A guerra no Médio Oriente está a aumentar de forma significativa o risco de o mundo resvalar para uma nova crise energética, cujos efeitos diretos e "prolongados" serão muito negativos no crescimento económico, fazendo subir a inflação e pondo em perigo a estabilidade financeira ou seja colocando o mundo à beira de uma nova crise financeira (que depois será inevitavelmente económica), avisa o Fundo Monetário Internacional (FMI), no novo estudo Perspetivas Económicas Mundiais (World Economic Outlook), divulgado esta terça-feira, em Washington, Estados Unidos.Para já, defende o FMI, estamos perante um choque económico provocado por um choque energético, é certo, mas quando mais estes se propagarem e durarem, mais a economia será empurrada para a beira do precipício, por assim dizer.Na última crise inflacionista, que deu azo a subidas muito agressivas nas taxas de juros, na sequência da guerra da Rússia contra a Ucrânia, "os níveis de preços permanentemente mais elevados aumentaram as preocupações com o custo de vida e tornaram as expectativas de inflação mais sensíveis a novos aumentos de preços", observou o economista-chefe do Fundo, Pierre-Olivier Gourinchas."A subida de 2022 reflectiu uma curva de oferta agregada excepcionalmente acentuada, com uma forte procura a encontrar estrangulamentos na oferta, permitindo aos bancos centrais alcançar a desinflação com perdas limitadas de produção", isto é, as taxas de juro subiram muito (estavam negativas ou em 0% no início de 2022 e chegaram a 4% em setembro de 2023, portanto em apenas um ano e meio), mas a economia parece ter aguentado relativamente bem este choque de juros.Desta vez, subidas de taxas de juro vão doer maisHoje não é bem assim, avisa o economista-chefe. "As evidências sugerem agora um regresso a uma curva de oferta mais plana, o que torna a desinflação mais onerosa", isto é, as subidas de taxas de juro que se estão a antecipar vão custar mais a todos: pessoas, empresas e governos.Por isso, o FMI e Gourinchas pedem aos bancos centrais que esperem o máximo possível até terem mesmo de subir taxas de juro para dobrar a inflação, que colecionem muitos dados e verifiquem bem a informação, avaliem se as expectativas estão ancoradas e se há sinais de contágio desordenado e grave da inflação da energia aos outros sectores da economia.Bancos centrais devem aguentar subidas de taxas o máximo que puderem "Como devem reagir os bancos centrais?", questionou-se o economista-chefe, na conferência de imprensa de apresentação do Outlook, esta terça-feira, em Washington."Obviamente, a melhor forma de limitar os danos económicos é o fim rápido e ordenado da guerra", mas, diz o alto-responsável do FMI, neste momento em particular, em que tudo está em aberto no conflito do Médio Oriente, "os bancos centrais podem geralmente ignorar uma subida dos preços da energia, mas apenas enquanto as expectativas de inflação se mantiverem bem ancoradas", admite o FMI.O Fundo adverte que "o choque energético já enfraquece a actividade económica e faz subir os preços, e nenhum banco central pode influenciar os preços globais da energia sozinho"."Mas se as expectativas de inflação a médio ou longo prazo aumentarem à medida que os preços e os salários sobem, a reposição da estabilidade de preços deverá ter prioridade sobre o crescimento a curto prazo, com um rápido aperto monetário", defende, sem surpresa, o FMI.Além disso, "embora a flexibilidade cambial permita que a política monetária se concentre na estabilidade de preços, podem ser consideradas intervenções no mercado cambial ou medidas de gestão dos fluxos de capitais" se a situação vier a ficar ainda mais difícil e descontrolada, argumenta o responsável pelo departamento de estudos económicos do FMI, Gourinchas.A instituição dirigida pela economista búlgara Kristalina Georgieva lamenta que o conflito no Médio Oriente tenha interrompido o impulso positivo que a economia global vinha a registar nos últimos meses.Desde 2025 até final de fevereiro, quando os EUA e Israel atacaram o Irão, as perspetivas eram relativamente animadoras, apesar dos riscos e da alta incerteza por causa de outras guerras e discursos inflamados e ameaçadores de líderes como o Donald Trump, Presidente dos EUA, a maior economia do mundo.Segundo o FMI, até ao início da guerra, o cenário era relativamente favorável pois apesar das tensões comerciais e da incerteza política, a economia mundial tinha terminado o último ano com bons sinais.Segundo o Fundo, as empresas adaptaram‑se, houve algum apoio dos governos, as condições financeiras eram favoráveis e o crescimento da produtividade, impulsionado pela tecnologia, ajudava a sustentar a atividade. "As previsões apontavam para um crescimento global de 3,4% em 2026."No entanto, "esse cenário mudou com o agravamento do conflito no Médio Oriente. O encerramento do Estreito de Ormuz — por onde passa uma parte muito