Espanha vs. Itália. Das semelhanças na 1.ª vaga às diferenças na segunda

Os dois países europeus focaram as atenções no início da pandemia, antecipando aquilo que acabaria por acontecer noutros países. Agora, a situação é diferente. Espanha está com mais casos agora do que no primeiro pico, com a letalidade a estar contudo muito abaixo do registado na altura.

Os primeiros casos do novo coronavírus surgiram em Itália e em Espanha no mesmo dia, 31 de janeiro, com os números a explodir a partir de finais de fevereiro. Durante umas semanas, eram os números de Itália que chocavam, mas Espanha sempre esteve logo atrás, finalmente passando para a frente em finais de março. Com a situação controlada, veio o desconfinamento, e agora é Espanha que faz soar os alarmes.

"Espanha confinou de forma muito forte, com regras até muito mais fechadas e duras do que Portugal, e, quando abriu, voltou a explodir com força. Abriram rápido e vinham de um sistema muito fechado", refere a diretora da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, Carla Nunes. "Talvez a mudança tenha sido mais suave em Itália", acrescentou, numa análise à situação epidemiológica nestes países.

A professora lembra que existem agora duas convicções, quer nestes países quer em Portugal. "Primeiro é que vamos ter de abrir. É uma convicção económica e até de saúde mental. Voltarmos todos a confinar não é bom para ninguém. A segunda é que a taxa de letalidade baixou bastante. Para todos os efeitos, já há uma capacidade de resposta, já houve uma reorganização de serviços, já há alguns procedimentos que funcionam nalguns casos", explicou Carla Nunes.

Portugal deve ficar preocupado? "Temos de ficar preocupados. Mas não em pânico. Nós vimos um filme em adiantado há uns meses, quando olhámos para Itália e Espanha. Agora estamos a ver o filme outra vez, com a convicção pura de que temos de abrir, mas que temos de reforçar as regras, e os nossos comportamentos estão muito flexíveis. Se mantivermos o nosso comportamento, a situação vai explodir", concluiu a diretora da Escola Nacional de Saúde Pública.

Os números

A 31 de janeiro, Itália detetou os dois primeiros casos de covid-19 no país. Eram dois turistas chineses, oriundos do berço do novo coronavírus, Wuhan, que tinham chegado no dia 23 e visitado várias cidades italianas. Nesse mesmo dia, na remota ilha espanhola de La Gomera, nas Canárias, um turista alemão tornava-se o primeiro caso diagnosticado em Espanha.

Apesar disso, só no final de fevereiro é que os alarmes soaram a sério nos dois países, com os primeiros casos de contágio local a dar rapidamente lugar a surtos. A curva começou a subir em Itália logo a partir de dia 22, com Espanha a seguir-lhe a tendência poucos dias depois.

Em pouco tempo, Itália, com os seus 60 milhões de habitantes, tornava-se o principal foco de preocupação na Europa, ultrapassando os 6500 novos casos diários a 22 de março - o pior dia de que há registo. Mas Espanha, com 47 milhões de habitantes, vinha logo atrás, tendo passado os números italianos logo a partir de 24 de março, chegando quase aos 9200 casos no dia 27 desse mesmo mês.

Um recorde que bateu cinco meses depois, começando a curva a subir a partir do início de julho e chegando a ultrapassar os dez mil casos diários a 4 de setembro e nesta quinta-feira (não são tidos em conta os números apresentados à segunda-feira, muito superiores, porque desde julho que não há divulgação de dados ao fim de semana). Espanha é o primeiro país da Europa a passar o meio milhão de casos (são já 554 143).

Enquanto isso, a Itália também está a assistir ao aumento de casos (desde meados de agosto), mas só nesta quinta-feira passou dos 1500 por dia, para um total de 283 180 desde o início da pandemia.

(Veja mais gráficos e comparações aqui)

O número de mortos segue um padrão semelhante, com aumentos a partir de agosto, mas sem a curva acelerada que se vê no número de casos, apesar de em números totais a Itália (35 587) continuar ainda à frente de Espanha (29 699).

