Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), 23 de julho de 2026.
Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), 23 de julho de 2026.Banco Central Europeu 2026 / Felix Schmitt for ECB

Lagarde põe água na fervura da inflação: "Salários não mostram reação significativa ao choque energético"

BCE. "Inflação dos alimentos diminuiu para 1,1% em agosto, face a 1,2% em julho" e a taxa de crescimento dos salários também caiu no último trimestre, apesar desta crise sem fim à vista.
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Depois de ter aumentado as taxas de juro de referência da Zona Euro no passado dia 10 de setembro (a taxa de depósito subiu de 2,25% para 2,5%, o segundo aumento deste ano) para conter a ameaça da inflação, a presidente do Banco Central Europeu (BCE) veio dizer, esta segunda-feira (28 de setembro), que "até ao momento, os salários não revelam uma reação significativa ao choque energético", dando assim um sinal de que pode haver argumentos para não subir tanto as taxas de juro como muitos antecipam e dizem, sobretudo certos investidores no mercado que anteveem, inclusive, que a taxa de juro principal do BCE possa subir mais duas vezes este ano, para 3%, por exemplo.

Em Bruxelas, na audição trimestral do chamado "diálogo monetário", no Parlamento Europeu (PE), Christine Lagarde desdramatizou bastante a ameaça dos chamados efeitos de segunda ordem que o atual choque energético pode ter na inflação geral, sobretudo por via dos aumentos salariais (com os trabalhadores a tentarem negociar melhores condições para fazerem face ao agravamento do custo de vida).

Segundo a banqueira central, a nível europeu, parece que os trabalhadores não estão a obter tais atualizações dos seus rendimentos (idem na negociação coletiva com os empregadores), o que é bem visto, é um bom sinal para a estabilidade de preços, a grande meta do BCE.

Em resposta aos eurodeputados, Lagarde disse que "constatamos uma inflação mais elevada no horizonte, mas ainda sem sinais de que esteja a tornar-se persistente".

As perspetivas para a inflação em 2027 e 2028 são atualmente superiores às que foram antecipadas há alguns meses, mas "sobretudo devido aos preços mais elevados da energia". Isto é, a pressão inflacionista não saiu da caixa da energia, pelos vistos.

Um problema centrado na "falta de capacidade de refinação"

Por exemplo, Lagarde observou nesta mesma audição de que o aumento muito substancial dos preços da energia (mais de 70% no caso do petróleo face aos níveis pré-guerra contra o Irão e muito mais no caso do gás) não atingem da mesma forma todos os segmentos de produtos refinados.

Os piores casos, recordou Lagarde, podem estar mais circunscritos, em produtos como gasóleo e combustível de aviação (jet fuel) por causa da "falta de capacidade de refinação" destes produtos, uma restrição de oferta, que estava muito concentrada em fábricas nos países parceiros da Europa no Médio Oriente e também na Rússia, regiões que agora não estão a responder à procura, observou.

Além disso, a presidente do BCE garante que, além dessa pressão, há pouco mais a notar como ameaçador: "nesta fase, não observamos evidência de que os preços da energia estejam a traduzir-se em aumentos salariais".

"Embora o crescimento económico tenha demonstrado resiliência, desde a nossa última reunião, as taxas de juro de longo prazo aumentaram de forma significativa, o que irá desacelerar o crescimento e reduzir os efeitos de transmissão mais do que foi projetado no exercício de setembro", alertou Lagarde, no que pode ser considerado um argumento a favor de mais moderação nas subidas de taxas.

Se os efeitos de segunda ordem e dos salários estão contidos, se a inflação alta não se está a enraizar e se há sinais de que a atividade pode travar e com ela puxar os preços para baixo, isso deve significar menos pressão para subir juros a prazo.

"Estes elementos significam que permanecemos na via intermédia para a política monetária que apresentei no início deste ano", ou seja, "significa que, embora o choque seja demasiado significativo para ser ignorado, consideramos adequada uma resposta ponderada para manter a inflação sob controlo", declarou Lagarde.

A chefe da autoridade monetária recordou que "o cenário de base das projeções dos especialistas do BCE de setembro prevê que a economia cresça 0,9% em 2026, 1,4% em 2027 e 1,5% em 2028", que "a inflação global aumentou para 3,2% em agosto, face aos 2,9% registados em julho" e que "a inflação da energia subiu para 14,3%, após 10,3% em julho".

Sendo verdade que "este aumento reflete, em particular, um forte contributo das margens de refinação dos combustíveis líquidos, bem como preços mais elevados das matérias-primas energéticas", Lagarde sublinhou que "ao mesmo tempo, a inflação dos preços dos alimentos diminuiu para 1,1% em agosto, face a 1,2% em julho", ou seja, abrandou e o nível é relativamente baixo, próximo de 1%.

Além disso, continuou Lagarde, "a inflação excluindo energia e alimentos recuou ligeiramente para 2,4%, devido a uma diminuição da inflação dos serviços".

Portanto, "até ao momento, os salários não revelam uma reação significativa ao choque energético". "A remuneração por trabalhador, indicador que mede o crescimento nominal dos salários, situou-se em 3,3% no segundo trimestre, abaixo dos 3,6% registados no primeiro trimestre", ilustrou Lagarde.

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