João Mesquita (esq) e Fábio Medeiros, responsáveis pela operação da LivemodeTV.
João Mesquita (esq) e Fábio Medeiros, responsáveis pela operação da LivemodeTV.Foto: Paulo Spranger

LivemodeTV quer revolucionar as transmissões desportivas: “O desporto é hoje o grande ativo do streaming”

Em entrevista ao DN/DV, representantes da empresa falam sobre a entrada em Portugal da plataforma que criou a CazéTV e irá transmitir o Mundial 2026 gratuitamente no YouTube com aposta em novo modelo.
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Redefinir o consumo de transmissões desportivas em Portugal é o objetivo da LivemodeTV, uma das detentoras dos direitos do Mundial 2026 no país. Depois do sucesso no Brasil, a empresa quer replicar o modelo da CazéTV, canal criado pela própria Livemode que se tornou um fenómeno no YouTube e que agora chega à Europa com entrada por Portugal.

"O sucesso comercial dos últimos anos, e em especial do último ano, fez com que acreditássemos que era o momento de olhar para fora e levar esse modelo para outros mercados", conta ao DN/DV o Chief Content Officer (CCO) da LivemodeTV, o luso-brasileiro Fábio Medeiros, que mudou-se para Portugal para ser um dos coordenadores da operação. "Portugal apareceu como uma boa oportunidade pelas suas características: muitos jovens com acesso à internet, o crescimento do streaming e uma oportunidade grande de desenvolvimento desse mundo digital. Era um bom timing, uma boa oportunidade e com o melhor direito possível, que é o direito do Mundial".

Ao lado de Medeiros, o lisboeta João Mesquita, Chief Executive Officer (CEO) da empresa, que passou as últimas décadas da carreira em projetos entre o Rio de Janeiro e Miami, voltou à sua terra natal para ser outro dos responsáveis por este novo projeto ambicioso. A iniciativa tenta replicar um modelo de negócio que, no Brasil, revolucionou a forma de transmitir desporto através de uma linguagem mais descontraída e direcionada ao público jovem.

"O português, por natureza, é um pouco mais formal. Isso atravessa todas as idades, mas essas diferenças são hoje mais relevantes nas faixas etárias mais velhas", entende Mesquita. "A juventude é francamente mais próxima da juventude brasileira do que se pode imaginar. O homem de 50 anos em Portugal talvez seja mais diferente do homem de 50 anos no Brasil. Mas o jovem de 18 anos em Portugal provavelmente é muito próximo do jovem de 18 anos no Brasil", explica.

Plataforma irá transmitir todas as partidas da seleção no Mundial.
Plataforma irá transmitir todas as partidas da seleção no Mundial.Foto: Paulo Spranger

O fenómeno de audiência da Cazé TV impressiona: hoje, são mais de 25 milhões de inscritos no canal do Youtube, que começou a se popularizar justamente com a transmissão do Mundial-2022 no Qatar. Desde então, o canal que faz parte da Livemode passou a chamar atenção e transmitiu Olimpíadas, Europeu, Campeonato Brasileiro, Paulistão, entre tantos outros.

Em Portugal, a aposta começa no Mundial e com uma estrutura em Lisboa que contou com um aporte financeiro que ainda não pode ter as cifras relevadas, embora o CEO adiante que "é um investimento relevante". "É relevante porque é uma aposta de longo prazo. Não é porque caiu no nosso colo o Mundial de Futebol que vamos fazer o Mundial, testar e voltar para casa. Nada disso. O Mundial é, como aconteceu no Brasil, um ponto de partida de longo prazo. O investimento não é feito numa ótica de rentabilidade de curto prazo. É um investimento sério, que será pago em muitos anos de operação", avança, indicando que a operação pode ser estendida à outros mercados:

"Aquilo que aprendermos em Portugal poderá ser reaplicado em outros países europeus, havendo oportunidades de crescimento pela Europa", assinala.

Medeiros conta que, inclusive, o sucesso da CazéTV e da LiveMode no Brasil já foram tentados em outros lugares, mas encontrar a fórmula para atrair o espectador é algo que requer estudo."Hoje, a audiência jovem é muitíssimo fragmentada. A atenção do jovem está espalhada por várias redes sociais, dispositivos, celular, videogame, televisão. O nosso modelo consegue, de uma maneira quase única no mercado, trazer esses jovens juntos, simultaneamente, para conviver em comunidade em torno de algo espetacular, que é o desporto".

