Caso Tancos: Judiciária aperta o cerco aos suspeitos do roubo

Dezassete meses depois do furto do material de guerra dos paióis do Exército, a investigação tem mais informações a reforçar as suspeitas iniciais de envolvimento de uma organização criminosa, ligada ao tráfico de armas e a atividades terroristas.

A Polícia Judiciária (PJ) está a apertar o cerco aos suspeitos do roubo do material de guerra de Tancos, conhecido a 29 de junho de 2017 - confirmando as suspeitas que foram indicadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR) logo no início do processo: "Suspeitas da prática dos crimes de associação criminosa, tráfico de armas internacional e terrorismo."

O último passo dado pelos procuradores do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), titulares do inquérito, foi constituírem um novo arguido. O suspeito, que terá sido quem avisou as autoridades sobre a possibilidade de um roubo em instalações militares, dois meses antes do assalto a Tancos, foi interrogado pelos magistrados e pelos inspetores da Unidade Nacional de Contraterrorismo, da PJ há cerca de duas semanas.

De acordo com fontes próximas da investigação, o testemunho deste suspeito - conhecido por Fechaduras por ser perito em abrir fechaduras e cadeados - revelou-se "muito relevante", principalmente porque deu novas pistas para reforçar a tese que tem sido a linha de investigação, assente na suspeita de que a encomenda do roubo terá vindo de uma organização criminosa ligada ao tráfico de armas e eventualmente a atividades terroristas.

O facto de Fechaduras ter sido constituído arguido mas não ter ficado preso é sinal, de acordo com o que explicaram ao DN essas mesmas fontes, de que o seu depoimento ajudou a investigação. Este arguido não terá participado no roubo, tendo apenas indicado o tipo de material necessário para arrombar os cadeados dos paióis.

Foram furtados munições para pistolas, granadas, explosivos e lança-foguetes, dos quais parte ainda não foi recuperada.

Ex-fuzileiro pressionado

Um dos suspeitos do roubo mais pressionado neste momento é um dos detidos no âmbito do inquérito à recuperação do material furtado, que a Polícia Judiciária Militar (PJM) apreendeu perto da Chamusca a 18 de outubro. O ex-fuzileiro está indiciado pelo MP por associação criminosa, tráfico de armas e tráfico de droga e terá sido quem combinou com os militares da PJM e da GNR a encenação da entrega do material, que tinha guardado na casa de uma avó, na zona de Tomar.

Caso venham a confirmar-se as suspeitas do MP, sobre o possível envolvimento de uma organização criminosa ligada às redes do tráfico de armas e terrorismo - um tipo de crimes cada vez mais inter-relacionado no mundo da criminalidade -, este arguido pode vir a sofrer uma das mais pesadas penas, com um mínimo de 20 anos, de acordo com a moldura penal prevista.

Este arguido terá participado diretamente no assalto, juntamente com outros suspeitos que também já estão identificados pelo MP e pela PJ com várias provas recolhidas. São conhecidos no meio policial pelas suas ligações ao tráfico internacional de armas e de droga.

Foi já depois da inquirição ao novo arguido que a PGR anunciou que o DCIAP também ia dirigir a investigação à recuperação das armas, cujo inquérito estava no Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa. O DCIAP é o departamento do MP que investiga a criminalidade mais violenta e grave e a decisão da PGR de juntar aqui os dois inquéritos (o do roubo e o da encenação da entrega do material) demonstra que estão interligados e têm suspeitos comuns.

Os dois inquéritos estão agora juntos num só, com um total de dez arguidos, entre os quais o mais recente, Fechaduras. Os outros nove, em resultado da Operação Húbris, que resultou da investigação à recuperação do material, são o ex-fuzileiro e oito militares da GNR e da PJM, entre os quais o ex-diretor desta polícia, coronel Luís Vieira, o único arguido em prisão preventiva a cumprir a medida de coação na cadeia. Outro dos arguidos em prisão preventiva, mas com pulseira eletrónica, é o major Vasco Brazão, que coordenava a equipa de investigação criminal da PJM.

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