Indústria da guerra está fortemente concentrada em empresas dos EUA, diz o FMI.
Indústria da guerra está fortemente concentrada em empresas dos EUA, diz o FMI.FOTO: EPA / 24TH MECHANIZED BRIGADE PRESS SERVICE HANDOUT

FMI. Guerras devastam mais a economia do que crises financeiras ou desastres naturais

Os conflitos de maior dimensão, os que causam pelo menos mil mortes em combate, geram "pressões acrescidas sobre as finanças públicas". Metade da produção global de armamento está nas mãos dos EUA.
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O impacto económico das guerras é mais severo e duradouro do que o provocado por crises financeiras ou desastres naturais, alerta o Fundo Monetário Internacional (FMI), em dois estudos que integram a nova edição das Perspetivas Económicas Mundial (World Economic Outlook), pré-publicados esta quarta-feira. A divulgação da versão completa do outlook está agendada para a próxima terça-feira, 14 de abril.

Segundo a instituição sediada em Washington, as perdas económicas (de riqueza, como quebras no consumo das famílias, no investimento e no comércio internacional) associadas aos conflitos “ultrapassam as registadas em crises financeiras ou desastres naturais graves”, com o Produto Interno Bruto (PIB) a cair cerca de 3% logo no início das guerras ou dos ataques, podendo acumular perdas nos níveis de riqueza próximas de 7% nos cinco anos subsequentes.

Pior: estes efeitos devastadores “deixam cicatrizes económicas que persistem mesmo uma década depois”, alerta o Fundo, que atualmente é dirigido pela economista búlgara, Kristalina Georgieva.

No atual contexto de crescente e já elevadíssima instabilidade internacional, o FMI sublinha que “a guerra voltou a definir o panorama global”, após um período de "relativa estabilidade" desde o fim da Guerra Fria.

Segundo o FMI, o número de conflitos ativos tem vindo a aumentar de forma significativa, atingindo níveis que não eram observados desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Além disso, o agravamento das tensões geopolíticas e o aumento do estado de alerta tem levado muitos governos/países a rever prioridades e a reforçar os respetivos orçamentos nas áreas de defesa e segurança.

Efeitos económicos "imediatos e profundos"

No caso dos países diretamente afetados, os efeitos económicos são imediatos e profundos. “A atividade económica cai acentuadamente nos países onde ocorrem combates”, diretamente envolvidos nas guerras, sublinha o FMI, salientando que esse impacto negativo se prolonga durante vários anos.

Para além da destruição de infraestruturas e das mortes, os conflitos provocam ruturas nos sistemas produtivos, no comércio e no investimento, acrescenta o novo estudo.

Mas não só. As consequências estendem-se também a outras economias. Mesmo países não diretamente envolvidos podem sentir os efeitos, sobretudo se forem vizinhos ou parceiros comerciais relevantes.

“Nos primeiros anos de um conflito, estas economias registam frequentemente quedas moderadas na produção”, destaca o FMI, mostrando assim o alcance global dos choques provocados pela guerra.

Perdas económicas em toda a linha

Os conflitos de maior dimensão, classificados pelo FMI como os que causam pelo menos mil mortes em combate, geram pressões acrescidas sobre as finanças públicas.

“Os orçamentos deterioram-se à medida que a despesa é desviada para a defesa e a dívida aumenta, enquanto a produção e a receita fiscal colapsam”, refere a instituição.

Ao mesmo tempo, os países enfrentam desequilíbrios externos, com exportações a cair mais rapidamente do que as importações, levando ao agravamento dos défices comerciais.

A incerteza associada à guerra tem também efeitos negativos nos fluxos de capital, de investimento.

Aqui, o FMI destaca que o investimento direto estrangeiro e os fluxos de carteiras de investimento (financeiro) tendem a diminuir, obrigando os governos a recorrer mais intensamente a fontes de financiamento internacional alternativas.

Nalguns casos, aumenta a dependência das remessas de emigrantes para financiar as necessidades públicas externas, exemplifica a instituição.

Gastos com defesa: efeito positivo inicial, mas penalizador no futuro

A despesa militar tem vindo a aumentar de forma expressiva. Nos últimos cinco anos, cerca de metade dos países do mundo reforçou os seus orçamentos de defesa, enquanto as vendas de armamento pelas maiores empresas do sector duplicaram em termos reais ao longo de duas décadas.

O FMI observa que “os aumentos significativos da despesa em defesa tornaram-se mais frequentes”, especialmente em economias emergentes e em desenvolvimento.

Embora este aumento possa estimular a atividade económica no curto prazo — através do crescimento do consumo e do investimento, sobretudo em sectores ligados à defesa —, acarreta custos relevantes a médio prazo.

“Os défices orçamentais agravam-se e a dívida pública aumenta significativamente”, alerta o FMI, apontando para um aumento médio de cerca de sete pontos percentuais do PIB na dívida pública nos três anos seguintes ao início de um reforço da despesa militar.

Em contextos de guerra, o impacto é ainda mais expressivo, podendo atingir aumentos de cerca de 14 pontos percentuais do PIB, ao mesmo tempo que a despesa social diminui em termos reais.

A instituição destaca ainda que estes aumentos de despesa colocam desafios complexos de política económica. “Embora possam maximizar os efeitos na procura a curto prazo, também aumentam o risco de sobreaquecimento da economia”, exigindo uma coordenação cuidadosa com a política monetária.

Metade da produção de armamento nas mãos dos EUA

Outro fator relevante é o elevado grau de dependência externa para adquirir equipamento militar.

O FMI nota que a produção global de armamento está fortemente concentrada, com quase metade das receitas das 100 maiores empresas do sector a vir dos Estados Unidos.

Isto significa que muitos países importam grande parte do seu equipamento militar. Esta dependência ou proporção pode chegar a 80% nos Estados-membros da União Europeia.

Assim, existem implicações macroeconómicas importantes. “Uma parcela substancial do estímulo da procura acaba por beneficiar produtores estrangeiros”, reduzindo o impacto positivo sobre o emprego e a produção interna e contribuindo para o agravamento dos desequilíbrios externos, refere o Fundo

E depois da guerra?

Quanto à fase pós-conflito, o FMI sublinha que a recuperação económica tende a ser lenta, desigual e altamente dependente da estabilidade política.

“As recuperações após a guerra são lentas e dependem criticamente da durabilidade da paz”, refere o novo estudo.

Em contextos onde a paz é mantida, a atividade económica recupera, mas geralmente de forma modesta face às perdas acumuladas.

Já em situações de instabilidade persistente, a recuperação pode estagnar.

O processo de reconstrução exige medidas abrangentes e coordenadas. O FMI destaca a importância da estabilização macroeconómica precoce, da reestruturação da dívida e do apoio internacional, incluindo ajuda financeira e reforço de capacidades das instituições.

“Pacotes de políticas abrangentes e bem coordenados são melhores do que abordagens fragmentadas”, defende a instituição.

Além disso, a recuperação sustentável depende de reformas internas que reforcem as instituições, promovam a inclusão e restabeleçam a segurança, ao mesmo tempo que mitigam a perda de vidas, de "capital humano", segundo os termos usados pelos economistas do Fundo.

Segundo o FMI, políticas que reduzam a incerteza e promovam o investimento podem gerar efeitos positivos adicionais, incentivando a entrada de capital e facilitando o regresso das populações deslocadas.

Num mundo marcado pelo aumento dos conflitos, o FMI conclui que os custos económicos da guerra são profundos e duradouros, reforçando a importância de políticas eficazes e da construção de uma paz sustentável para garantir a recuperação e a estabilidade a longo prazo.

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