O CCO da empresa vai ainda mais longe ao exemplificar esta transição de consumo, uma tendência em franco crescimento nos últimos anos. "Existe uma mitificação sobre a palavra streaming e sobre o que é televisão. Para a minha geração, televisão tinha um significado. Para os meus filhos, a televisão é um iPad grande pendurado na parede. Para eles, não importa se o sinal chega por antena, cabo, fibra ou streaming. A pergunta é: “Qual é o app?”. O nome da tecnologia provavelmente vai mudar daqui a alguns anos, mas os conteúdos vão continuar chegando às pessoas".

Mesquita afirma que uma das grande lições ensinadas pela Livemode no Brasil e que podem ser replicadas em Portugal é de que este modelo, de atingir um público mais novo, funciona: "O jovem não é contra uma transmissão mais longa, não é contra ver futebol ou desporto na televisão. Apenas precisamos falar a linguagem dele", diz o CEO, admitindo que o mercado português, por vezes represente mais desafios que noutros países.

Logomarca da LivemodeTV.
Logomarca da LivemodeTV.Foto: Paulo Spranger

"Há algumas diferenças do lado do mercado. No Brasil, as agências criativas têm um poder maior sobre a estratégia das marcas. Em Portugal, as centrais de compra e as centrais de mídia têm um poder maior na compra e no planejamento de mídia. Como têm uma vertente mais econométrica, olham muito para eficiência de números contabilizados e tendem menos a entender de raiz esta proposta de valor", sublinha, ressaltando também que, em Portugal, há uma maior aversão ao risco.

"O dinheiro é muito contado, os budgets são muito contados em Portugal e, por isso, há menos espaço para experimentar coisas novas que acabaram de chegar. Portanto claro que há desafios de curto prazo e outros mais culturais e estratégicos. Mas estamos muito satisfeitos com o caminho", frisa.

Para Mesquita, seja qual for a popularidade da nova plataforma em Portugal, uma coisa é certa. O futuro das transmissões desportivas no país e em todo o mundo, passa pelo streaming. "É um caminho natural", afirma. "Esses modelos avançam à medida da vontade do consumidor e da tecnologia que acompanha essa vontade. Em alguns países, por questões de direitos ou de empresas tradicionais com maior domínio do mercado, os timings podem ser diferentes. Mas a tendência é a mesma".

No Brasil, o sucesso do modelo de streaming desportivo foi tanto que, a maior parte das plataformas antes focadas em séries e filmes (Prime, Paramount, Max, Disney+ e Apple TV) já são detentoras de alguns dos principais torneios futebolísticos. "Não há dúvida de que todos os streamings já descobriram que o grande ativo de hoje é o desporto. Uma plataforma pode investir 100 milhões numa série e não saber se vai dar certo. Há séries caríssimas que não passam da primeira temporada. Mas se aposta num Manchester United x Manchester City, não importa quem ganha: vai dar certo".

A Livemodetv.PT transmitirá, em direto, todas as partidas da seleção no Mundial de 2026, além do principal jogo de cada dia, sempre no Youtube e de forma gratuita - confira a lista já divulgada neste link. A transmissão, sem custos para o espectador segue a linha do modelo de negócio frutífero no Brasil.

Estúdio da LivemodeTV, em Lisboa.
Estúdio da LivemodeTV, em Lisboa. Foto: Paulo Spranger

"É difícil sustentar o desporto só com publicidade, mas, ao mesmo tempo, acreditamos que parte desse conteúdo precisa estar disponível gratuitamente, para massificar o interesse das pessoas. Se tudo fica muito nichado, também se incentiva a pirataria. O acesso gratuito ajuda inclusive o modelo de assinatura, porque gera interesse e necessidade de consumo. Essa democracia de acesso ao desporto é fundamental", assinala Medeiros.

Após o dia 19 de julho, quando se encerra o torneio nos EUA, Canadá e México, o caminho ambicioso da empresa em Portugal ainda não pode ser revelado, embora os responsáveis "não tenham a menor dúvida" de que terão "bons eventos e continuidade de transmissões ao vivo". "O projeto do Mundial não é um piloto, e sim o primeiro episódio", finaliza CCO da LivemodeTV.

João Mesquita (esq) e Fábio Medeiros, responsáveis pela operação da LivemodeTV.
Empresa do canal brasileiro CazéTV chega a Portugal e irá transmitir de graça jogos da seleção no Mundial 2026
João Mesquita (esq) e Fábio Medeiros, responsáveis pela operação da LivemodeTV.
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