O governo e o Ministério das Finanças fizeram o Orçamento do Estado com uma meta de excedente de 0,1% do PIB que hoje parece ser uma miragem. Uma agência de ratings diz que o défice deve ser de 0,3% este ano, outros analistas apontam já para 0,6% A redução do peso da dívida é que continuará de vento em popa.A previsão de "pequeno défice" relativo a 2026 que o governo irá publicar na próxima semana e depois enviar à Comissão Europeia no âmbito da avaliação regular do ciclo do Semestre Europeu deverá rondar 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB).O valor que circula é ainda muito preliminar e está em aberto por causa da enorme volatilidade macroeconómica e do impacto ainda altamente incerto dos apoios a famílias e empresas afetadas pelas tempestades do último inverno e por causa do novo choque petrolífero.Em todo o caso, alguns analistas consideram que esse défice previsto (em contas nacionais), inclusivamente valores que emergem de cálculos feitos já depois de rebentar a guerra no Médio Oriente, pode chegar a 0,6% do PIB.De acordo com informações obtidas pelo DN/Dinheiro Vivo, é certo que a previsão de excedente orçamental vai cair e transformar-se num défice, ainda que ligeiro e acomodável nas regras do Pacto de Estabilidade europeu.O Orçamento do Estado para 2026 (OE 2026) foi feito com o pressuposto de que a economia iria crescer 2,3% este ano e de que a inflação média anual seria de 2,1%, o que permitiria no fim entregar um excedente de 0,1%.Ambas as projeções são, atualmente, uma miragem. As previsões mais recentes dizem que a economia deve crescer muito menos em 2026. O Banco de Portugal (BdP) diz 1,8% (boletim de março); já este mês, o Fundo Monetário Internacional (FMI) apontou para 1,9% e o Conselho das Finanças Públicas (CFP) para apenas 1,6%.Segundo as três instituições, a inflação é revista fortemente em alta, para a fronteira dos 3%.Já no saldo orçamental, há números para todos os gostos. O FMI prevê um ligeiro défice de 0,1% do PIB este ano.O CFP projeto um excedente de 0,1%, mas avisou que a incerteza é elevadíssima e que há muitas medidas em aberto, com as quais não contou sequer, e que podem fazer descarrilar e muito o saldo das contas deste ano.Muitos valores ainda incógnitos do lado da despesaNazaré Costa Cabral, a presidente do Conselho das Finanças, disse que não foram consideradas "novas medidas de política, nem medidas já anunciadas que ainda não se encontram legisladas, como por exemplo, eventuais medidas adicionais de mitigação dos efeitos do conflito militar no Médio Oriente".Também "não foi incluída a despesa adicional com defesa ao abrigo do mecanismo europeu SAFE nem para assegurar o compromisso do governo de 3% do PIB em 2029 (conceito NATO)"A previsão também "não integra o impacto do Plano Português de Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR)".Também não pode constar dos cálculos a incorporação de um "eventual alargamento de revisões de carreiras na Administração Pública".E idem no caso do "impacto nas contas públicas de grandes obras públicas"; "não foi contabilizado", afirma a líder do CFP.Do lado da receita, a única verba não considerada é a relativa à reprivatização parcial da TAP, explicou a economista.Joaquim Miranda Sarmento, o ministro das Finanças, já admitiu várias vezes que, tendo em conta o ambiente nacional e sobretudo internacional mais agreste, o governo regressou aos cálculos e que este ano entregará um "pequeno défice" que em nada comprometerá o compromisso do país em manter as contas equilibradas e o ritmo de descida da dívida pública, tão pouco a sua sustentabilidade.Como referido, o Relatório Anual de Progresso, que será remetido a Bruxelas na próxima semana (o prazo termina a 30 de abril), deve trazer inscrito um pequeno défice próximo de 0,3%, mas a redução da dívida continuará de vento em popa, podendo baixar de 89,7% do PIB em 2026 para 86% ou até ligeiramente menos no final deste ano. É uma contração muito significativa.O departamento de estudos económicos do Banco BPI (BPI Research) prevê que a economia portuguesa possa crescer 2,1% em 2026, mas diz que o défice público regressa e pode chegar a 0,6%.A agência de ratings Scope é uma das cinco homologadas pelo Estado português, IGCP, e pelo BCE.Carlo Capuano, o analista que segue Portugal, considera que "a posição orçamental favorável de Portugal, com um excedente de 0,7% do PIB em 2025 proporciona ao governo alguma margem de manobra para implementar medidas de apoio à economia relacionadas com a energia, num contexto de inflação mais elevada"."Entre outras medidas, o governo implementou um desconto temporário no imposto sobre os combustíveis e nos subsídios", iniciativas que "vêm juntar-se ao pacote de apoio de 3,5 mil milhões de euros (1% do PIB) para mitigar as consequências das perdas provocadas pelas tempestades do início do ano".No entanto, "se a crise no Médio Oriente se intensificar ou se prolongar mais do que o previsto, é provável que o governo implemente medidas de apoio adicionais, o que irá pressionar as finanças públicas"Tudo considerado, a Scope prevê que "o saldo público passe a um défice de 0,3% do PIB este ano, refletindo também a utilização dos empréstimos do Plano de Recuperação e Resiliência".Quanto ao futuro, "prevemos que o défice continue a deteriorar-se, ainda que gradualmente, e que atinja uma média de 0,8% do PIB em 2027-2030".A compressão da dívida é que continua e em força. A Scope prevê uma descida no rácio da dívida pública pública portuguesa "para cerca de 76% do PIB em 2035", estima Carlo Capuano..Governo faz maior reforço da almofada de segurança orçamental desde o início da pandemia