O F-35 está entre os concorrentes para substituir a frota de F-16 da Força Aérea Portuguesa.
O F-35 está entre os concorrentes para substituir a frota de F-16 da Força Aérea Portuguesa.Lockheed Martin

Lockheed Martin desafia empresas portuguesas a produzir partes do F-35

Caça é um dos concorrentes à substituição da frota de F-16. Quatro empresas nacionais, da área de compósitos e estruturas, serão convidadas a apresentar propostas para produzirem equipamento no país.
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A Lockheed Martin, construtora do caça F-35, vai convidar formalmente, até final de novembro, quatro empresas portuguesas a apresentarem propostas que lhes permitam assegurar a produção no país de partes do caça norte-americano, que é um dos principais concorrentes ao plano de reequipamento da Força Aérea Portuguesa (FAP), visando a substituição da atual frota de F-16 (também eles produzidos pela Lockheed Martin).

“Nos últimos dois anos temos trabalhado com a Força Aérea Portuguesa, com o AED [o cluster português que representa e dinamiza as indústrias de Aeronáutica, Espaço e Defesa no país, reunindo mais de 170 entidades], com a IdD Portugal Defence [empresa pública que gere as participações acionistas do Estado Português nas indústrias da área da defesa] e com o ISEP [Instituto Superior de Engenharia do Porto] e identificámos um portfólio diversificado de projetos em que Portugal pode participar. Agora, o programa F-35 [que tem duração prevista até 2070] identificou a necessidade de uma segunda fonte para dois componentes estruturais do avião e, nesse sentido, iremos enviar nas próximas semana um pedido de proposta competitiva a quatro empresas da indústria portuguesa para que concorram e assegurem esse trabalho”, adiantou esta quarta-feira, 21 de outubro, Liza Herrmann, responsável da Lockheed Martin que tem sido o principal rosto nos contactos com as entidades portuguesas – governo, FAP e também empresas do setor privado.

Os nomes das quatro empresas não foram divulgados, por questões de confidencialidade comercial e concorrência, mas já existiram contactos prévios para aferir a disponibilidade e capacidade de responderem positivamente ao caderno de encargos da Lockheeh Martin. O setor em que operam é o de compósitos e estruturas, muito importante para o desenvolvimento aeronáutico porque consegue criar componentes estruturais dos aviões com recurso a materiais mais leves e mais resistentes a pressões extremas e grandes variações de temperatura.

As partes específicas do avião que poderão passar a ser construídas em Portugal também não foram reveladas.

As empresas portuguesas serão quatro dos dez concorrentes à produção destas partes do F-35, revelou ainda a Lockheed Martin, que, no total, identificou 17 projetos potenciais em Portugal (envolvendo coprodução, tecnologia e manutenção). "Estamos convencidos que Portugal tem capacidades industriais que podem melhorar o nosso portfólio", acrescenta a responsável da empresa norte-americana.

Este piscar de olho à indústria nacional vai ao encontro do que tem defendido o governo português em relação à substituição da frota de F-16, considerando que o investimento a realizar na aquisição de novos caças deve traduzir-se em contrapartidas diretas para o país, seja através da integração de empresas na cadeia global de fabricantes e fornecedores ou na criação de mais emprego qualificado.

O valor total a investir pelo Estado pode alcançar os 5 mil milhões de euros, para todo o ciclo de vida de aproximadamente 30 aeronaves (um número que ainda não foi fechado). O custo deverá incorporar despesas com logística, treino de pilotos e manutenção.

O desafio da Lockheed às empresas nacionais é também uma resposta aos principais concorrentes do F-35 num futuro negócio com Portugal. Além da Lockheed, disputam o contrato a sueca Saab (com o caça Gripen E), o consórcio europeu Airbus (Eurofighter) e a francesa Dassault (Rafale). Todas assinaram memorandos com a AED Cluster Portugal para injetar contrapartidas na economia nacional – a Saab admite uma linha de montagem final em Portugal do Gripen E; a Airbus já tem acordos assinados com dezenas de empresas nacionais para integrarem o projeto do Eurofighter e acena com o reforço das parcerias industriais já existentes; e a Dassault entra em jogo juntamente com outros parceiros tecnológicos no caça Rafale, casos da Thales e da Safran, alargando assim o leque de oportunidade de potenciais parcerias com o tecido empresarial português.

Quanto à Lockheed, além da produção de parte do F-35 em Portugal, também falou no desenvolvimento de um sistema abrangente de vigilância e monitorização do domínio marítimo, denominado Dragon. A empresa norte-americana acredita que a longa relação com Portugal (nos F-16, mas também em outras aeronaves como o C-130 e o P-3) será um trunfo na hora da decisão do Estado. Além disso, diz que o concurso para o qual convidará empresas portuguesas não depende de o país escolher o F-35 para substituir o F-16, embora admita que esse cenário ajudaria Portugal a participar mais ativamente no programa de industrialização do caça.

F-35 na dianteira

A substituição da frota de F-16, que leva três décadas de serviço contínuo ao serviço da FAP, não se trata apenas de um investimento na capacidade de defesa do país – com desafios próprios no policiamento aéreo, dada a posição geográfica estratégica no Atlântico Norte – e na modernização do equipamento militar, mas também a única forma de Portugal continuar a ser um parceiro ativo em missões específicas de alianças como a NATO, por exemplo.

Quando ainda liderava a Força Aérea, antes de assumir em março de 2026 o cargo de Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, João Cartaxo Alves chegou a defender que a melhor solução para Portugal seria a transição direta para os caças de 5.º geração (no caso, os F35, equipados com tecnologia stealth, que lhes confere invisibilidade perante os radares, entre outras características), para manter a interoperabilidade com os aliados da NATO e na Europa (13 países do continente têm acordos com o programa dos F-35).

Em maio deste ano, o Expresso também deu conta de um estudo interno da FAP no qual o caça norte-americano saiu vencedor na maioria dos 20 critérios analisados, quando comparado com os outros três concorrentes ao negócio.

O concurso para aquisição dos aviões ainda não foi lançado e estará integrado na revisão da Lei de Programação Militar (o instrumento financeiro para planear os investimentos a realizar das Forças Armadas), a qual deverá ser apresentada ao parlamento até final do ano.

No início de outubro, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, durante uma visita oficial que fez a Lisboa, não hesitou em apontar o caça da Lockheed Martin como a melhor opção para os interesses de Portugal. “Nós achamos que o F35 é o melhor avião do mundo. Queremos que o comprem e muitos outros países já o fizeram. Mas a escolha será sempre de Portugal”, afirmou Rubio, numa conferência ao lado o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, sem deixar de mencionar os pedidos que os Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, têm feito aos parceiros da NATO para reforçarem os seus orçamentos de Defesa e cumprirem os acordos com a aliança (em 2025, os estados-membros acordaram que, até 2035, irão progressivamente atingir a meta de 5% do seu PIB para a defesa).

“Para que a NATO seja forte, os estados-membros da NATO têm de ser fortes. Para que os estados-membros sejam fortes, têm de ter capacidades. E saliento sempre isto porque, por vezes, as pessoas encaram este apelo para investir mais em defesa como algo hostil. Não é hostil. Pelo contrário, defendemos que a NATO é importante”, disse Rubio.

Rangel, por sua vez, sublinhou que a decisão não está tomada e que “o Estado português decidirá sempre de acordo com o interesse nacional”.

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