América, um problema de todos

O que pode acontecer nos Estados Unidos é assustador para todos, até para alguém como Ruby Bridges Hall, a menina-coragem.

A morte de Mary foi um golpe rude. Tinham estado casados quase trinta anos, até ela partir de súbito, fulminada de coração. Nem tudo tinha sido um mar de rosas: mudaram-se para ali, em Stockbridge, Massachusetts, para que ela pudesse ser seguida no Austen Riggs Center, uma clínica psiquiátrica das proximidades. Também Norman era aí acompanhado por um psicólogo, o famoso e reputadíssimo Erik Erikson, que ensinara nas mais prestigiadas universidades - Harvard, Berkeley, Yale - e que cunhara o conceito de "crise de identidade". Erikson ficou de tal forma preocupado com a depressão do seu paciente e amigo que, temendo um gesto impensado, pediu para ficar por uns tempos com a sua pistola calibre 22 até que as coisas melhorassem. Norman diria mais tarde, meio a brincar, meio a sério, que o psicólogo nunca lhe devolvera a arma.

Mas, aos poucos, as coisas melhoraram: nunca deixou de trabalhar intensamente, de manhã à noite, como era seu timbre, e, três anos depois, casou-se de novo, com uma mulher que também se chamava Mary e que também era professora. Os últimos anos foram dos mais tranquilos da sua vida, ainda que ensombrados no final pela demência galopante e pela perda de faculdades. Publicado pelo filho no posfácio à sua autobiografia, My Adventures as an Illustrator, um dos seus últimos desenhos, feito pouco antes de morrer de enfisema pulmonar, em Novembro de 1978, é arrepiante pela lassidão do traço e pela imperfeição das formas. Rabiscos num pedaço de papel, como os dos bebés de lápis na mão. Erik Erikson, o psicólogo e confidente, que o conheceu como poucos, disse-lhe um dia a frase fundamental: era trágico que um artista que retratara, como poucos, a felicidade humana a tenha vivido tão pouco.

Norman Rockwell é, de facto, um dos maiores ilustradores da felicidade humana, porventura o maior, ou, talvez melhor, da felicidade americana, assente num modo de vida simples e frugal e em valores sólidos e perenes. São incontáveis os desenhos (mais de quatro mil!), as telas e as ilustrações de alegria pura, exaltações coloridas da ingenuidade como regra e princípio de vida. Nos seus retratos, os adultos comportam-se como crianças, na tela e fora dela, pois o realismo extremo do seu traço e a graça pueril das situações que apresenta apelam também ao lado infantil de quem observa e se deleita com a arte de Rockwell e com a familiaridade dos seus ambientes: uma onda de mexericos numa cidadezinha, um pai que se despede do filho numa estação de comboio, a mesa farta e luminosa no Dia de Acção de Graças, o regresso do G.I. a casa.

Essa era a sua América, em larga medida, pois, apesar de dizer que os Rockwells "eram distintos pela sua falta de distinção", Norman nascera numa família relativamente abastada e crescera confortavelmente do ponto de vista material. Poderia ter tido uma infância mais confortável ainda, é certo, se uma tia sua, rica e sem filhos, não tivesse deixado a fortuna inteira para a compra de Bíblias destinadas aos reclusos da Prisão Sing Sing. Mais confortável também se a personalidade depressiva da mãe não lhe tivesse ensombrado a meninice - e, como é frequente, o resto da vida adulta. Ainda assim, Norman Percival Rockwell nasceu e cresceu bem, no seio de uma família profundamente religiosa, tendo por avô paterno um retratista inglês de escasso sucesso mas de algum valor, Howard Hill, tendo cantado no coro da Catedral de St. John, the Divine, em Nova Iorque. Desde muito novo, revelou um talento extraordinário para o desenho e, numa das suas recordações de infância mais remotas e mais fundas, lembrava-se de desenhar as personagens de David Copperfield enquanto o avô lhe lia em voz alta trechos da novela pungente de Charles Dickens.

