O aumento dos riscos associados aos criptoativos e às stablecoins, numa época em que estes instrumentos digitais se estão a tornar cada vez mais valiosos e alvo do apetite dos investidores, ficando assim mais interligados com o sistema financeiro global — onde figuram economias avançadas, como EUA, Canadá e todos os países da Zona Euro, Portugal incluído – preocupam cada vez mais o Fundo Monetário Internacional (FMI).Segundo o novo estudo "Fluxos de capital para os mercados emergentes: o papel dos investidores não bancários globais" (abre em pdf), divulgado esta terça-feira pelo FMI, mas que é parte integrante do Relatório de Estabilidade Financeira Global, que será publicado na íntegra na próxima terça-feira, 14 de abril, “as ligações entre o setor financeiro não bancário e os mercados de criptoativos estão a aprofundar-se, aumentando os riscos de contágio”, uma tendência que reflete a crescente exposição de investidores institucionais a este tipo de ativos.Estamos a falar de fundos de investimento, seguradoras e outros intervenientes, que têm vindo a integrar produtos ligados a criptomoedas nas suas carteiras, tornando o sistema mais vulnerável a choques provenientes deste mercado, diz o Fundo dirigido pela economista búlgara Kristalina Georgieva.O FMI destaca que “muitas entidades do sector financeiro não bancário detêm agora criptoativos ou assumem maior exposição através de títulos sensíveis a estes ativos”, o que amplia o potencial de transmissão de uma nova onda de instabilidade financeira global.Esta realidade é particularmente relevante nas economias avançadas, onde a sofisticação e interligação dos mercados financeiros aumentam a rapidez com que os riscos se propagam.As stablecoins — moedas digitais geralmente indexadas a ativos tradicionais como o dólar — estão também no centro das preocupações.Dólar, a moeda mais apetecívelO dólar é a divisa preferida para ancorar estas novas moedas cripto. De acordo com dados do Banco Central Europeu (BCE), as stablecoins ligadas ao dólar são criptomoedas concebidas para manter uma paridade de 1:1 com o dólar americano, oferecendo assim um ativo digital supostamente de baixa volatilidade para negociação em mercados de criptomoedas, fazer pagamentos internacionais e ter, ao mesmo tempo, alguma proteção contra a inflação da moeda local.Mais de 90% deste mercado ligado ao dólar está sobretudo suportado (indexado) por reservas de alta liquidez (ativos de tesouraria, depósitos) e títulos de dívida pública de curto prazo.Segundo o BCE, o mercado é dominado pelas stablecoins Tether e Circle, que detêm a maior parte do valor expresso em capitalização bolsista, sendo superior a 300 mil milhões de dólares (cerca de 260 mil milhões de euros ao câmbio atual).O mercado de stablecoins ligadas ao euro é muito inferior em valor. De acordo com um estudo também do BCE, feito há dois anos, as stablecoins indexadas ao euro valiam 500 milhões de euros, ou seja, representavam apenas 20% do mercado dolarizado.De acordo com o FMI, estas “são amplamente utilizadas como ativos de liquidação nos mercados de criptoativos” e “estão a tornar-se mais comuns nas carteiras de entidades não bancárias”.O seu uso crescente, incluindo em operações transfronteiriças, pode representar uma nova fonte de risco sistémico, sobretudo em cenários de perda de confiança ou falhas nos mecanismos de garantia de ativos, como poupanças e outros.À medida que estas interligações se intensificam, aumenta o risco de propagação de choques.O FMI alerta que “à medida que estas ligações se expandem, choques nos mercados de criptoativos podem propagar-se mais facilmente através das carteiras de entidades não bancárias, aumentando os riscos de contágio”. Isto significa que turbulências no universo cripto podem rapidamente afetar outros segmentos do sistema financeiro, incluindo os bancos, como referido.O Fundo sublinha ainda que “a forte interligação entre o setor financeiro não bancário e o sistema financeiro global cria múltiplos canais de transmissão de choques”.Nas economias avançadas, essa ligação é particularmente sensível porque os bancos já estão expostos através de instrumentos como derivados, operações de recompra e linhas de crédito.Assim, “tensões em entidades não bancárias podem repercutir-se no sistema bancário, levando a processos de desalavancagem”, o que pode traduzir-se numa redução da concessão de empréstimos e num agravamento das condições financeiras. Este efeito, sabe-se, terá impacto direto na atividade económica, travando o investimento e o crescimento da economia.Num contexto de elevada integração financeira, o FMI alerta ainda que episódios de aversão ao risco podem “pressionar a liquidez em moeda estrangeira e amplificar a volatilidade cambial”, com efeitos indiretos também nas economias mais desenvolvidas.O FMI nunca coloca um cenário de crise cambial, mas aponta para riscos nesse sentido.Mais regulação é melhorPerante tudo isto, a instituição defende que deve haver um reforço da regulação e supervisão. Segundo o FMI, “a crescente exposição global do setor financeiro não bancário a criptoativos, bem como a rápida adoção de stablecoins, exige uma supervisão regulatória reforçada e planeamento de contingência”.O desafio, conclui o FMI, será garantir que a inovação trazida pelos criptoativos não compromete a estabilidade financeira, sobretudo nas economias avançadas, onde os efeitos de contágio podem assumir contornos rápidos e abrangentes. Crises que além de serem graves, podem surgir e propagar-se de forma muito mais veloz do que no passado, é essa a ideia.