Covid-19: seis países à lupa. Da China a recuperar à Itália ainda longe da contenção

China, Coreia do Sul, Itália, Reino Unido, Estados Unidos e Espanha: como é o que o covid-19 está a afetar estes países e que medidas têm sido tomadas?

O coronavírus responsável pela pandemia de covid-19 infetou cerca de 190 mil pessoas, das quais mais de 7500 morreram. Das pessoas infetadas em todo o mundo, mais de 80 mil recuperaram da doença. Estes são os números que estão a ser divulgados nesta terça-feira no site da Universidade Johns Hopkins, em permanente atualização. Mas a infeção não tem evoluído de forma semelhante em todos os locais. Vamos ver seis casos muito diferentes: China, onde o vírus foi inicialmente detetado, Coreia do Sul, Itália, Reino Unido, Estados Unidos da América e Espanha.

China: o pior já passou?

As autoridades chinesas reportaram o primeiro caso de coronavírus a 31 de dezembro de 2019 e revelaram ter detetado duas dezenas de casos de pneumonia de origem desconhecida em Wuhan, na província de Hubei. No primeiro dia do novo ano foi encerrado o mercado de marisco suspeito de estar na origem da contaminação, uma vez que todos os doentes tinham ligação ao local. A 4 de janeiro de 2020, eram já 44 os casos de doentes com uma pneumonia de origem desconhecida. A primeira morte devido ao novo vírus aconteceu a 9 de janeiro. Os casos continuaram a aumentar. A Comissão Nacional de Saúde da China confirmou, a 20 de janeiro, que o novo coronavírus podia ser transmitido entre seres humanos. Nesse dia, a China registou quase 140 novos pacientes, incluindo duas pessoas em Pequim e uma em Shenzhen. Três dias depois, a cidade de Wuhan foi colocada em quarentena. Huanggang e Ezhou, adjacentes a Wuhan, também foram colocadas em quarentena semelhante. A 24 de janeiro de 2020, o primeiro caso do novo coronavírus foi confirmado na Europa, em França.

Pequim adotou, algum tempo após o surto, medidas drásticas como pôr de quarentena os 60 milhões de habitantes da província de Hubei, onde fica Wuhan, com encerramento compulsivo, ou impor restrições às viagens de centenas de milhões de pessoas. A dureza das medidas verificou-se também na procura e no isolamento de infetados. Em clínicas montadas no exterior de hospitais, médicos com roupa protetora de corpo inteiro mediam a temperatura a qualquer pessoa com sintomas compatíveis com covid-19. Nos casos suspeitos eram feitas análises, para despistar a hipótese de se tratar de outro vírus. Qualquer pessoa suspeita de estar contaminada pelo coronavírus ficava imediatamente impedida de voltar para casa ou ir para o emprego. A quarentena realizava-se em zonas de isolamento criadas em ginásios, estádios e outros espaços amplos.

Apesar destas medidas, o vírus já se tinha espalhado. O número de casos continuou a aumentar pelo menos até meados de fevereiro. A 16 de fevereiro foram reportados 2009 novos casos na China continental, que exclui Macau e Hong Kong, elevando o número total para 68 500, segundo a Comissão Nacional de Saúde do país. A taxa de mortalidade permaneceu estável, com 142 novas mortes - no total, o número de mortos na China continental pelo covid-19 estava então nos 1665. Nessa altura, 9419 pessoas tinham já recebido alta após terem superado a doença.

A 24 de fevereiro, o número de mortos na China situava-se em 2592, mas os especialistas consideravam que as medidas de contenção estavam a resultar. A partir daí, os números parecem dar-lhes razão e a China regista cada vez menos novos casos. Desde 11 de março que os números de novas infeções e de mortes permanecem abaixo dos 21 diários, de acordo com as estatísticas oficiais. A 12 de março, o governo chinês declarou que o pico das transmissões tinha terminado no país.

