O excedente das contas públicas portuguesas, medido em contabilidade nacional e que será anunciado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) esta quinta-feira, deverá ficar "muito acima das previsões" do próprio governo (este apontava, em 2025, para 0,3% do PIB - Produto Interno Bruto), mas o governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, adverte que, apesar de, a verificar-se, serem "boas notícias", o país vive atualmente um contexto de "maior pressão na despesa" e "a margem está a diminuir"..INE divulga esta quinta-feira ‘brilharete’ orçamental em 2025, com excedente superior ao previsto. Na conferência de imprensa de apresentação do boletim económico trimestral, esta quarta-feira, em Lisboa, o antigo economista-chefe da OCDE e ex-ministro do Emprego do governo PSD, de Pedro Passos Coelho, afirmou que "a margem orçamental não está a aumentar, está a diminuir"."Sabemos que há maior pressão na despesa, nomeadamente ao nível de despesa líquida, e que agora, ainda por cima com este conflito, há mais pressão para aumentar o apoio às famílias, às empresas, na sequência das tempestades". "Portanto, vai haver maior pressão orçamental", somando a isto o facto de Portugal (e a maioria dos países) estarem hoje a sofrer um impacto severo com a crise petrolífera e a nova guerra do Irão e do Médio Oriente.Para o governador do banco central português, "se tivermos mais margem, ótimo, são boas notícias, mas obviamente que é fundamental continuarmos a baixar a nossa dívida [pública] para respondermos aos fenómenos que estamos a ver hoje, aos choques inesperados". É "fundamental termos margem para poder atuar decisivamente, seja na política monetária, seja na parte da política fiscal ou orçamental", insistiu.A economia portuguesa deverá crescer menos do que o previsto, cerca de 1,8% em termos reais este ano (previsão anterior, de dezembro, era 2,3%), isto assumindo já o impacto preliminar da nova guerra no Médio Oriente, indica o Banco de Portugal (BdP) e das tempestades, no novo boletim económico. Nesta edição, o estudo não faz projeções para as variáveis de finanças públicas (saldo e dívida).Segundo Santos Pereira, a inflação sobe de cerca de 2% em 2025 para quase 3% este ano (média), as taxas de juro Euribor de curto prazo, a três meses (assumindo as hipóteses do mercado até ao passado dia 13 de março), sobem, também em média, de 2,2% em 2025 para 2,7% em 2028; a dívida pública também tenderá a ficar mais cara, como já se perfilava em dezembro, com o custo médio implícito dos juros a subir de 2,2% em 2025 para 2,6% em 2028.No novo cenário macroeconómico, os efeitos da guerra, das tempestades, da alta incerteza, vão penalizar o crescimento do consumo das famílias, do investimento, das exportações e até do emprego, que vai crescer menos do que se previa em dezembro."A economia portuguesa deverá crescer 1,8% em 2026, 1,6% em 2027 e 1,8% em 2028", começou por resumir o governador Álvaro Santos Pereira, na apresentação do novo estudo.O boletim diz que o Banco de Portugal revê em baixa o crescimento deste ano em 0,5 pontos percentuais, algo que reflete "a deterioração do contexto internacional, na sequência do conflito no Médio Oriente, que implicou o aumento do preço dos bens energéticos e a expectativa de agravamento das condições de financiamento".Mas não só. "Os eventos climáticos extremos do início do ano e a evolução mais fraca da atividade no final de 2025 face ao projetado em dezembro também contribuíram para a revisão em baixa".O governador explicou que as tempestades severas tiveram um impacto "enorme" na economia, condicionando o consumo e destruindo capital (investimentos vários, máquinas, instalações industriais, estradas). Espera-se que no resto do ano haja uma recuperação desta destruição, disse Santos Pereira.Tudo mais caro, crédito tambémPara o BdP, "a subida abrupta e significativa dos preços das matérias-primas energéticas" prejudica o ritmo da atividade e contribui para mais inflação, "sobretudo em 2026" pelo que "a expectativa de agravamento das condições de financiamento condiciona também a atividade no horizonte de projeção".Como referido, as tempestades severas que assolaram o país (sobretudo a região Centro) desde o final de janeiro e durante três semanas, tiveram um impacto relevante na economia nacional, sobretudo no primeiro trimestre, mas depois, mesmo com o impulso que se espera da parte do investimento e do consumo (por via de decisões que foram adiadas) e do plano do governo para reconstruir o país (o PTRR - Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência), a economia continuará a ressentir-se negativamente no ano de 2026 como um todo.Álvaro Santos Pereira disse que o BdP ainda está a reunir informação sobre os danos provocados na economia e que, de forma muito preliminar, já se pode dizer que o impacto foi "negativo", concentrado no primeiro trimestre, embora salientando que depois "vamos ter a recuperação do capital destruído", mais o efeito das decisões de consumo que "foram adiadas na altura".Seja como for, mesmo com a recuperação e reconstrução em curso, Portugal vai ressentir-se e em 2026 (tudo considerado), o mau tempo terá custado uma décima ao Produto Interno Bruto (PIB) que vai ser gerado este ano..Mesmo com reconstrução e PTRR, tempestades penalizam crescimento final do ano 2026