Joaquim Miranda Sarmento, ministro das Finanças. Lisboa, outubro de 2025.
Joaquim Miranda Sarmento, ministro das Finanças. Lisboa, outubro de 2025.Foto: Gerardo Santos

Tempestades derrubam receita fiscal: ritmo até fevereiro é o mais fraco em quase dois anos

Em fevereiro de 2025, receita de impostos cresceu 15%. Agora, com as tempestades, emergiu um impacto muito negativo na coleta. Em fevereiro passado, receita subiu só 1%, pior registo em 20 meses.
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As tempestades que assolaram Portugal a partir do final de janeiro e se prolongaram durante três semanas em fevereiro tiveram um impacto muito negativo na receita fiscal: em janeiro, a coleta de impostos estava a crescer mais de 6% face ao mesmo período do ano passado; em fevereiro passado, o ritmo afundou para apenas 1%, revela o Ministério das Finanças, no boletim sobre a execução orçamental, divulgado esta terça-feira.

Há um ano, em fevereiro de 2025, o valor da receita de impostos cobrado nos dois primeiros meses do ano estava a crescer a um ritmo muito expressivo, mais de 15%, segundo a mesma fonte.

Com as tempestades, milhares de empresas, sobretudo na região Centro e nas zonas ribeirinhas, foram destruídas ou obrigadas a interromper atividade por falta de energia, recursos produtivos, falta de transportes e comunicações, por razões de segurança.

Muitas não terão pago impostos, muitas nem sequer faturaram durante esses tempos de devastação. Foi assim durante semanas. Várias empresas também nunca recuperaram do impacto do comboio de depressões, várias encerraram.

Atualmente, mesmo com este legado muito adverso, as contas públicas continuam a registar um excedente, mas, pela primeira vez em mais de um ano, o saldo positivo (estava em quase dois mil milhões de euros no final dos dois primeiros dois meses deste ano) caiu face ao período homólogo, um deslize de 6%, cerca de 127 milhões de euros a menos em apenas um ano, mostra o boletim que faz o acompanhamento mensal do Orçamento do Estado (OE 2026).

Segundo o documento da tutela do ministro Joaquim Miranda Sarmento, “em fevereiro de 2026, as Administrações Públicas (AP) registaram um saldo global de 1992,4 milhões de euros, que traduz uma redução de 127 milhões de euros, face ao verificado em igual período do ano anterior, em resultado do crescimento da receita (5%) ser inferior ao da despesa (6,3%)”.

“O crescimento da receita das AP em 5% resultou, fundamentalmente, da evolução das receitas não fiscal e não contributiva (13,3%) e contributiva (7,9%), complementada pela receita fiscal (1%), que foi afetada pelo efeito das tempestades do final de janeiro e início de fevereiro”, explica a Entidade Orçamental, o departamento responsável pelo apuramento das contas em contabilidade pública.

IVA, o maior imposto, perde fulgor

De acordo com a mesma fonte, “o crescimento da receita fiscal (1%) reflete sobretudo a execução do IMI (189,6%), para além do IVA (0,9%), do IRS (1%) e do ISP (3,4%), atenuado pelas quebras do IRC (-40,3%) e do Imposto sobre o tabaco (-14,2%). Para a variação da receita de contribuições para sistemas de proteção social (7,9%), o contributo mais significativo foi o da Segurança Social (8,3%)”.

A despesa com transferências do Estado para outros domínios e sistemas subiu 7,7% em termos homólogos. Aqui, as Finanças destacam “os acréscimos associados ao pagamento da contribuição financeira para o Orçamento da União Europeia, bem como aos encargos com pensões, quer no regime geral da Segurança Social, quer no regime de proteção social convergente da Caixa Geral de Aposentações, espelhando a atualização anual das pensões e o aumento do número de pensionistas”.

As despesas com vencimentos dos empregados públicos (pessoal) aumentaram 5,8%, dinâmica para a qual “contribuíram as atualizações salariais dos trabalhadores em funções públicas, bem como o aumento da remuneração mínima mensal garantida. De realçar, ainda, o impacto das medidas de valorização ao nível das carreiras específicas, designadamente nas áreas da educação, da saúde, das forças de segurança, e nos ramos das forças armadas”.

O valor em compras de bens e serviços subiu 8% e aqui o MF salienta “o maior volume de pagamentos em produtos vendidos nas farmácias, medicamentos, material de consumo clínico e outros serviços de saúde, nas entidades do Serviço Nacional de Saúde (SNS), bem como a evolução verificada nas comparticipações do regime convencionado dos beneficiários do subsistema de saúde do Instituto de Proteção e Assistência na Doença (ADSE)”.

No final da semana passada, Miranda Sarmento admitiu, pela primeira vez, que “não podemos hoje excluir a possibilidade de que em 2026 possa haver um pequeno défice, mas isso não coloca em causa o equilíbrio das contas públicas, não coloca em causa a redução da dívida pública”.

Depois do comboio de tempestades, cujo custo final ainda não está fechado (pode ascender a cinco ou seis mil milhões de euros), Portugal e o resto do mundo deparam-se hoje com uma nova intempérie: a nova guerra no Médio Oriente que também trará efeitos negativos sobre o crescimento, as contas públicas e o poder de compra das famílias.

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