O dia mais mortífero em Itália foi a 27 de março, com o registo de 919 óbitos por covid-19, enquanto Espanha registou mais dez (929) a 31 de março. A 10 de setembro, foram registados dez novos mortos em Itália (um aumento de 74% nos últimos 14 dias) e 71 em Espanha (mais do dobro da véspera).

O que é que está a acontecer em Espanha para justificar esta segunda vaga com um pico ainda pior do que na primeira? E o que é que Itália está a fazer bem para controlar os seus números?

Alarme vs. emergência

Para conter o vírus no início da pandemia, Itália começou por confinar as regiões onde começavam a aparecer os surtos, no norte do país, a partir de dia 21 de fevereiro, alargando depois a medida para o resto do país a 9 de março. Já Espanha continuava a permitir manifestações - a do Dia da Mulher, 8 de março, foi especialmente criticada -, só tomando a decisão de decretar o confinamento a 14 de março, já depois de dar ordem de fecho das escolas.

Nesse mesmo dia, entrou em vigor em Espanha o estado de alarme, uma medida excecional (só tinha sido usada uma vez no passado) que permite limitar a circulação das pessoas, entre outras coisas. Esta necessita da autorização do Congresso a cada 15 dias. No total, houve seis prolongamentos do prazo, até ao fim, a 21 de junho, tendo as medidas de confinamento começado a ser levantadas por regiões a partir de finais de abril.

Por seu lado, a Itália tinha declarado o estado de emergência logo a 31 de janeiro, quando detetou o primeiro caso, tendo este um prazo de duração de seis meses, findo o qual pode ser alargado. O estado de emergência ainda está em vigor em Itália até pelo menos 15 de outubro, tendo o primeiro-ministro Giuseppe Conte pedido o seu alargamento no final de julho ao Senado - não precisava de o fazer.

O confinamento começou a ser levantado, aos poucos, em meados de maio, com o fim das restrições a viajar entre regiões a chegar já em junho.

Uma questão política

Com o estado de emergência, Conte pode tomar uma série de medidas sem precisar do apoio do Parlamento, ao contrário do homólogo espanhol, Pedro Sánchez. Tanto Itália como Espanha têm atualmente governos de coligação, mas no caso dos espanhóis isso acontece pela primeira vez desde o regresso à democracia e sem maioria parlamentar.

Após as eleições de março de 2018 em Itália, o Movimento 5 Estrelas (antissistema) e a Liga (extrema-direita) chegaram a acordo para a formação de um governo liderado por Conte. Contudo, o choque entre os dois parceiros da coligação viria a culminar na saída do partido de Matteo Salvini do governo, numa tentativa de forçar novas eleições (ia à frente nas sondagens).

O Partido Democrático acabou por aceitar uma aliança com o Movimento 5 Estrelas, com apoio de outros partidos, e Conte voltou a tomar posse a 17 de setembro de 2019. Tem a maioria no Congresso, mas com o estado de emergência tem atuado sem necessidade de passar pelos deputados.

em Espanha, Sánchez conseguiu finalmente formar governo em janeiro, após as segundas eleições no espaço de um ano, numa coligação com a aliança Unidas Podemos, de Pablo Iglesias. Apesar do acordo, que não tinha sido possível meses antes devido a desentendimentos entre ambos, a coligação é minoritária no Parlamento, com o socialista a precisar do apoio dos partidos nacionalistas para ser investido.

A cada 15 dias, Sánchez tinha de enfrentar o desafio de pedir autorização aos deputados para prolongar o estado de alarme, nunca tendo havido consenso em Espanha em relação à resposta ao covid-19, com Sánchez constantemente debaixo das críticas da oposição por causa dos números de casos e mortes no país.

Poder regional vs. poder central

Além da oposição nacional, o primeiro-ministro espanhol teve de contar também com a oposição regional - não apenas dos independentistas na Catalunha, mas também do governo da Comunidade de Madrid, que está nas mãos do PP.