significativa do petróleo e do gás comercializados no mundo — e os danos em infraestruturas energéticas levantam a possibilidade de uma forte perturbação no abastecimento global. Se os combates continuarem, o risco de uma crise energética é elevado", diz Pierre-Olivier Gourinchas..FMI corta crescimento de Portugal para 1,9% e vê inflação galgar para mais de 3% este ano. Energia: o combustível que alimenta o choqueA duração e a intensidade da guerra serão decisivas, refere o Fundo.Quanto mais tempo durar o conflito e maior for a destruição de instalações de extração, refinação e transporte de petróleo, gás e outros produtos derivados desta indústria, mais difícil será normalizar o fornecimento de energia, mais difícil será retornar ao que era dantes.No estado em que as coisas estão no Médio Oriente e nos países produtores do Golfo Pérsico, essa recuperação pode levar "muito tempo", dizem vários analistas destes mercados.Mas o primeiro impacto, já se viu no caso das bombas de gasolina, sente‑se nos preços.Segundo o FMI, a energia mais cara aumenta os custos de produção, afeta transportes, indústria e serviços e está a interromper os fluxos de abastecimento de várias mercadorias.Uma das mais críticas são os fertilizantes, que estão assim a comprometer a produção futura de bens agrícolas, logo da alimentação.Isto traduz‑se em inflação mais alta e perda do poder de compra das famílias.Há também o risco de este choque inicial se amplificar. Se empresas e trabalhadores tentarem compensar perdas através de aumentos de preços e salários, pode surgir uma espiral inflacionista, sobretudo em países onde a inflação já estava acima dos objetivos dos bancos centrais.Crise energética prolongada pode levar a uma crise financeiraAlém disso, o receio de uma crise energética prolongada vai aumentar a instabilidade nos mercados financeiros.A incerteza pode levar a quedas nos preços dos ativos, fuga de capitais, subida das taxas de juro e aperto das condições de crédito, travando o investimento e o consumo.Mesmo num cenário considerado moderado, com um conflito de curta duração e uma subida de cerca de 19% nos preços da energia, o crescimento mundial deverá abrandar para 3,1% este ano, refere o FMI.A inflação global poderá subir para 4,4%, interrompendo a tendência de de descida observada nos últimos anos.Se o fornecimento de energia for afetado por mais tempo, o impacto será mais grave.Num cenário negativo, diz o FMI, o crescimento global pode cair para 2,5% e a inflação subir para 5,4%.E num cenário extremo, com disrupções energéticas prolongadas, a economia mundial pode crescer apenas 2%, com inflação acima de 6%.Países mais vulneráveisOs países importadores de energia estão entre os mais expostos. Economias de baixo rendimento e países em desenvolvimento, com menos recursos financeiros, serão os mais afetados pelo aumento dos preços da energia e dos alimentos.Mesmo os países produtores da região do Golfo enfrentam perdas, devido à destruição de infraestruturas, interrupções na produção, dificuldades nas exportações e quebra no turismo e no investimento. A diminuição das remessas enviadas por trabalhadores migrantes também afetará vários países.A situação lembra a crise de 2022, após a invasão da Ucrânia, quando a subida dos preços da energia levou a inflação global a máximos de várias décadas.Desta vez, porém, o contexto é mais frágil: o custo de vida já é elevado e as famílias e empresas estão mais sensíveis a novos aumentos.O que fazer? Subir de taxas de juro, certamenteO FMI avisa que os bancos centrais podem tolerar choques temporários nos preços da energia, mas apenas se as expectativas de inflação se mantiverem controladas ou ancoradas, isto é, se as pessoas não manifestarem grandes receios sobre a permanência da inflação.Mas se tal não acontecer, as autoridades monetárias terão de subir muito mais as taxas de juro para travar a inflação, sendo de esperar que este processo inflija danos no crescimento económico.Com o crédito mais caro, o investimento tende a retroceder e o consumo também, por causa do custo crescente com juros e dívida.Além disso, continua a instituição de Washington, os governos podem ajudar mas devem "evitar medidas generalizadas, como subsídios amplos ou controlo de preços, que são caros e pouco eficazes".Os apoios públicos "devem ser temporários e dirigidos aos mais vulneráveis, preservando sinais de preços que incentivem a poupança de energia e o aumento da oferta".Mas, "apesar de sinais recentes de um cessar‑fogo temporário", o risco de uma nova crise energética permanece alto.A economia mundial continua muito dependente de regiões instáveis para o fornecimento de energia e reforça a urgência de diversificar fontes, acelerar as energias renováveis e reforçar a cooperação internacional para limitar os danos económicos, defende o Fundo..Governo antecipa que défice não deve ultrapassar 0,5% do PIB