Inquérito serológico "já está no terreno". Mas imunidade de grupo ainda está longe

Portugal está mais perto de saber que parte da população já esteve em contacto com o novo coronavírus. O estudo nacional sobre imunidade arranca na próxima semana, informou o secretário de Estado da Saúde, esta quarta-feira.

"Já está no Terreno". Dizia António Lacerda Sales, secretário de estado da Saúde, esta quarta-feira, sobre o inquérito nacional que vai procurar a presença de anticorpos do vírus SARS-CoV-2 na população. As análises ao sangue e as perguntas deverão começar na próxima semana. As respostas ainda não se sabe quando poderão chegar.

O estudo, da responsabilidade do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), conta com a colaboração da Direção-Geral da Saúde, de 17 hospitais da rede nacional e 105 postos de análises clínicas espalhados por todo o território português. Os materiais e os formulários para a recolha de dados "serão entregues em todos os locais até ao início da próxima semana, após o que se iniciará a recolha das análises de sangue e a recolha de dados", explicou o governante, em conferência de imprensa.

Estes exames dirão quem já teve a doença covid-19, independentemente de ter manifestado sintomas ou não. Ao contrário dos testes PCR (feitos para despistar a infeção), que só acusam positivo mediante a manifestação da doença, os serológicos reconhecem o vírus mesmo quando ele já não está presente, mas já esteve. Podem ainda dar outras pistas relacionados com a forma de propagação da covid-19, que, em Portugal, já provocou 1175 mortes, entre os 28 132 infetados. "Nesta fase em que é preciso reativar o país é importante saber quem pode sair com maior segurança", diz Miguel Castanho, responsável pelo laboratório de Bioquímica de desenvolvimento de Fármacos e Alvos Terapêuticos do Instituto de Medicina Molecular (IMM) João Lobo Antunes, em Lisboa. E os testes serológicos veem dar essa resposta.

No inquérito nacional "será utilizado um método laboratorial que permitirá identificar os níveis de anticorpos IgA, IgG e IgM contra SARS-CoV-2, níveis estes que serão determinados por análise laboratorial (ensaio imunoenzimático, ELISA, ou de quimiluminescência) em amostras de soro", indicou o INSA, ao DN, esta tarde, acrescentando que as amostras serão, depois, processadas no Laboratório de Referência para o Vírus da Gripe e outros Vírus Respiratórios da instituição.

Para chegar a uma conclusão sobre a imunidade de grupo, deverão ser testadas cerca de duas mil pessoas, de acordo com informações prestadas em conferência de imprensa no final de abril pelo presidente do INSA, Fernando Almeida. Mas é preciso ter em mente que a imunidade ao vírus SARS-CoV-2 ainda levanta muitas duvidas, não sendo possível afirmar com todas as certezas que esta existe ou quanto tempo dura. Da Coreia do Sul, por exemplo, chegam relatos de pessoas dadas como curadas que voltaram a acusar positivo para a covid-19.

Em Portugal, não é conhecida nenhuma situação semelhante, embora a diretora-geral da Saúde tenha já admitido que tal pode vir a acontecer e que isto não quer necessariamente dizer que a pessoa continue infetada. Podem ser detetadas partículas do vírus nas vias respiratórias com a infeção inativa.

Ainda não é certo que quem tenha contraído covid e esteja curado seja imune à doença.

Já atingir a imunidade de grupo (momento a partir do qual é mais seguro fazer uma vida normal, uma vez que o vírus se está a propagar com mais dificuldade) é uma realidade distante para os portugueses, segundo Miguel Castanho. As últimas estimativas sobre a imunidade de grupo apontam para um valor na casa dos 2%, quando a maioria dos estudos refere que será necessária uma percentagem entre os 60% e os 70% para que o vírus "fique em maus lençóis", diz o bioquímico. "Estaremos abaixo de qualquer previsão".

