Annie Londonderry, a ciclista do século XIX que deu a volta ao mundo

De 1894 a 1895 o mundo assistiu ao feito de uma norte-americana, nascida na Letónia, mãe de 3 filhos e com aspirações no jornalismo. Annie Londonderry fez a volta ao mundo em bicicleta. Com boa dose de criatividade.

A 4 de maio de 1885, uma multidão reunida em Liverpool, Inglaterra, exultou com a partida de um ciclista britânico rumo à Europa continental. Thomas Stevens, após percorrer seis mil quilómetros de caminho nos Estados Unidos, continuava a sua viagem de dois anos em redor do planeta. Nos meses subsequentes, França, Alemanha, Áustria, Hungria, Turquia, Iraque, Irão, Índia, China, Japão, conheceram a pedalada do homem que completou em dois anos e meio, de 1884 a 1886, a volta ao mundo sobre a sua bicicleta, uma desconfortável Penny-Farthing, de enorme roda dianteira. O mesmo Stevens que em 1889 cumpria a promessa de encontrar o galês Henry Morton Stanley, explorador do continente africano, há meses sem enviar notícias para o reino.

Na época, o mundo rendia-se à liberdade proporcionada pela bicicleta. Com o século XIX, a humanidade experimentou uma nova forma de locomoção: pedalava, facto que transformou sociedades, urbanismo e a condição de milhões de seres humanos. Uma conquista que também se fez no feminino. Em 1896, a sufragista norte-americana Susan. B. Anthony dizia ao jornal New York World a propósito da bicicleta: "Julgo que fez mais para emancipar as mulheres do que qualquer outra coisa no mundo."

Susan era citada nas páginas do jornal que, um ano antes, publicou uma extensa reportagem sobre uma outra mulher. A peça The Most Extraordinary Journey Ever Undertaken by a Woman (A Jornada Mais Extraordinária Empreendida por uma Mulher) tinha como mote um périplo em torno do globo terrestre. Desta feita não relatava as façanhas no masculino, antes as de uma norte-americana, nascida em Riga, na Letónia, em 1870. Annie Cohen Kopchovsky imigrou com os seus pais para os Estados Unidos em 1875. Aí, tornou-se cidadã americana aos cinco anos. Mas tarde, aspirou ser jornalista, faz-se promotora de marcas, perdeu os pais em 1887, casou com um judeu ortodoxo, teve três filhos e ganhou a imortalidade ao conquistar o título de primeira mulher a completar uma volta ao mundo em bicicleta.

Nos muitos livros que lhe foram dedicados (entre eles a obra de 2007 assinada pelo sobrinho-bisneto de Londonderry, o jornalista Peter Zheutlin: Around te World in Two Wheels - Volta ao Mundo em Duas Rodas), Annie não é tratada pelo apelido de casamento, Kopchovsky, antes conhecida como Londonderry. Designação que resume outra ligação da ciclista amadora, a do patrocínio que lhe garantiu o arranque para a sua volta mundial. Montada numa bicicleta cedida pelo fabricante de Boston, Albert Pope, a inexperiente ciclista Annie partiu, a 27 de junho de 1894, do estado de Massachusetts, com o apoio de cem dólares da marca de água Londonderry Lithia. Em casa, Annie deixou três filhos, todos com menos de seis anos. Na bagagem, a ciclista levou uma muda de roupa e um revólver. Londonderry pedalou de saia longa e espartilho. Pesava menos de 50 quilos, tinha de altura 1,60 metros e respondia ao desafio de completar o tour mundial em 15 meses. Assim o fizesse, teria a recompensa de alguns milhares de dólares.

A aposta entre dois endinheirados empresários de Boston não estipulava uma distância mínima a ser percorrida sobre duas rodas. Facto que permitiu à jovem de 24 anos completar longas extensões do percurso por outros meios que não a bicicleta, como o comboio e o navio a vapor. Certo é que a 24 de novembro de 1894, Annie Londonderry embarcou no navio SS La Touraine, no porto de Nova Iorque, depois de uma viagem nos trilhos norte-americanos. Entretanto, Londonderry trocou de bicicleta, para um modelo mais leve, vestiu calças e aproveitou os abrigos para viajantes proporcionados pela rede ferroviária em terras de Tio Sam.

Annie chegou a solo francês no início de dezembro de 1894, pedalando da capital parisiense até ao sul, a Marselha. Daí, embarcou para nova jornada marítima, desta feita no Mediterrâneo, rumo a África, depois Ásia. Em Alexandria (Egipto), Colombo (Sri Lanka), Singapura, Saigão (atual Ho Chi Minh, no Vietname), Xangai (China), Nagasáqui (Japão), a jovem ciclista pedalou, cumprindo em todos os portos alguns quilómetros de estrada. Escalas aproveitadas por Londonderry para vender lembranças, exibir ao mundo as maravilhas do recém-criado veículo de duas rodas e narrar as suas aventuras - mais tarde também nos Estados Unidos. Relatos onde cabia dose generosa de criatividade como o destacou o seu sobrinho-bisneto no livro já citado. Não raro, a ciclista enveredou pela narrativa fantasista: caçara tigres em Bengala, fora ferida num ombro na linha da frente da Primeira Guerra Sino-Japonesa, estudara medicina e advocacia.

A 23 de março de 1895, Annie regressou por mar ao país que a acolhera 20 anos antes. Pedalou de Los Angeles para o Arizona, daí para o Novo México para chegar a El Paso, no Texas. A aventureira atravessou, entre outros, os estados do Nebrasca, Iowa, terminando o seu périplo a 15 de setembro de 1895 em Chicago, no estado do Illinois. Londonderry corria há 15 meses, estava exausta, com um pulso lesionado. Saudada à chegada, a ciclista também foi alvo de críticas: consideráveis troços da viagem não haviam sido percorridos de bicicleta. Annie Londonderry morreria em 1947, longe da ribalta e do ciclismo.

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