líder centrista a dramatizar o cenário de um Parlamento que venha a ter "dois terços à esquerda" e a insistir no CDS como a alternativa de voto para o eleitorado de centro-direita. Já o socialista vincou as diferenças. "Entre o PS e o CDS há uma enorme diferença, um enorme fosso, sobre a forma como vemos a sociedade", atirou o líder socialista. Cristas concordou por uma única vez.

À esquerda, Bloco de Esquerda e PS mantêm uma tensão que já vem de há largos meses. A Lei de Bases da Saúde e a legislação laboral foram sucessivas armas de arremesso no trabalho parlamentar, agudizado primeiro com a campanha para as eleições europeias de maio, agravado depois com a legislatura a correr para o fim. O debate entre António Costa e Catarina Martins permitiu a cada um sublinhar as diferenças, mas sem fechar as portas ao entendimento: o socialista prometeu dialogar, Catarina recusou "cheques em branco".

Jerónimo de Sousa tem primado pela ausência nos debates a dois, por o secretário-geral do PCP só aceitar debater nas televisões em canal aberto, reduzindo a sua presença aos embates com António Costa e Rui Rio. Este é o primeiro debate em que Jerónimo poderá fazer-se ouvir em discussão com Catarina Martins, por um lado, André Silva e Assunção Cristas, por outro. Aí vai querer marcar pontos, em relação aos bloquistas, com quem partilharam muitas das medidas aprovadas em quatro anos de legislatura; e que o discurso do PAN não é novo no Parlamento porque os parceiros de coligação eleitoral do PCP, o PEV, já o fazem há muito. Com os centristas, é outro fosso intransponível.

Nos embates com Costa e Rio, o líder comunista foi igual a si próprio, no tom cordato, no uso de expressões populares. Com o socialista, Jerónimo sublinhou que "manteria a mesma franqueza, seriedade e confiança", que manteve nestes quatro anos com Costa e o PS. "A melhor prova do pudim é comê-lo", explicou o comunista, que é como quem diz que PCP e PS já sabem o que esperar e com o que contar para uma futura relação.

Jerónimo e Rio divergiram sobre o papel - central ou complementar - do Estado, mas concordaram em mais pontos do que se esperaria: Rui Rio coincidiu com o adversário em que um Parlamento de maioria absoluta "é sempre muito mais monótono" e na proposta de 35 horas para o setor privado. Divergiram no ritmo: o social-democrata diz que não é para agora, o comunista quer já.

A novidade nestes debates com todos é André Silva, eleito há quatro anos pelo partido Pessoas-Animais-Natureza, e que até agora, nos debates a dois, praticamente esteve o tempo todo a jogar em casa. Sem questões fora do seu campo ambiental nos debates com Costa ou Rio e Catarina, só com Cristas o deputado único do PAN foi confrontado com temas em que o seu domínio é bem menor, como na Segurança Social, por exemplo. E no ambiente, a centrista acusou-o de ditatorial.

É por aí que todos agora podem explorar as fragilidades de André Silva, que não deixará de procurar chamar a si os louros por o ambiente ser agora tema de discussão obrigatória. Foi este desequilíbrio que também Catarina Martins ensaiou no debate com o porta-voz do PAN. Reconhecendo uma "enorme convergência" entre o Bloco e o partido ecologista, em matérias como as alterações climáticas ou o bem-estar animal, a líder bloquista sublinhou que o PAN não parece ter com a sociedade e a democracia a mesma "solidariedade" que tem com o ecossistema.

O ecossistema partidário vai a votos a 6 de outubro. Ver-se-á se o debate de hoje é mais um contributo para um voto esclarecido nesse ecossistema.

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