Em Loulé a taxa de infeção é 14 vezes superior aos casos diagnosticados

O inquérito do INSA será o primeiro com uma dimensão mais generalistas, mas os testes serológicos não são uma novidade para o país. Várias entidades têm usado a análise para traçar um retrato mais fidedigno da sua situação epidemiológica. Há clubes de futebol a testar os seus jogadores antes do regresso ao campo e alguns municípios têm usado a mesma estratégia com o seus funcionários. Em Vizela, Braga, os alunos do 11.º e do 12.º foram testados antes do regresso às aulas presenciais, que está agendado para a próxima segunda-feira (18 de maio). Também os hospitais têm feito inquéritos serológicos aos profissionais de saúde para saberem quem já contraiu a doença, podendo assim trabalhar com mais segurança.

Em Loulé, a Fundação Champalimaud e o Algarve Biodemical Center conduziram um estudo destes. Contaram com a participação de 1 235 pessoas, entre profissionais de saúde, forças de segurança, jornalistas, trabalhadores do mercado, entre outros, e a conclusão aponta para que 2,8% dos cidadãos que figuram na amostra já tenha tido contacto com o vírus. Taxa 14 vezes superior à alcançada com os testes de despiste. Os próprios autores do estudo lembram que se trata de uma população muito específica e onde a covid-19 tem baixa incidência, pedindo cautela com as extrapolações para o universo nacional. Esse fica a cargo do INSA.

Até aqui foi considerado prematuro pelas autoridades de saúde a realização deste género de inquérito, por considerarem que ainda não havia circulação suficiente da doença em território nacional, num primeiro momento. E num segundo, por uma questão de encontrar o teste mais fiável e que respondesse às perguntas que as autoridades querem fazer à covid, uma vez que nem todos os testes serológicos têm capacidade para dar o mesmo tipo de informação.

Sensibilidade dos testes? "Estamos a aprender a pilotar o avião, enquanto lemos o manual de instruções"

Da Suíça chega a notícia de que a farmacêutica Roche encontrou um teste serológico com 100% de sensibilidade, um "novo nível qualitativo", que garante uma "sensibilidade e especificidade extraordinariamente elevadas". Uma esperança que contraria avisos internacionais de que existem no mercados testes rápidos incapazes de prometer a tão ambicionada imunidade.

Em Portugal, a fiabilidade dos exames não tem sido questionada. Sabe-se que há vários laboratórios a criar as suas próprias fórmulas: a 22 de abril estavam registados no Infarmed 30 exames serológicos, avançava a Autoridade do Medicamento, ao DN. Os testes serológicos são enquadrados como dispositivos médicos e, por isso, não necessitam de uma aprovação do Infarmed, mas para serem produzidos e distribuídos é necessário serem registados.

Quanto à sua qualidade, o especialista do IMM acredita que "esteja a ser utilizada a melhor tecnologia, principalmente nos laboratórios universitários", aqueles que conhece melhor. No entanto, não descarta completamente o erro: "estamos a trabalhar com um vírus sobre o qual já sabemos muito, mas não sabemos tudo, e que continua a sofrer mutações. Eventualmente algumas dessas mutações podem interferir com os testes serológicos", refere.

"Estamos a aprender a pilotar o avião, enquanto lemos o manual de instruções. O objetivo é mantê-lo no ar, mas podem existir algumas manobras que não corram tão bem", resume.

Os "certificado de imunidade"

Apesar da probabilidade de erro, os testes serológicos são apontados, desde o início da pandemia, como a resposta à pergunta: já podemos sair de casa? Itália iniciou o inquérito a 4 de maio (dia em que o plano de alívio das medidas de contenção foi posto em marcha). Antes já a Alemanha, o Luxemburgo ou o Reino Unidos procuravam saber quem foi infetado no seu território.

Alguns destes países estão também a considerar já a atribuição de "certificados de imunidade" aos cidadãos. Um documento que prove que tiveram um teste serológico positivo; que distinga quem já pode andar mais à vontade na rua, de quem tem de ter mais cuidados. Uma ideia polémica, que não tem o aval da Organização Mundial de Saúde, por ainda existirem duvidas quanto à questão da imunidade.

A hipótese começou por ser levantada na Alemanha, no final de março. E voltou a ser citada no Reino Unido, pelo ministro da Saúde, Matt Hancock, em abril. Em Portugal, excetuando alguns cientistas e a Ordem dos Médicos que já admitiu estar a pensar no assunto, não há razão para acreditar que isto vá acontecer num futuro próximo, pelo menos antes de serem conhecidos os resultados do inquérito serológico nacional.

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