Ao contrário do que sucede a muitos dos maiores artistas, o êxito foi fácil e apareceu cedo. Aos 16 anos, Norman recebeu a primeira encomenda e, um ano depois, ilustrou o primeiro livro; aos 18, já era o director artístico da Boy's Life, a revista dos escuteiros da América; em 1916, com 22 anos, fez a sua primeira capa da The Saturday Evening Post. Nesse mesmo ano, casou-se pela primeira vez, com Irene O'Connor, de quem se separará em 1930, a década em que fixou em definitivo o seu estilo inconfundível, que, apesar de algumas flutuações e variações, manterá até à morte.

A constância é de tal forma marcada que, como observam vários comentadores da sua obra, nem sempre é fácil datar trabalhos feitos ao longo de vinte ou mais anos. Se exceptuarmos as obras com uma referência temporal óbvia, como aquelas que aludem à guerra, com destaque para a série Willie Gillis, personagem criada por Rockwell que na altura muitos julgaram existir na realidade, todas as outras se assemelham entre si, na forma e no conteúdo, no modo de abordagem, no olhar complacente sobre uma realidade que, ao longo das décadas, permanece a mesma, pois é mesma e imutável, o rosto risonho da América, promissora e intemporal.

E, no entanto, do mesmo modo como a vida de Norman Rockwell não foi tão radiosa e tão iridescente como a sua obra, também nesta última é possível desvendar aspectos mais sombrios e críticos. Rockwell, o poeta visual da americanidade, admirado mais pela sua técnica do que pela sua arte, visto como um ilustrador talentoso mas desprovido de conteúdo e de "mensagem", encarado como um desenhador conformista que trabalhava para o deleite das massas e para o gosto burguês, incapaz de transgressões e desvios ("Dalí é um irmão gémeo de Norman Rockwell raptado por ciganos quando era pequeno", disse Vladimir Nabokov), foi, como artista e como homem, mais denso e complexo do que frequentemente se julga.

Apesar de louvar a América e as suas virtudes, tinha consciência dos seus defeitos, com destaque para a questão racial e para o tratamento iníquo das minorias étnicas. Numa pintura de 1938, por exemplo, mostrou um índio tristemente espantado (humilhado?) a receber pelo correio um postal publicitário com os dizeres turísticos "See America First". O índio, perplexo, contempla-nos frontal e directamente, olhos nos olhos, como se estivesse a posar para um retrato. Quase questiona: para que outro lugar poderia ir, senão a América onde nascera? Eis uma pergunta que também deve ser feita a todos quantos, entre nós, querem enviar os negros "para a terra deles", como se Portugal não fosse também a sua terra, e nossa, de todos.

Nos alvores dos anos de 1960, Norman dera sinais de viragem, assinando obras numa linha humanista e universalista que poderíamos designar por "estilo Nações Unidas", de que é exemplo maior The Golden Rule, de 1961, de gosto mais do que duvidoso. Os indícios de mudança surgiram, aliás, um pouco antes, e a repentina morte da mulher, em 1959, bem como a saída dos filhos de casa, pela mesma altura, foram decisivas para a ruptura.

No plano profissional, assiste-se também a uma grande viragem na trajectória de Norman Rockwell. Ao fim quase 50 anos de colaboração, deixou de trabalhar para a The Saturday Evening Post, onde teve a sua época dourada entre meados dos anos de 1930 - fala-se em 1935 como o ponto de partida do seu apogeu - e finais da década de 1950. Já se buscou uma explicação ideológica para a saída de Rockwell da Post, onde criara nada menos do que 318 capas (há quem refira 321), cada qual vista por cerca de quatro a cinco milhões de pessoas por semana.

Segundo essa interpretação, o pintor-ilustrador estaria insatisfeito pelo facto de os editores da revista o obrigarem a retratar os negros numa atitude subserviente, tese que é infirmada por uma razão simples, mas decisiva: ao longo de quase cinco décadas a trabalhar na revista, praticamente nunca desenhou um negro. Como revelaria o próprio Rockwell, numa entrevista de 1971, "George Horace Lorimer [o editor], que era um homem muito liberal, disse-me para não retratar negros, salvo como criados".

