Trump ameaça cortar no gasóleo à Europa e há já quem fale em "choque de refinação"
Os Estados Unidos da América (EUA) são um dos maiores produtores do mundo de gasóleo (produzem mais do que consomem, segundo fontes oficiais), mas, como estão a enfrentar uma enorme pressão da inflação e um agravamento do poder de compra interno, quando falta apenas um mês para as eleições intercalares, Donald Trump decidiu lançar um novo ataque: diz estar a ponderar introduzir "restrições" ou "quotas" às exportações de gasóleo norte-americano para fazer descer os preços domésticos e tentar reduzir o descontentamento de muitos americanos e eleitores.
A primeira grande ameaça surgiu há duas semanas, mas Trump voltou a reeditar e a amplificar a ideia nos últimos dias, dizendo aos países europeus que comecem a "libertar reservas" de gasóleo para fazer o preço descer (os preços dos produtos refinados, como o diesel ou o gás, também são definidos nos mercados internacionais). Caso contrário, avançaria com a proibição das exportações dos EUA para a Europa e outros países.
Na quarta-feira (30 de setembro), o presidente norte-americano, Donald Trump, disse que fala "todos os dias" sobre a proibição das exportações de gasóleo, uma medida mais radicar para a conter a subida dos preços da energia, sobretudo internamente.
Trump disse que tal proibição focada nas exportações de produtos refinados "teria um impacto negativo nos preços da gasolina", mas "poderia reduzir os custos do gasóleo".
Esta quinta-feira (1 de outubro), Donald Trump voltou ao assunto. Num encontro em Dallas, disse que estava a considerar "pedir" aos europeus que usem as suas reservas estratégicas de gasóleo para baixar os preços internacionais. "Podemos fazer isso. Eles têm gasóleo".
Antes, o seu secretário de Estado do Tesouro, Scott Bessent, escreveu na sua conta da rede social X (antigo Twitter) que "os nossos parceiros europeus deveriam acelerar a colocação em prática dos seus compromissos existentes e disponibilizar imediatamente volumes adicionais para remediar as atuais perturbações", frisando ainda que "os agricultores, os transportadores rodoviários e as empresas americanas não deveriam ter de suportar sozinhos o peso de uma escassez mundial de gasóleo".
Gasóleo, o elo mais fraco
De facto, o gasóleo parece ser o ponto fraco. As reservas de produtos refinados nos EUA estão abaixo da faixa normal dos últimos cinco anos desde abril, e a Agência Internacional da Energia prevê que fiquem abaixo do mínimo até ao fim de 2026 e durante quase todo o ano de 2027. Além disso, as refinarias já estão perto do seu débito máximo e terão pouca folga para absorver outro choque de oferta, donde o choque de refinação é uma possibilidade muito elevada.
Recentemente, Mike Wirth, presidente executivo da Chevron, uma das maiores petrolíferas dos EUA e do mundo, referiu que a crise de combustíveis "chegou" e que os mecanismos que amorteciam o preço e a oferta já estão largamente esgotados. Tejvan Pettinger, professor de Economia da Universidade de Oxford, escreveu no seu blogue que esta nova tensão já não é um choque petrolífero, mas antes um "choque de refinação" ou "choque de refinados", neste caso ainda muito concentrado no gasóleo.
Choque em Portugal seria via preços, não pela rutura de importações
Na cabeça de Trump está a ideia de que travar as exportações de diesel para fora dos EUA ajudaria a suavizar os preços domésticos norte-americanos durante algum tempo, mas faria disparar os preços globais, penalizando muito outras regiões do globo.
Na Europa, e também em Portugal, que é tomador de preços (mesmo produzindo gasóleo na única refinaria do país, em Sines), o choque seria imediato por via do preço, que pode disparar no caso do diesel.
Mas há países, como França, Reino Unido e Espanha, que estão de certa forma encurralados com esta ameaça: além de tomadores de preços, principalmente na bolsa de Roterdão, são clientes diretos dos EUA, comprando ao parceiro americano entre 20% do total importado (caso de Espanha) e 36% (França).
