Debate. O olival intensivo divide Costa e André Silva. E não é pouco

PAN acusa PS de "hipotecar o futuro" sem promover "mudança de paradigma económico", como o cultivo intensivo de olival. Costa replicou que se trata de "1,5%" do Alentejo. No clima, a convergência foi maior, só divergiram no ritmo.

O PAN acha que o PS está a "hipotecar o futuro" dos portugueses ao não promover "a mudança de paradigma económico", que passe por recusar o olival intensivo no Alentejo. Para o secretário-geral do PS, António Costa, é tudo uma questão de ritmo, seja na energia, no turismo ou na agricultura.

O debate desta quarta-feira entre o socialista e o porta-voz do PAN, André Silva, só aqueceria na parte final quando André Silva criticou o PS por estar "a transformar o Alentejo num olival intenso com um gasto de água excessivo". É esta a linha vermelha traçada pelo deputado único do partido Pessoas-Animais-Natureza: "O que nos afasta é o modelo económico" defendido pelo PS, "do faz primeiro, remedeia depois." O exemplo mais à mão é o da cultura do olival intensivo, apontou Silva, que defendeu a sua regressão.

Também no turismo, o porta-voz do PAN defendeu - como está no programa do partido - que deve ser estudada a capacidade máxima da "carga" de turistas que o país e Lisboa aguentam. Só depois, argumentou André Silva, se podem "desenvolver projetos" em termos aeroportuários e ferroviários.

António Costa insistiu que era uma questão de perspetiva. No caso da agricultura, o também primeiro-ministro falou num "ponto de exagero": o olival intensivo só ocupa "1,5% do conjunto de área do Alentejo" - são 3 milhões de hectares em que 170 mil estão cultivos com este tipo de olival. "Mas esse 1,5% está a consumir a água toda do Alqueva", replicou o deputado.

Para o socialista, é "preciso ter uma visão equilibrada dos diferentes objetivos". "Não podemos ter um regime económico depredador, mas não podemos deixar de ter um regime económico que gere riqueza e autossuficiência para o país." Portugal "não se pode dar ao luxo" de não aproveitar os seus recursos naturais - e exemplificou com o azeite: "Há uns anos, produzíamos 40% do azeite que consumimos, hoje felizmente já produzimos 150%."

Este exemplo foi o que melhor serviu a André Silva. "O PS não está a aproveitar os recursos, está a depredar recursos, está a colocar em causa a sustentabilidade do país e dos recursos naturais", exclamou, recordando que o Governo atrasou a "designação de 61 zonas de conservação", nomeadamente na área do futuro aeroporto do Montijo, nas estufas da Costa Vicentina e na zona do olival intensivo. Ou seja, concluiu, "o Governo está a atrasar propositadamente as zonas de proteção especial para fazer desenvolvimento económico que pode ser predador".

Costa ensaiou a aproximação ao PAN, que já tinha afirmado por várias vezes antes do olival intensivo os separar. "Nós convergimos em muita matéria", notou o socialista, apesar de André Silva ter discordado dos exemplos dados: ferrovia e bem-estar animal.

Onde a convergência existiu foi na necessidade de "descarbonização" da sociedade portuguesa, mesmo que Costa tenha mantido o compromisso de o fazer até 2050, desligando as centrais elétricas até 2030 (Pêgo e Sines). Silva defendeu que era possível já fazê-lo em 2023. O socialista puxou de uma das suas frases preferidas: "Só gosto de assumir aquilo que tenho a certeza de cumprir." O seu compromisso, disse, é o de encerrar as centrais até 2030 e manter a meta de 2050, mas antecipando "quanto seja possível".

"O meu filho nunca pediu nada ao pai"

No debate para as eleições legislativas de 6 de outubro, na SIC, moderado por Clara de Sousa, a jornalista quis saber o que faria António Costa se um ministro convidasse o filho do chefe de Governo, Pedro, para um gabinete ministerial.

Costa fez uma cara não escondeu alguma surpresa com a pergunta e disparou: "Nenhum membro do governo convidaria o meu filho e o meu filho não aceitaria trabalhar num gabinete do governo presidido por mim." E acrescentou que ele "tem a sua vida", "onde nunca pediu nada ao pai". Perante a insistência, sobre eventuais prejuízos ou benefícios, o socialista atirou: "Não é por causa do meu irmão que foi diretor desta casa [SIC], que esta casa alguma vez deixou de ser independente da forma como lida relativamente a mim ou ao governo."