A grande ruptura parece ter sido motivada pela circunstância de a nova mulher de Norman, Mary L. "Molly" Punderston, ser uma professora de Inglês reformada de profundas convicções liberais. E também Erik Erikson, o psiquiatra que o acompanhava nas suas cíclicas depressões, era um empedernido liberal e, talvez mais importante do que isso, uma espécie de figura tutelar para Robert Coles, um jovem psiquiatra que, desde Março de 1963, começou a publicar nas páginas da The Atlantic Monthly uma série de artigos sobre os efeitos devastadores da discriminação racial e dos preconceitos na autoestima das crianças.

Formado magna cum laude em Literatura Inglesa pela Universidade de Harvard, Coles licenciou-se depois em Medicina por Columbia e, após ter feito a sua especialização em Chicago e em Boston, cumpriu o serviço militar como chefe dos serviços de neuropsiquiatria da base aérea de Biloxi, no Mississippi, o que o levou a viajar várias vezes até Nova Orleães. Foi então que presenciou de perto os violentos conflitos raciais que se desenrolavam na região, e que tiveram por detonador a legislação federal que impunha o ensino misto de crianças de todas as etnias.

Com apoio das autoridades locais, muitos pais de etnia branca (ou caucasiana, se preferirmos) recusavam enviar os filhos para a escola se lá estivessem crianças negras. Uma das escolas ficou vazia, só tinha uma aluna negra, uma menina pequena, que todos os dias, sob escolta policial, se dirigia às aulas por entre a multidão enraivecida que a insultava e ameaçava de morte. Robert Coles, que já então se especializara em psiquiatria infantil, ofereceu-se para lhe dar apoio e todas as semanas ia a sua casa para conversar com ela.

Daí resultou um livro marcante, The Desegregation of Southern Schools: A Psychiatric Study, editado em 1963 pela Anti-Defamation League. E daí resultou também, muito provavelmente, um quadro de Norman Rockwell, The Problem We All Live With, óleo datado de 1963-1964, com 91 cm x 174 cm. Ao que tudo indica, foi através de Robert Coles e por via de Erik Erikson, o psiquiatra que lhe guardara a pistola calibre 22, com receio de que Rockwell se suicidasse, que este tomou conhecimento da história daquela menina negra, cujo nome na altura foi omitido, por razões de segurança.

Só muitos anos depois, em 1995, quando Robert Coles publicou um livro infantil intitulado The Story of Ruby Bridges, é que se conheceu a identidade verdadeira da menina. Redescoberta, foi aclamada: em 2001, Bill Clinton atribuiu-lhe a Presidential Citizens Medal, um ano antes Loreena McKennitt tinha feito uma música em sua honra, Ruby's Shoes. A Disney, sempre atenta, produziu em 1998 um telefilme intitulado Ruby Bridges. A Real American Hero, que contou com a participação da própria Ruby Bridges e de Robert Coles. Em Outubro de 2006, foi inaugurada uma escola com o seu nome, fraco consolo para o facto de, no ano anterior, e como sucedeu a muitas famílias negras e pobres de Nova Orleães, ter perdido a sua casa e todos os seus haveres nas inundações provocadas pelo furacão Katrina. Em Julho de 2011, Ruby foi recebida em Washington pelo presidente, Barack Obama, que decidiu expor na Casa Branca, durante todo o Verão desse ano, o quadro de Norman Rockwell.

The Problem We All Live With, que à letra poderíamos traduzir por "o problema com que todos vivemos" ou, se quisermos, "o problema de todos", tem esse nome, ao que parece, por ter surgido pela primeira vez nas páginas de um número especial da Look em Janeiro de 1964, cujo tema era "How We Live". A revista pretendia mostrar vários modos de vida nos Estados Unidos e, com a sua tela, Rockwell ilustrava um problema que a todos dizia respeito. Que ele tivesse escolhido o tema do racismo e, mais ainda, que o tivesse abordado de uma forma tão realista, e tão ligada a um facto recente, muito vivo na memória de todos, era algo surpreendente. Tão ou mais surpreendente quanto a sua obra era admirada, acima de tudo, pelos sectores mais conservadores e retrógrados do país, que adoravam ver-se ao espelho naqueles retratos de uma América feliz - de que os negros estavam praticamente ausentes ou, quando apareciam, faziam-no nas vestes de serviçais ou criados.

