Recessão deste ano será pior do que a depressão de 1928, diz Bruxelas

Na Grande Depressão, no início do século XX, Portugal colapsou 9,7%. Bruxelas diz que neste ano a economia vai afundar 9,8% ou mais, voltando a divergir da média europeia.

A recessão deste ano em Portugal vai ser mais violenta do que a Grande Depressão de 1928, segundo as novas projeções ontem avançadas pela Comissão Europeia (CE) tendo em conta os efeitos da pandemia de covid-19.

Para Bruxelas, a economia portuguesa vai afundar 9,8% neste ano (ou mais, já que os riscos são excecionalmente negativos e incertos), valor que supera a contração de 9,7% que consta nas séries históricas publicadas pelo Banco de Portugal ("New estimates for Portugal's GDP: 1910-1958").

Soube-se ontem que Portugal sofreu a maior revisão em baixa da Europa para a variação anual do produto interno bruto (PIB) - no caso em apreço, a maior revisão em alta da recessão prevista para 2020 - o que faz que a economia volte a divergir de forma significativa em relação à média europeia, mostra a Comissão Europeia, que atualizou projeções para as 27 economias da União.

Depois de quatro anos de convergência real, algo que foi bastante celebrado pelo atual Governo, a economia caiu por terra e vai divergir da média europeia durante pelo menos dois anos.

A recuperação dos danos provocados neste ano pela crise pandémica também deverá ser das mais curtas. Depois de perder 9,8% do PIB em 2020 (face a 2019), Portugal só vai conseguir recuperar 6% no próximo ano, em termos reais. Fica 3,8 pontos percentuais aquém de um crescimento que apagasse o rasto de destruição histórico esperado para este ano.

Pior só Itália. Vai ter a maior recessão da Europa em 2020 (contração de 11,2%) e em 2021 só recupera 6,1%. Ontem, os chefes de Governo dos dois países (Giuseppe Conte e António Costa) encontraram-se em Lisboa para concertar posições para conseguir sair deste buraco.

Cálculos do DN/Dinheiro Vivo com base nestas novas previsões intercalares mostram ainda que a projeção anual para a economia portuguesa em 2020 foi, de todos os países da União Europeia, a que mais se degradou desde maio (previsões da primavera, também da CE). O corte foi de três pontos percentuais.

Comissão prevê recessão de 9,8%, Governo diz 6,9% no OE

E agora a CE é a instituição mais pessimista das que já fizeram cenários macro desde que a pandemia desabou sobre as economias.

A recessão que prevê para este ano em Portugal compara, por exemplo, com a quebra de 6,9% prevista pelo Governo em junho (e na qual assenta o Orçamento do Estado suplementar).

É também mais grave do que a contração de 7,5% projetada pelo Conselho das Finanças Públicas, do que a descida de 9,4% estimada pela OCDE e pior do que o afundanço de 9,5% calculado pelo Banco de Portugal. Todas estas entidades atualizaram as suas contas em junho.

O lastro pesado do turismo a mais

Em Bruxelas, o comissário responsável pelos Assuntos Económicos explicou que a diferença "deve-se a um desempenho pior do que o esperado no primeiro trimestre e a uma recuperação mais lenta do que o previsto no turismo estrangeiro, particularmente no número de voos, e também no atraso da reabertura da fronteira com Espanha, que só aconteceu há alguns dias".

A forte revisão em baixa das projeções para o PIB português - a mais profunda entre os 27 países da UE, como já referido - "confirma como a incerteza em torno de voos e do turismo global podem afetar particularmente economias muito dependentes do setor turístico", observou o comissário de origem italiana.

O novo estudo da CE avisa ainda que "o desempenho económico deverá deteriorar-se a um ritmo muito mais acentuado, cerca de 14%", entre o primeiro e o segundo trimestres deste ano, "refletindo contrações dramáticas na maioria dos indicadores económicos".

Os economistas da Comissão reiteram que "o turismo foi o mais afetado e de maneira dramática, com as visitas a cair quase 100% em abril em relação ao ano anterior". A confiança na economia (sentimento económico) também "caiu abruptamente de 105,7 pontos em fevereiro, para 63 pontos em maio", tendo depois recuperado parcialmente até 74,1 pontos em junho, enumera Bruxelas.

Há algumas coisas "positivas", em todo o caso, ainda que "temporárias".

"O desemprego permaneceu amplamente estável na faixa de 6,2% a 6,3% da população ativa em março e abril, pois os despedimentos temporários não tiveram um impacto estatístico imediato e os esquemas públicos de trabalho de curto prazo também ajudaram a compensar o choque." A CE não o diz explicitamente, mas já elogiou várias vezes o efeito benéfico do esquema de lay-off simplificado, que irá vigorar até julho, e tem ajudado a atrasar a subida em flecha do desemprego.

Bruxelas conclui depois que "com o início da redução do confinamento em maio, a atividade económica tem vindo a aumentar lentamente, mas para muitas empresas, como companhias aéreas e hotéis, espera-se que a atividade permaneça bem abaixo do nível pré-pandemia por um período mais prolongado".

Além disso, os riscos que pendem sobre as atuais projeções são negativos "devido ao grande impacto do turismo estrangeiro, onde as incertezas no médio prazo permanecem significativas", lamenta a Comissão.

Jornalista do Dinheiro Vivo

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