"Neste momento, há certamente escassez"
Javier Blas foi durante muitos anos jornalista internacional de matérias-primas, mas atualmente escreve livros sobre o tema e é um dos maiores especialistas mundiais nestas matérias-primas. Citado pela BBC, o colunista de energia da Bloomberg avisa que a pressão de Washington está a ser "muito intensa". "Os EUA precisavam de uma contrapartida e criaram-na", afirmou, referindo-se à ideia ventilada por Donald Trump de que está a considerar proibir as exportações de gasóleo dos EUA.
"Neste momento, há certamente escassez", considera Blas. Alerta, por isso, que a situação pode piorar "muito" se os EUA avançarem com uma medida daquele calibre.
Em todo o caso, a Europa deve agir, e isso pode passar mesmo por libertar reservas estratégicas assim que se aperceba de que Trump está a falar a sério desta vez.
Questionado sobre a percentagem das suas reservas que seria "sensata" os países europeus libertarem, Blas disse que a Europa não deve libertar no mercado mais de "um terço". Este movimento ajudará a travar os preços, mas também a combater alguns constrangimentos de oferta de diesel que, de facto, já se começam a notar.
A "escassez" referida pelo perito não se deve apenas ao atual conflito no Médio Oriente, que originou danos em refinarias de vários países do Golfo Pérsico (onde a capacidade de produção de diesel está muito concentrada), na sequência de retaliações do Irão contra aquilo a que Teerão chamou "interesses" ou "aliados" dos EUA.
Europa encurralada por duas guerras e falta de capacidade de refinação de diesel
Além deste fator crítico, a falta de gasóleo pode ser real para alguns países porque, antes da guerra de 2026, já vinha a ser "exacerbada" desde 2022, com as sanções às exportações da Rússia, com a própria guerra e com os ataques da Ucrânia às refinarias russas, como forma de reduzir uma das grandes fontes de financiamento do esforço militar do regime de Moscovo.
Blas avisa, no entanto, que, se a Europa decidir libertar "mais de metade" das suas reservas atuais em resposta a esta nova ameaça de Washington, isso deixaria os países "muito vulneráveis" a novos conflitos militares, numa altura da História em que há condições para que várias regiões do mundo se envolvam em conflitos.
Veja-se o caso da escalada de tensão entre a Rússia e alguns vizinhos da UE, como a Polónia e a Lituânia, por causa do enclave russo de Kaliningrado.
Segundo a consultora Kpler, cerca de um terço das importações de gasóleo da Europa provém de fora do espaço da União Europeia.
Os EUA são o grande fornecedor europeu, além de serem o maior produtor mundial de gasóleo, daí a ameaça de Trump assumir contornos tão dramáticos. Este ano, os EUA forneceram à Europa cerca de 180 mil barris por dia (b/d) dos 580 mil b/d de gasóleo que a UE importa de fora, ou seja, 32% do total. E a Europa está mais vulnerável agora do que dantes: em 2025, a quota dos EUA no gasóleo rondava os 17%. Portanto, a dependência europeia face aos EUA quase duplicou.
No Norte da Europa, a dependência é ainda maior, muito por causa do Reino Unido. Os EUA fornecem cerca de 200 mil dos 350 mil b/d ao Norte da Europa, ou seja, 57% do total importado em gasóleo, contra 37% no ano passado.
Olhando para o que está a acontecer este ano, o cenário também preocupa.
Metade do diesel importado vem dos EUA
A Comissão Europeia referiu que, em agosto, cerca de metade das importações de gasóleo da UE vieram dos EUA.
Segundo a consultora Vortexa, os EUA passaram a ser o principal fornecedor externo da Europa, com cerca de metade das importações marítimas de gasóleo nesse mês.
O consumo europeu de gasóleo ronda os cinco milhões de b/d, e as importações representam só 10% a 15% desse total. Mas têm um papel desproporcionado na formação do preço, porque são o fornecimento marginal: quem importa define o preço a que se fecha o equilíbrio.
A dependência europeia face ao gasóleo norte-americano (direta, por razões de quantidade, ou indireta, por via dos preços internacionais) cresceu nos últimos quatro anos.
O fluxo que vinha do Médio Oriente colapsou com a guerra iniciada pelos EUA e por Israel com o ataque ao Irão, no final de fevereiro de 2026.
Antes da guerra, a região do Médio Oriente era a maior fornecedora externa da União Europeia.
