No meio do futebol brasileiro nos últimos anos, poucas histórias são tão surpreendentes quanto a de Casimiro Miguel, mesmo que a atuação de Cazé, como é conhecido, não seja dentro dos relvados do país com uma bola no pé. Jornalista de formação, o carioca foi, em poucos anos, de estagiário a responsável por um dos maiores canais de YouTube do Brasil, a CazéTV, e uma das figuras centrais na transmissão de torneios como o Mundial de futebol masculino.Adepto do Vasco da Gama e com raízes diretamente ligadas a Portugal (é filho de portugueses que emigraram para o Brasil), Cazé deu recentemente um passo ainda maior no que já pode ser chamado de império: no ano passado, tornou-se sócio da LiveMode, que poucos meses depois anunciou um braço em Portugal, com a LiveMode.pt, plataforma que vai transmitir no YouTube jogos do Mundial de 2026, incluindo partidas da seleção portuguesa.Assim como no modelo de sucesso da CazéTV - que, pelo menos no Brasil, revolucionou a forma como são feitas as transmissões desportivas - o projeto em Portugal desenvolve-se numa lógica semelhante, com forte interação com o público jovem e a presença de nomes do humor e do universo digital. Mais do que uma nova plataforma, é uma tentativa clara de replicar um modelo que já mudou o consumo de futebol no Brasil. Mas afinal, como é que Casimiro passou tão rápido de estagiário a principal rosto da transmissão de um Mundial?Para contar a trajetória de Cazé, é preciso voltar aos tempos pandémicos. Depois de começar no Esporte Interativo (que posteriormente se transformou na TNT Sports), um dos primeiros canais desportivos de televisão do Brasil a apostar na internet como veículo informativo, e passar também pela estação SBT, Casimiro construiu desde cedo grande parte do seu trabalho nas plataformas digitais, sobretudo no Twitch. Foi ali, especialmente em 2020, que começou a ganhar escala.Nas suas transmissões em direto (lives), muito além do futebol, comentava tudo o que viralizava na internet: reagia a vídeos de mansões das pessoas mais ricas do mundo, mostrava como funcionava a cozinha da hamburgueria mais na moda nos Estados Unidos, entre outras curiosidades de A a Z. No fundo, não era exatamente o conteúdo que importava - era a forma como falava sobre aquilo.Num momento em que o mundo se fechou em casa e que a internet e o vídeo passaram a ocupar um espaço ainda maior no dia a dia, Cazé viralizou. Através das suas transmissões diárias na Twitch, onde o seu perfil humilde, sincero e bem-humorado fez o público identificar-se. O carioca “explodiu” em 2021 e passou a figurar entre as principais caras da internet brasileira.Com o crescimento, veio o reconhecimento: naquele ano venceu prémios como o da iBest, de ‘Twitcher do Ano’, o Prémio eSports Brasil como ‘Personalidade do Ano’ e foi eleito pela GQ Brasil como ‘Homem do Ano’ na categoria Conteúdo Digital.Foi nesse momento que a LiveMode entrou de vez na história. A empresa - responsável por negociar e adquirir direitos de grandes competições - passou a agenciar Casimiro, e dessa parceria nasceu, em 2022, a CazéTV. O primeiro grande teste veio logo com o Mundial do Qatar, e ali ficou claro que havia algo diferente no ar.Hoje, a CazéTV soma mais de 24 milhões de inscritos e tornou-se uma referência no mercado, não só pelo tamanho, mas pelo estilo. Um modelo mais leve, menos engessado e com linguagem de internet, que aproximou a transmissão de quem está do outro lado do ecrã.O impacto foi imediato. Até gigantes do setor tiveram de se adaptar: a Globo lançou a GE TV no YouTube com um formato mais descontraído, a ESPN Brasil reforçou a aposta no streaming, e outros projetos, como a NSports e a SportyNet, seguiram o mesmo caminho. O que começou como uma alternativa virou tendência.Nos bastidores, o crescimento também mudou de escala. Em 2025, a LiveMode passou a deter 100% da CazéTV, e Casimiro deixou de ter participação direta no canal para se tornar sócio do braço internacional do grupo, a LiveMode Cayman. Na prática, trocou parte de um negócio específico por uma posição mais ampla dentro da empresa, passando a participar da estratégia global de direitos de transmissão, incluindo a expansão para novos mercados, como Portugal.Facto é que a CazéTV tornou-se um caso de estudo para quem quer replicar o modelo de sucesso pelo mundo e tornou-se também tema de pesquisas académicas que analisam o seu impacto, sobretudo entre os mais jovens. Num tempo em que o futebol brasileiro já não produz tantos ídolos globais como noutras gerações, a identificação com Cazé, para muitos, aproxima-se da que antes era reservada aos craques dentro de campo.Mesmo que ainda não haja um “Casimiro” em Portugal, o modelo já começa a dar sinais de que pode ganhar espaço. E a tendência é clara como a água: a começar pelo Mundial de 2026, a transição da televisão para o streaming deve tornar-se cada vez mais visível - e, desta vez, com sotaque também português..Empresa do canal brasileiro CazéTV chega a Portugal e irá transmitir de graça jogos da seleção no Mundial 2026.Portugal com Colômbia, Usbequistão e RD Congo, Jamaica ou Nova Caledónia no Grupo K do Mundial 2026