Nos inícios da década de 1960, Norman Rockwell faz um périplo pelo mundo, a expensas da Look. Aquele que outrora pintara o actor Bob Hope e todos os presidentes norte-americanos (nas suas memórias, são deliciosas as descrições de Nixon ou de um jantar na Casa Branca oferecido por Lyndon Johnson) retratava agora Nehru e Nasser, ambos em 1963, ou o filósofo subversivo e esquerdista Bertrand Russell (para a Ramparts, em 1967). Rockwell esteve, inclusivamente, na União Soviética, experiência a partir da qual fez um desastroso retrato de uma menina russa, Portrait of a Russian Child, de 1964, e Russian Schoolroom, de 1967, uma composição sobre uma sala de aula ordeira e atenta, com um busto de Lenine em cima da mesa da professora.

Tal não significou uma adesão ao marxismo nem uma atracção fatal pela vida soviética. Mas foi, ainda assim, uma espantosa evolução no seu percurso, em larga medida motivada pela história de uma menina negra, que, com 6 anos, se dirigiu solitariamente para a escola, escoltada por guardas federais, entre impropérios e apupos. Durante um ano inteiro, foi a única aluna da escola, com uma professora notável, Barbara Henry, uma voluntária vinda de longe, de Boston, no Massachusetts, pois na sua terra, Nova Orleães, ninguém se atreveu a dar-lhe aulas.

Professora e aluna não faltaram um dia sequer. Na rua, ameaçavam-na, diziam-lhe que a iam matar, envenenar, e, a conselho dos agentes federais, só podia comer o que trouxesse de casa. Por causa da ousadia, o pai foi despedido e a família só pôde sobreviver graças à ajuda de vizinhos e de amigos. Os donos da mercearia onde os seus pais iam às compras disseram-lhes que não voltassem a aparecer por lá. Nos protestos dos racistas brancos, uma mulher, mãe de filhos, foi ao cúmulo perverso de, à porta da escola, apavorar a menina com uma boneca vestida de negro, colocada dentro de um caixão. Ainda hoje, passadas tantas décadas, Ruby Bridges diz que isso a atemorizou muito mais do que os insultos horríveis que ouvia enquanto caminhava rumo à escola ou de regresso a casa.

Tinha sido escolhida para uma missão difícil: dos 135 alunos negros que concorreram aos testes para estudar em escolas integradas, só seis tinham sido apurados. Os testes eram propositadamente exigentes, feitos com o intuito manhoso de exibir reprovações em massa, para mostrar que os negros não tinham aptidões para estudar ao lado dos brancos (nunca se fizeram testes aos brancos, como é evidente). Ruby Bridges passou, foi das poucas a ter êxito. Dos seis alunos, dois optaram por permanecer numa escola segregada, só para negros, e outros três foram transferidos em conjunto para uma nova escola. Ruby Bridges ficou só, a única criança negra inscrita na William Frantz Elementary School.

Norman Rockwell retrata-a nessa solidão, ladeada por quatro guardas federais enviados pelo presidente Eisenhower. Enquanto se dirigia para a escola, ou depois para casa, rezava, rezava muito, a conselho da mãe, para esconjurar o medo e os seus fantasmas. Um antigo membro dos U.S. Marshals, destacado para a proteger, recordou-a nesses dias de brasa: "Nunca chorou, nunca choramingou. Seguindo o seu caminho, marchava em frente como um pequeno soldado. Tínhamos todos muito orgulho dela."

Ainda hoje vive em Nova Orleães, apesar dos desastres do Katrina. Durante quinze anos, trabalhou numa agência de viagens. Casou-se com um agente imobiliário, teve quatro filhos, um dos quais foi assassinado. Trabalhou como voluntária na sua antiga escola, frequentada décadas depois pelas sobrinhas. Criou uma fundação com o seu nome para combater o racismo e a discriminação. Em 2017, esteve em Lisboa, enviuvou pouco depois, e ainda não perdeu a esperança de, num futuro próximo, estabelecer um programa de intercâmbio de estudantes norte-americanos e portugueses. Falei há dias com ela, está assustada com o que pode acontecer à América, em qualquer dos cenários pós-eleitorais. Nunca foi da sua índole assustar-se com o que quer que fosse. Mas o que pode acontecer à América é assustador para todos, até para alguém como Ruby Bridges Hall, a menina-coragem.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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