Já há 30 tipos de testes para avaliar imunidade dos portugueses à covid

Laboratórios portugueses, públicos e privados, estão a apostar tudo para encontrar soluções que permitam distinguir que parte da população está imune ao novo coronavírus. Neste momento, há 30 exames serológicos (análises ao sangue que testam a imunidade) diferentes a serem produzidos no país, avançou o Infarmed ao DN.

Chamaram-lhe Serology4Covid. Trata-se de um consórcio português que reúne o Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Universidade de Lisboa, o Instituto Gulbenkian de Ciência, o Centro de Estudos de Doenças Crónicas (Cedoc) da Faculdade de Ciências Médicas e o Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB) da Universidade Nova de Lisboa e o Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (IBET). Juntos estão a criar um teste serológico que detete a presença de anticorpos contra o novo coronavírus, com o objetivo de conhecer a parte da população que está imune ao vírus SARS-CoV-2 e contribuir para um regresso faseado mais seguro à vida ativa. O protótipo está pronto e dentro de pouco tempo poderá ser produzido e distribuído de forma massiva.

Os resultados desta análise biológica - ao contrário do atual teste de despiste para o novo coronavírus (PCR) - conseguirão apontar os infetados assintomáticos, quem pode já estar imune e uma estimativa de quanto tempo durará essa imunidade. Estes exames são a chave para a próxima fase da pandemia e serão essenciais na hora de tomar decisões sobre a suavização das medidas de contenção, uma vez que podem dizer que parte da população não transmitirá a doença. Como estão classificados como dispositivos médicos não necessitam de uma aprovação do Infarmed - a Autoridade do Medicamento em Portugal, mas para serem comercializados ou doados, ou seja, para serem produzidos e distribuídos é necessário um registo. Até ao momento, o Infarmed recebeu 30 notificações, avançou a Autoridade do Medicamento ao DN.

"Este teste vai permitir recolher dados que ainda não existem, centralizar os dados e permitir tomar decisões. É preciso ter cuidado e saber como vamos dar o próximo passo e não tomar decisões às cegas", diz Pedro Simas, virologista e investigador do IMM, um dos envolvidos no consórcio. O grupo terá ainda de procurar um parceiro na indústria biotecnológica para que seja possível produzir o novo teste em massa.

Na mesma corrida, estão outras instituições. ​​​​​Os privados Joaquim Chaves, os laboratórios Unilabs Portugal e o grupo Germano de Sousa - o primeiro a anunciar que estava a fazer estes testes a pedido de médicos que suspeitavam ter doentes assintomáticos. "São baratos e vai ser possível fazer muitos por dia. Agora, não podemos colocar em risco a qualidade, já que nos estamos a sair tão bem até agora", refere o virologista.

Individualmente - no caso do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que não teve a doença, mas anunciou ter feito um teste destes que revelou não estar imune -, ou em conjunto, já há várias pessoas que foram sujeitas a este exame molecular, embora os testes ainda não estejam a ser usados de forma recorrente em Portugal, como indica o Infarmed. "Atualmente todos os testes para Covid-19 registados no Infarmed são apenas para uso por profissionais de saúde, não podendo ser disponibilizados a leigos, contudo é necessário considerar as orientações disponíveis a nível nacional emitidas pela DGS no que respeita ao diagnóstico da Covid-19", refere a autoridade de saúde.

A diretora-geral da Saúde garantiu que a generalização de testes serológicos está a ser planeada, em conjunto com o Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, e que no início de maio vai começar um inquérito serológico aos portugueses, tal como já acontece na Alemanha ou no Luxemburgo. Segundo Graça Freitas, isto não aconteceu mais cedo porque é preciso ter a certeza de qual o teste que responde de forma mais adequada às perguntas essenciais e "se for demasiado precoce pode não haver ainda anticorpos".

O Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte (que inclui os hospitais de Santa Maria e Pulido Valente) antecipou-se e começou, esta terça-feira, a testar os seus profissionais para saber qual o grau de exposição ao covid-19 e para, desta forma, tomar decisões mais conscientes sobre quem deve estar a trabalhar.

"Temos de olhar para o vírus como uma vacina atenuada. É olhar para o vírus como um problema que também pode ser a solução. O tratamento não vai resolver nunca o problema populacional. Nunca houve nenhum medicamento que conseguisse travar uma pandemia ou pudesse ser usado massivamente profilaticamente", defende o investigador Pedro Simas.

Recuperados ultrapassam mortes por covid-19. E assim deve continuar

O número de recuperados em Portugal aumentou em 307, nas últimas 24 horas, passando de 610 pessoas curadas da infeção para 917. É a maior subida deste indicador e a primeira vez que é superior às mortes no país, que neste momento são 762, segundo os dados da Direção-Geral da Saúde (DGS), desta terça-feira. Casos confirmados estão nos 21 379.

Ao DN, a DGS explicou que o aumento dos recuperados está relacionado com uma notificação em atraso e que nos próximos dias é previsível que este número continue a aumentar à medida que se fazem mais testes. Apesar de a doença ser, na maior parte dos casos, de evolução lenta, como já antes tinha indicado o secretário de estado da Saúde, António Lacerda Sales, em conferência de imprensa. Acrescentando a isto, a necessidade de cada contagiado acusar dois testes negativos para covid-19, antes de ter alta médica.

"O aumento dos recuperados deve-se em parte ao reforço da notificação, através do levantamento junto da Administração Regional de Saúde. Está ainda a ser feita uma distribuição dos casos recuperados pelos dias de recuperação. O que é de esperar é que haja um aumento do número de recuperados, pelo facto de o maior número de casos ter sido no final de março e no início de abril. É natural, por outro lado, que haja uma melhoria do sistema de reporte", justificou a DGS por escrito, ao DN.

Sobre a hipótese destes doentes voltarem a contrair a infeção, a evidência cientifica disponível até ao momento sugere que em principio isso não acontecerá, porque ganham anticorpos. No entanto, o infeciologista Jaime Nina, que trabalha no Hospital Egas Moniz em Lisboa e no Instituto de Medicina Tropical, lembra que "para saber se a imunidade é para a vida temos de esperar 60 anos".

Na China ou na Coreia do Sul foram noticiados casos de reincidência, mas Jaime Nina coloca em causa a fiabilidade dos testes que deram estes doentes como curados. Em Espanha, Itália, Portugal não há registo de ninguém nesta situação.

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