Nesta terça-feira, a China registou 21 novos casos de covid-19, uma ligeira subida depois de vários dias consecutivos em que o número de novas infeções desceu e quando o país tem menos de nove mil pacientes ativos. A Comissão de Saúde da China informou que das 21 novas infeções, 20 são casos vindos de outros países. No mesmo período de tempo, 13 pessoas morreram no país devido à doença.

Até ao início de terça-feira (16.00 de segunda-feira, em Lisboa), as autoridades registaram 80 881 infeções diagnosticadas na China continental, incluindo 68 869 casos recuperados, enquanto o total de mortos se fixou nos 3226, desde o início do surto. Quase todas as mortes ocorreram na província de Hubei, centro da epidemia, onde várias cidades foram colocadas sob quarentena, com entradas e saídas bloqueadas. A outra morte ocorreu na província de Shaanxi, no centro da China.

O número de infetados ativos é atualmente de 8976, incluindo 2830 em estado grave.

Segundo os dados oficiais, 681 404 pessoas que tiveram contacto próximo com os infetados foram monitorizadas clinicamente desde o início do surto, incluindo 9351 ainda sob observação.

Uma das prioridades das autoridades chinesas é agora "protegerem-se contra a importação" de infeções de outros países, que lidam com um rápido aumento do número de infetados.

Coreia do Sul: testar e monitorizar

Na Coreia do Sul, o surto de coronavírus teve início numa cerimónia de uma seita religiosa na cidade de Daegu, na zona sudeste do país, com 2,5 milhões de habitantes. O governo chegou a rastrear mais de dois mil membros da igreja e a pôr de quarentena todos os que tivessem contactado com essas pessoas, separando famílias, como na China. Apesar disso, mais de 60% dos casos registados na Coreia têm ligação a esta seita e a este surto inicial.

A Coreia do Sul chegou a ser o segundo país com mais casos depois da China - mas, no dia 13 de março, o número de pacientes curados superou ali, pela primeira vez, o de novos casos. Na última semana, conseguiu reduzir o número de novos casos, sendo agora o quarto país.

Motivo: medidas expeditas de contenção da doença, sem necessidade de fechar tudo. Em vez disso, as autoridades têm estado a aplicar centenas de milhares de testes de diagnóstico à população. Há 500 clínicas a fazer testes, 40 delas móveis, por forma a reduzir os movimentos das pessoas infetadas ou potencialmente infetadas, bem como os contactos entre os pacientes e os profissionais de saúde.

O país está também a seguir sistematicamente as cadeias de transmissão através de telemóveis e tecnologias via satélite, aplicando uma rigorosa quarentena a alguns milhares de pessoas. E adotou um sistema de informação ao público que inclui o envio de mensagens por sms para as pessoas que residem perto de casos de infeção, rastreio de deslocações através do uso do telemóvel ou de cartões bancários e publicação de informações pormenorizadas.

Na segunda-feira foram identificados 84 casos novos. Foi o terceiro dia consecutivo em que o número foi inferior a cem. Assim, a Coreia do Sul soma 8320 pessoas infetadas. Destas, 6838 são infeções ativas, 1401 casos tiveram alta médica e 81 pessoas morreram.

Itália: ainda longe da contenção

A 23 de fevereiro, em Itália, o covid-19 estava circunscrito a quatro regiões do norte do país: Lombardia, Veneto, Emilia-Romagna, Piemonte e Lazio, mas em todo país já havia placards que aconselhavam as pessoas a permanecer em casa, encerraram lojas, escolas, empresas, bares, monumentos, foram adiados três jogos de futebol, cancelado o Carnaval de Veneza, restringidas as entradas para a Semana da Moda de Milão e havia mais de 50 mil pessoas em quarentena.

