O apelo raro da rainha no dia em que Boris Johnson foi internado

Em 68 anos de reinado, foi a quinta vez que a rainha Isabel II se dirigiu aos seus cidadãos através de uma transmissão televisiva. Mostrando-se certa de que o país e o mundo vão ultrapassar a pandemia, a mensagem foi de esperança, num domingo em que o primeiro-ministro britânico foi hospitalizado para mais testes.

Não poucas vezes a atual pandemia foi comparada a um cenário de guerra por vários líderes mundiais. E nem a rainha Isabel II foge à comparação. Em 1940, ainda princesa, lembra-se, dirigiu uma comunicação de rádio ao lado da sua irmã, a princesa Margaret, em plena Segunda Guerra Mundial, numa mensagem de esperança para todas as crianças deslocadas das suas famílias no campo, enquanto a cidade era bombardeada. Hoje não há bombas a cair sobre o céu do Reino Unido e "embora já tenhamos enfrentado desafios antes, este é diferente".

"Desta vez, juntamo-nos a todas as nações do mundo num esforço comum, usando os grandes avanços da ciência e a nossa compaixão instintiva para curar", disse, numa transmissão televisiva rara ao país, neste domingo. No mesmo dia em que o primeiro-ministro britânico, infetado com covid-19, foi hospitalizado para mais testes.

Surgiu vestida de verde e a mensagem foi, mais uma vez, de esperança. O Reino Unido é atualmente o oitavo país com mais infetados em todo o mundo e o quarto com mais mortes registadas - neste domingo, totalizou 48 407 casos positivos e 4934 óbitos. Não alheia às estatísticas, a mensagem da monarca, preparada juntamente com o governo, pretendeu expressar confiança e solidariedade ao país, evocando o espírito de coesão nacional numa altura em que as autoridades exigem aos britânicos o respeito pelas regras de confinamento para evitar a propagação do vírus. "Juntos, estamos a enfrentar esta doença e quero garantir que, se permanecermos unidos e resolutos, vamos superá-la", disse.

Isabel II lembrou a dor de muitos ao estarem longe dos seus, tal como viu acontecer durante a Segunda Guerra Mundial. Por isso, não deixou de recordar uma célebre canção, que serviu de hino em plena guerra: We'll Meet Again ("Voltaremos a encontrar-nos"), da britânica Vera Lynn. "Hoje, mais uma vez, muitos sentirão uma sensação dolorosa de separação dos seus entes queridos. Mas hoje, como naquela altura, sabemos, no fundo, que é a coisa certa a fazer", frisou. "Voltaremos a encontrar-nos."

Certa de que os britânicos "vencerão" o covid-19, agradeceu também aos cidadãos "que ficam em casa e protegem, assim, os mais vulneráveis" do país. A rainha aproveitou para "agradecer a todos os que estão na linha de frente" dos serviços de saúde pública e "a todo o pessoal sanitário" em geral.

Além do tradicional discurso de Natal, esta foi a quinta vez, em 68 anos de reinado, que a monarca recorreu à televisão para se dirigir aos cidadãos do Reino Unido e dos 53 países membros independentes que integram a Commonwealth. Na primeira vez, decorria a Guerra no Iraque, em 1991. Nas duas vezes seguintes, estava de luto, nas vésperas do funeral da princesa Diana, em 1997, e depois da sua mãe, em 2002. A mais recente tinha sido em 2012, na celebração dos 60 anos de reinado.

De acordo com a BBC, a mensagem da rainha foi gravada antecipadamente por um operador de câmara apenas, vestido com equipamento de proteção, enquanto a restante equipa técnica permaneceu noutra sala.

Primeiro-ministro britânico foi internado

A mensagem da rainha surgiu apenas umas horas antes de ser noticiado o internamento do primeiro-ministro britânico, que já estava em quarentena há dez dias após testar positivo. Neste domingo, deu entrada num hospital em Londres para ser testado, devido a febres altas e sintomas persistentes de covid-19.

Um porta-voz de Downing Street, citado pelo The Guardian , disse que Boris Johnson foi hospitalizado "a conselho do seu médico" e "para exames". Esclarece que "esta é uma medida de precaução, pois o primeiro-ministro continua a apresentar sintomas persistentes de coronavírus", como febre. Ainda de acordo com a BBC, deverá ficar internado no hospital durante a noite. Por isso, a reunião desta segunda-feira de discussão sobre a pandemia do governo, que acontece diariamente, deverá ser presidida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Dominic Raab.

A notícia chegou um dia depois de a noiva do primeiro-ministro britânico, Carrie Symonds, que está grávida, ter anunciado que também passou a sentir sintomas.

No dia 27 de março, o líder dos Conservadores anunciou na sua conta de Twitter estar infetado com covid-19. "Nas últimas 24 horas desenvolvi ligeiros sintomas e testei positivo para coronavírus", escreveu, revelando que iria ficar em isolamento, mas que não abdicaria do seu papel. "Vou continuar a liderar o governo por videoconferência enquanto lutamos contra este vírus", lê-se.

Apesar de as medidas preventivas terem sido reforçadas nos últimos dias, durante algum tempo a estratégia do governo britânico para o combate à pandemia era pouco restritiva, confinando ao isolamento apenas os maiores grupos de risco. O plano rapidamente se inverteu e a mensagem de Boris Johnson também, com o governante a pedir a todos os cidadãos que fiquem em casa, depois de ter ordenado o encerramento de escolas e outros serviços públicos. Mesmo em isolamento por ter sido contagiado, insistiu nos apelos às pessoas para ficarem em casa e, numa entrevista à BBC, o ministro da Saúde, Matt Hancock, avisou que as medidas poderão ser reforçadas para evitar abusos.

Também o príncipe Carlos, filho da rainha e primeiro herdeiro na linha de sucessão, está resguardado depois de há duas semanas ter contraído o novo coronavírus.


* Com AFP

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