Segundo a Agência Internacional da Energia (AIE), as exportações de gasóleo do Médio Oriente (essencialmente dos países do Golfo Pérsico) afundaram, até agosto passado, para pouco mais de um quarto do nível anterior à guerra.
Quatro anos de fator Rússia
Depois, há o fator Rússia, já que a Comissão Europeia decidiu impor sanções ao regime de Vladimir Putin. O gasóleo foi dos primeiros produtos visados.
Depois, a delicada questão dos stocks ou das reservas estratégicas. Segundo fontes oficiais, as reservas de produtos destilados caíram para mínimos desde que há registos semanais da AIE. Foi a forma de amortecer a subida em flecha do preço do petróleo, que continua atualmente colado ou mesmo acima dos 100 dólares por barril (contrato futuro do Brent).
Com isto, parece que os EUA (as petrolíferas e Trump) é que estão em grande, pois os compradores europeus estão a pagar, em média, mais caro o diesel que consomem do que os americanos, além de que as exportações dos EUA atingiram um novo recorde de 1,88 milhões de b/d em julho.
Será por isso, também, que começa a notar-se uma certa divisão na Administração Trump quanto à ideia de proibir exportações, na medida em que estas são um maná de grande calibre para as petrolíferas do país e para os cofres do Estado federal.
Do outro lado, estão o lobby agrário e o dos transportes norte-americanos, mas também a forte pressão política para agradar aos eleitores (as eleições intercalares para o Congresso e o Senado realizam-se a 3 de novembro), que exigem medidas de alívio para a atividade e o poder de compra.
96% dos camiões na Europa são a gasóleo
No caso da Europa, parece que fica como que encostada à parede. Além de estar nas mãos dos EUA nesta questão do gasóleo, internamente a economia europeia é, em muitos setores, estruturalmente dependente do diesel. Por exemplo, cerca de 96% dos camiões registados na União Europeia são a gasóleo.
Para a economia dos EUA, uma proibição poderia trazer um alívio a curto prazo nos preços dos combustíveis, inundando o mercado interno com excesso de oferta.
Em declarações à BBC, David Fyfe, economista-chefe da Argus Media, diz que um corte do fornecimento americano faria disparar os preços internacionais. Elevaria os custos globais de frete, de transporte, de alimentos e de produtos industriais, "gerando mais inflação na economia global". E, "de uma assentada, a reputação dos EUA como fornecedor mundial fiável de energia seria destruída", acrescenta Fyfe.
Por exemplo, se Trump conseguir bloquear "mais de um milhão de barris da oferta americana diária", isso levaria a uma "guerra feroz" entre grandes blocos ou países importadores da América Latina e da Europa, elevando ainda mais o preço licitado.
Sarah Raffoul, da consultora Argus Media, observa que, embora os preços internacionais mais elevados acabem por reduzir a procura, a diferença imediata prejudicaria severamente as relações comerciais e aceleraria a inflação global.
O caso de Portugal
Como referido, na Europa, países como a França, o Reino Unido ou a Espanha estão mal posicionados face à ameaça de Trump de fechar a torneira do gasóleo norte-americano (expostos diretamente ao produto importado, mas também indiretamente, porque são tomadores dos preços internacionais, que tenderão a subir mais), mas Portugal também não está a salvo.
Primeiro, porque Portugal é muito mais dependente de gasóleo do que de gasolina; depois, porque o diesel é o combustível dos camiões e da maquinaria usada na construção, dele depende a grande distribuição e o comércio, é o combustível usado na agricultura e, ainda, em boa parte dos automóveis que ainda circulam no país. Segundo um estudo de mercado, uma subida do preço do gasóleo pode afetar três quartos do consumo rodoviário, 75%, o que é imenso.
Além disso, a gasolina também seria afetada. Uma análise recente da agência de notação Standard & Poor's, sobre o impacto de uma medida como a proibição obrigatória aventada pelo presidente dos EUA, indica que levaria a uma quebra na produção de gasolina norte-americana, fazendo subir ainda mais os preços internacionais deste combustível.
Seja como for, o impacto direto em Portugal seria bastante menor do que no caso do gasóleo, que é uma das fontes de energia vitais para a circulação na economia portuguesa, para a construção, a agricultura, etc..