No entanto, os números de infetados e de mortes aumentaram a uma velocidade alarmante, levando o governo a fechar todas as escolas a 4 de março e, depois, a decretar o estado de quarentena em todo o país. O decreto governamental, em vigor desde 11 de março, limita a saída à rua a quem tem de trabalhar, comprar alimentos, passear cães ou fazer desporto, desde que individualmente. Nessa altura, havia mais de nove mil casos confirmados de infeção e 463 mortes. Apesar das medidas, a propagação do vírus na Itália não deu ainda sinais de abrandamento.

Este é o país europeu onde a situação mais se agravou e o segundo país no mundo, depois da China, com mais mortos associados ao covid-19. O país registou até agora 2503 mortos, com as 345 novas mortes ocorridas na segunda e na terça-feira. As autoridades de saúde registaram 3526 novos casos positivo - o que faz um total total de 31 506 pessoas contagiadas, embora apenas 26 062 estejam doentes. Foram dadas como recuperadas 2041 pessoas.

Do total de mortes, cerca de dois terços registaram-se na Lombardia (norte), região de que Milão é a capital. Esta é a região mais afetada, com mais de 13 mil casos. Aqui, as medidas de contenção entraram antes de serem alargadas a todo o país e espera-se que produza resultados em breve. No entanto, as autoridades da Lombardia manifestaram a sua preocupação sobre a capacidade do sistema hospitalar para responder à propagação da pandemia do covid-19, num momento em que a região contabiliza já perto de 800 pessoas em cuidados intensivos.

Reino Unido: terminou a calma

O governo foi muito criticado pela abordagem menos rígida relativamente a distanciamento social, recusando cancelar grandes eventos e fechar escolas. "Keep calm and carry on" era a palavra de ordem. Os especialistas britânicos argumentaram que um isolamento precoce iria fazer que as pessoas se fartassem de estar em casa demasiado cedo e que essas medidas apenas travariam temporariamente a propagação do vírus. O covid-19 regressaria mais tarde e todo o ciclo se repetiria. Portanto, o primeiro-ministro Boris Johnson defendeu que este tipo de decisões radicais só devia ser tomado "quando é mais eficaz", quando se considera "poder fazer a maior diferença para atenuar a propagação da doença, reduzir o número de vítimas, reduzir o número de mortes".

Mas nesta semana o governo mudou de estratégia. O número de casos de covid-19 no Reino Unido vai entrar numa fase de "crescimento rápido", disse em conferência de imprensa nesta segunda-feira o primeiro-ministro britânico. Espera-se que o número de infeções identificadas duplique de cinco em cinco dias, pelo que, para combater a propagação da epidemia, o governo aconselha os britânicos a ficar em casa, a evitar todo o contacto social desnecessário e a trabalhar a partir de casa.

O governo britânico pediu também que, em vez de sete dias, pessoas com sintomas e respetivo agregado familiar devem autoisolar-se durante 14 dias, incluindo para comprar alimentos ou outros bens essenciais, sobretudo idosos com maiores de 70 anos, mulheres grávidas e pessoas com outros problemas de saúde. Entretanto, organizações desportivas, como a Primeira Liga Inglesa ou a Maratona de Londres, decidiram suspender ou adiar competições. Teatros e museus também já estão a fechar as portas.

O motivo da mudança: de 35 mortes no domingo o país passou para um total de 55 na segunda-feira. "A doença agora está a acelerar", admitiu o ministro da Saúde, Matt Hancock, justificando a necessidade de respeitar o apelo feito pelo governo. O balanço do Ministério da Saúde publicado na segunda-feira dava conta de 1543 casos positivos entre 44 105 pessoas testadas ao coronavírus covid-19 no Reino Unido.

Estados Unidos: Trump declara guerra ao covid-19

Ainda a 27 de fevereiro, Trump afirmava que o risco do covid-19 para o país era muito baixo pois estavam a ser tomadas todas as medidas. O presidente garantia ainda que, em caso de expansão de casos, os EUA saberiam dar uma resposta como a China - quarentena de cidades inteiras - e que estão preparados para o pior cenário. "Mas não acredito que isso venha a acontecer. Estamos bem preparados, as nossas fronteiras estão bem controladas."