Em Espanha cabe às comunidades autónomas a gestão dos temas de saúde, de tal forma que o ministério atualmente nas mãos de Salvador Illa não era considerado uma pasta importante na altura de discutir a distribuição entre os partidos de governo - terá sido oferecida ao Podemos, que recusou.

Quando foi declarado o estado de alarme, o governo central assumiu a gestão da área, retirando-a às comunidades, mas o Ministério da Saúde não estava preparado., tendo mesmo sido necessário recrutar funcionários de outros setores.

Para os independentistas catalães, esta foi mais uma arma contra o governo de Sánchez, com o presidente da Generalitat, Quim Torra, a alegar que as regiões não eram ouvidas pelo poder central, chegando a alegar que a independência da Catalunha era agora mais urgente do que nunca.

Depois, quando foi levantado o estado de alarme, alguns poderes foram devolvidos às 17 comunidades autónomas, causando ainda mais caos. Algumas regiões chegaram a querer empreender as suas próprias medidas de confinamento, acabando por ver os tribunais a revogá-las, com o argumento de que só o Congresso espanhol as podia aprovar.

Em Itália, a área da saúde é uma competência partilhada tanto pelo governo nacional como pelos governos regionais. Conte também enfrentou o poder regional e local e teve alguns choques iniciais, quando toda a gente punha em causa o verdadeiro perigo da pandemia ou quando houve descontrolo pela adoção de medidas - o anúncio do confinamento a norte levou milhares a fugir para sul, espalhando a covid-19 pelo país.

Contudo, à medida que a situação ia piorando, os vários governos regionais foram seguindo as diretivas que chegavam de Roma, com a Proteção Civil a servir de mediadora com Roma, com alguns líderes regionais a pedirem até mais poderes para aprovarem medidas mais restritiva do que os vizinhos. Além disso, o governo italiano podia a qualquer momento assumir para si toda a pasta da Saúde, em caso de necessidade.

Segunda vaga

Com o levantar do confinamento, ambos os países mantiveram várias medidas para tentar conter a covid-19. Em Itália, as máscaras são obrigatórias em espaços públicos fechados, restaurantes ou transportes públicos, assim como em espaços ao ar livre entre as 18.00 e as 06.00.

Em relação aos italianos que regressam das férias no estrangeiro, se vierem de países como Espanha, Malta, Grécia ou Croácia têm de fazer teste à chegada, enquanto se vierem da Roménia e da Bulgária têm de cumprir quarentena. Há vários países para os quais é proibido viajar ou, como os EUA, em que só casos excecionais são tidos em conta.

A 15 de agosto, Itália voltou a fechar as discotecas e espaços noturnos, depois de serem associados a novos surtos, e a presença de público nos estádios para a Serie A continua a ser proibido. E os transportes públicos andam a 80% da capacidade. Em algumas regiões, as aulas já recomeçaram, mas a maioria dos alunos volta à escola na próxima segunda-feira, havendo regiões que adiaram mais uma semana o regresso. Máscaras são obrigatórias a partir dos 6 anos.

em Espanha, ao confinamento apertado seguiu-se uma rápida abertura, com o regresso da vida noturna (para apoiar o turismo) e das atividades em grupo, contribuindo para um aumento do número de casos entre os jovens - muitos dos quais assintomáticos, cujo contágio é possível detetar por causa do aumento do número de testes. Ainda há queixas em relação à avaliação dos contactos dos infetados, com falta de pessoal nesta área.

As medidas variam de comunidade autónoma para comunidade autónoma e até de cidade para cidade, sendo necessário investigar o que é permitido em cada uma delas. Em Madrid, por exemplo, as reuniões familiares ou de ócio estão limitadas a dez pessoas, enquanto em Barcelona o governo não recomenda sair de casa, exceto para trabalhar e outras atividades limitadas.

A falta de apoio aos migrantes também tem sido apontada como responsável por vários surtos, com os trabalhadores agrícolas que muitas vezes ficam em espaços sem condições e viajam entre campos de trabalho a registarem vários casos.

As escolas reabriram nesta semana, já com necessidade de voltar a fechar algumas salas por causa de casos positivos.

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