Costa com a farda de PM. Pressão à esquerda por conta do aparelho

Ana Catarina Mendes, Duarte Cordeiro, Carlos César. Em todos estes discursos na <em>rentrée </em>do PS a nota dominante foi pressionar a esquerda. Costa ocupou-se com o país
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António Costa nem precisou de fazer do seu discurso de rentrée, nesta segunda-feira, em Coimbra, uma espécie de samba de uma nota só a pôr novamente todas as fichas na pressão sobre os partidos à esquerda do PS para uma geringonça 2.

O que tinha dito sábado ao Expresso já foi só por si suficiente. Assim, Costa preferiu, mesmo sendo o evento partidário - uma conferência intitulada "Recuperar Portugal" -, despir a pele de chefe partidário e usar a farda de primeiro-ministro para uma longa intervenção explicando o que devem ser as prioridades governativas a curto, médio e longo prazos. Levou até uma apresentação em PowerPoint explicativa que foi sendo projetada nos ecrãs gigantes do grande auditório do Convento de São Francisco à medida que ia discursando.

Tirando esta, a única nota relevante de política pura e dura de Costa no seu discurso foi para desvalorizar totalmente a importância para o PS das próximas eleições presidenciais. Para o chefe do PS, só são eleições da "maior importância" para o partido as regionais dos Açores (25 de outubro) e as autárquicas (outubro de 2021), nas quais, aliás, segundo reafirmou, o PS mantém o objetivo de ser o partido com mais presidentes de câmara e de juntas de freguesia.

Mesmo assim, a rematar o discurso, lá recordou que se está a esforçar para que haja uma nova geringonça: "Estamos a trabalhar para criar as condições políticas para que, no horizonte da legislatura, haja a estabilidade necessária, tendo em vista aprovar, lançar e executar todos esses programas. Esses programas não são programas deste Governo, transcendem esta legislatura, e alguns transcendem mesmo a legislatura seguinte. É com todos que contamos."

As despesas da pressão direta sobre os partidos à esquerda do PS ficaram assim por conta de outros dirigentes.

Logo na abertura da conferência, Ana Catarina Mendes, líder parlamentar, dificilmente poderia ter sido mais clara.

"É fundamental garantir, neste tempo de dificuldades, a estabilidade política necessária para dar resposta aos problemas que teremos de enfrentar. Todos temos essa responsabilidade", disse, reafirmando ao mesmo tempo a rejeição do PS às ideias de "arco da governação" (a ideia de só o PS, PSD e CDS-PP podem ter responsabilidades de poder) e de bloco central (acordo PS+PSD).

"É à esquerda que queremos continuar a liderar a solução política de que Portugal precisa. Para isso, contamos, naturalmente, com o sentido de responsabilidade dos demais partidos que connosco fazem a maioria de esquerda de que o Parlamento hoje dispõe, respeitando sempre as diferenças de cada um, mas pondo sempre o interesse de Portugal acima de qualquer agenda ou taticismo partidário", prosseguiu.

Advertindo, pelo meio, que "o tempo não está para agendas irrealistas feitas de pressões, chantagens ou olhares para o umbigo", sendo antes "tempo de unir esforços para prosseguir uma agenda social que responda às urgências e necessidades dos portugueses".

"E não haja dúvidas de que a receita que a direita tem para oferecer é exclusivamente feita de cortes e de austeridade. Em 2020, continuamos a confiar que o país precisa de uma agenda de progressista. E é, sobretudo, em tempos de dificuldades que a esquerda tem de dizer presente. Toda a esquerda", concluiu.

Depois foi a vez de Duarte Cordeiro, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares: "Queremos que a resposta à crise seja uma resposta de esquerda - queremos preservar rendimentos e direitos, queremos mais investimento público, queremos evitar as respostas de austeridade passada", disse.

Acrescentando: "Queremos evitar o sofrimento desnecessário que o país passou. E é preservando o rendimento e reforçando o investimento que conseguiremos ter uma recuperação mais rápida e mais forte. Temos orçamentos para aprovar, planos de investimento para concluir, mas sabemos que temos de seguir o caminho que temos feito. Sabemos que é à esquerda que constituiremos as pontes necessárias, com a mesma vontade com que fizemos no passado."

E a seguir sucederam-se as vozes sempre enfatizando a necessidade de "estabilidade" e de "consensos". Pedro Siza Vieira, ministro de Estado e da Economia, sintetizaria: "É absolutamente indispensável que o Governo possa ser um farol de estabilidade."

Coube ao presidente do PS, Carlos César, encerrar o encontro - e aí a pressão sobre os partidos à esquerda do PS escalou para uma nova fase: ou há um acordo ou é o caos.

César não se coibiu de dizer que ao BE, ao PCP e ao PEV que até poderão ser eleitoralmente penalizados se não forem a jogo com o PS: "Os portugueses terão razões para julgar com severidade quem virou costas ao futuro."

A seguir, advertiu-os de que uma recusa em entendimentos permanentes poderá ter até consequências económicas porque "não se pode acrescentar à incerteza económica incerteza política", e se esse acordo não existir - acrescentou -, "as condições para uma recuperação sólida e rápida estarão prejudicadas".

É certo - garantiu - que "os portugueses reclamam essa manifestação de confiança prolongada", para que se evite uma situação "incerta" assente em "adiamentos" e "sobressaltos". E embora sendo obrigação do PS a de "reclamar o contributo em geral de todos os partidos", a verdade é que a "opção inequívoca" do partido "é a de trabalhar com os parceiros estratégicos" que foram "essenciais para os progressos" registados até à pandemia

Impõe-se, portanto, uma "vontade política antes para compromissos depois". E isto porque, perante o que está em causa, "o Governo não pode depender de humores nacionais" nem estar sujeito a "calculismos eleitoralistas de ocasião" - sendo certo que o acordo das esquerdas importa para aprovar Orçamentos do Estado mas também "outras aprovações estratégicas".

Dito de outra forma: "Não vejo chantagens ou arrogâncias nestes apelos. Vejo humildade e uma grande consciência do interesse nacional", além de que "é claro que não se podem fazer acordos sobre o que sempre se discordou".

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