Mas, na quinta-feira 12 de março, com pelo menos 1323 casos confirmados no país e vários estados a empreender medidas de contenção, colocando áreas em quarentena, e a NBA a suspender os jogos após um jogador testar positivo para o covid-19, Trump anuncia a suspensão de voos da Europa. E no dia seguinte, sexta-feira, o presidente dos EUA declarou o estado de emergência nacional e anunciou que iria disponibilizar 50 mil milhões de dólares (45 mil milhões de euros) para os estados combaterem o coronavírus.

Na sexta-feira 13, a organização de saúde pública estatal encarregada do monitoramento do vírus registava 1700 casos de coronavírus. No total, 41 pessoas tinham morrido. Mas de acordo com os números da Universidade Johns Hopkins, no estado de Maryland, o total de contaminados no país já chegava a 3700, com 69 mortes.

Na segunda-feira à tarde, estavam confirmados 4600 casos e 85 mortos. Na terça-feira, de acordo com a universidade, seriam já 91 mortos e mais de 5100 os casos confirmados. Neste momento, mais de 30 estados já fecharam as escolas e o presidente voltou a pedir medidas de restrição social: "Temos de combater este inimigo desconhecido", disse Trump. "Um dia poderemos dizer 'ganhámos'."

Espanha: dos megaeventos de 8 de março à quarentena

Há pouco mais de uma semana, a Espanha não parecia estar muito preocupada com o coronavírus. A 8 de março, o domingo em que foi comemorado o Dia da Mulher, cerca de cem mil pessoas reuniram-se nas ruas de Madrid. A mulher de Pedro Sánchez, as ministras Irene Montero, mulher de Pablo Iglesias (Podemos), e Carolina Darias estiveram na linha da frente deste mega-ajuntamento. Nesse dia havia futebol nos estádios, festas e o Vox, partido político, juntava milhares de pessoas num evento. Hoje, as ministras e a mulher de Sánchez estão infetados, tal como o líder e outros deputados do Vox.

Nesta altura, já havia muitos sinais de alarme. A Espanha tinha registado os primeiros casos entre 13 e 23 de fevereiro. Eram poucos - os conhecidos - e as autoridades garantiam que não existiam cadeias de transmissão. A 8 de março, em Itália já havia mais de 1500 casos e 66 mortes. Durante a semana que antecedeu esse domingo de 8 de março, as autoridades de Madrid garantiam que não era necessário fechar escolas nem suspender os eventos.

Na segunda-feira 9 tudo era diferente. Na semana que se seguiu os testes indicavam mais de 1200 casos positivos e já havia 28 mortes. Fecharam-se escolas e suspenderam-se as grandes concentrações. Foi o início de uma caminhada rumo ao estado de alerta decretado no dia 14, após quatro dias de implementação de medidas de contenção e de avisos para o isolamento social. Numa semana, os casos tiveram uma escalada muito rápida. A lentidão em decretar medidas mais severas no início de março tem gerado muitas críticas. Pedro Sánchez admitiu que houve erros que devem ser avaliados mais tarde, quando a crise abrandar.

A 17 de março, o país vizinho tem 11 178 casos confirmados, com 491 mortes. Há 563 pessoas nos cuidados intensivos. Pedro Sánchez anunciou um pacote de 200 mil milhões de euros, o equivalente a 20% do PIB espanhol, para apoiar famílias, trabalhadores, empresas e reforçar a investigação científica.

O número de casos cresce de forma exponencial, com 150 mortes nas últimas 24 horas e uma curva semelhante ou superior à da Itália. As autoridades de Madrid apostam agora na contenção, com o país confinado. Sánchez deixou claro que travar o contágio é essencial no plano espanhol. "Estaremos perto da vitória quando os contágios caírem à velocidade que hoje sobem."

Com David Mandim

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