Marcelo e Costa em choque no "VieiraGate": antecâmara da coabitação no segundo mandato?

Presidente insinua puxão de orelhas a Costa por apoio a Luís Filipe Vieira. Nos partidos já todos censuraram o PM. Todos? Não. Há dois que permanecem em silêncio

O Presidente da República entrou em choque frontal com o primeiro-ministro devido à decisão de António Costa de aceitar integrar, "como cidadão", a comissão de honra da sexta candidatura de Luís Filipe Vieira à presidência do Benfica.

O que falta agora perceber ao certo é se o país já não estará a assistir a uma espécie de antecâmara do que poderá ser a coabitação Marcelo-Costa no quinquénio (2021-2026) caso o PR se recandidate em janeiro do próximo ano e volte a vencer as eleições.

O movimento foi feito em vários passos, que culminarão na próxima quinta-feira, quando Marcelo Rebelo de Sousa receber em Belém o primeiro-ministro para a tradicional reunião semanal entre ambos.

"É um assunto que não tem rigorosamente nada que ver com a vida política nem com as funções que exerço ou exerci."

Seja como for, Marcelo já fez saber - embora em modo suave - que não aceita o argumento em que António Costa vem insistindo desde que, no sábado, o Expresso noticiou que ele e o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, integravam a comissão de honra da candidatura de Luís Filipe Vieira.

Logo no sábado, Costa disse que recusava comentar a notícia e explicou porquê: "Não vou fazer nenhum comentário sobre um assunto que não tem rigorosamente nada que ver com a vida política nem com as funções que exerço ou exerci."

E nesta segunda-feira voltou a dizer o mesmo: "Mais uma razão acrescida para que não misture de forma alguma aquilo que são as minhas responsabilidades enquanto agente político com coisas que rigorosamente nada têm ou tiveram que ver com a minha vida política ou funções."

"É uma questão concreta, é uma determinada pessoa, exercendo uma determinada função, em relação a um determinado acontecimento desportivo, num determinado momento histórico e num determinado contexto."

Ora Marcelo já sinalizou claramente que não aceita este argumento do PM. No domingo, à margem de uma visita ao lar de Martim Longo (concelho de Alcoutim, no Algarve), o PR deixou claro que há um problema justamente devido às funções que Costa ocupa.

Esta é - disse - "uma questão concreta" que envolve "uma determinada pessoa, exercendo uma determinada função".

Fez ainda questão de insinuar que também conta o facto de Vieira ser arguido em processos complicados - o mais recente dos quais a Operação Lex, em que o principal arguido é o juiz Rui Rangel - e constar, enquanto empresário, na lista dos grandes devedores do Novo Banco. Fê-lo dizendo que o que está em causa é "um determinado acontecimento desportivo, num determinado momento histórico e num determinado contexto".

E também não deixou de avisar que iria confrontar o PM pessoalmente: "Espero receber o primeiro-ministro na audiência desta semana."

Foi assim a frase completa do PR: "Não falei ainda com o senhor primeiro-ministro e, sobretudo, porque não é uma questão hipotética, é uma questão concreta, é uma determinada pessoa, exercendo uma determinada função, em relação a um determinado acontecimento desportivo, num determinado momento histórico e num determinado contexto, portanto, não é possível fazer considerações teóricas sobre uma realidade concreta, eu espero receber o primeiro-ministro na audiência desta semana."

Vários recados ao PM de uma cajadada só - mas Marcelo não se ficou por aqui,

Nesta segunda-feira, através do Observador, o Presidente da República estabeleceu-se a si próprio como padrão ético nesta questão.

Fez isso fazendo saber que ele próprio, adepto do Braga, foi convidado em 2017 para integrar a comissão de honra da recandidatura de António Salvador a presidente do clube - e recusou, invocando, precisamente, o mandato presidencial. Antes de ser Presidente, Marcelo integrara essa comissão, em candidaturas anteriores de Salvador.

Os dois partidos que ficaram calados

Com os vários passos que foi dando, Marcelo alimenta um crescendo de tensão que dará à audiência de quinta-feira uma atenção inusitada. A realização dessa audiência, aliás, não está ainda oficialmente confirmada. Não consta nas agendas nem do PR nem do PM - mas é verdade também que ambos só anunciam as respetivas agendas de véspera.

Apoiar a recandidatura de Luís Filipe Vieira gerou na classe política um coro de críticas ao primeiro-ministro. E o coro foi da direita à esquerda, começando por Rui Rio, passando pelo CDS e pela IL, e acabando no BE.

Há porém dois partidos dos quais ainda não se ouviu uma palavra que fosse - ou de apoio a Costa ou de censura. Esses partidos são o PCP e o Chega.

No caso do PCP, Jerónimo de Sousa foi questionado sobre o assunto no sábado, quando apresentava as conclusões de uma reunião do Comité Central. E chutou para canto: "Não é matéria nem momento para comentar essa questão."

Quanto a André Ventura, nem isso. O deputado já produziu várias declarações no Twitter desde que o Expresso publicou a notícia - mas nem uma para comentar o caso.

Reina portanto, nos dois partidos um ensurdecedor silêncio. E não é por acaso. As ligações do PCP e de André Ventura a Luís Filipe Vieira são profundas.

No caso do PCP, sabe-se que Vieira se forjou como empresário num concelho, Vila Franca de Xira, num tempo em que a CDU era por ali a força dominante. O presidente do SLB já compareceu em diversas iniciativas dos comunistas, a última das quais no jantar com que a CDU encerrou a campanha europeia de 2019.

Quanto a André Ventura, foi como porta-voz oficioso do Benfica, e apoiando sempre a liderança de Luís Filipe Vieira, que se afirmou no espaço mediático, enquanto comentador da CMTV. Ventura só não é hoje na CMTV uma das mais sonantes vozes a defenderem Vieira e o SLB porque o grupo Cofina prescindiu dos seus serviços em maio passado.

A ligação Ventura-Vieira sempre foi um dos principais pontos de ataque dos adeptos de outros clubes, nomeadamente do FC Porto, ao Benfica.

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