Criptoativos, criptomoedas e stablecoins (moedas digitais indexadas a divisas fortes, como dólar ou euro) estão a tornar‑se uma nova fonte de risco e até de ameaça para a economia mundial e a estabilidade financeira, podendo fabricar crises financeiras mais agressivas e perigosas e produzir ondas de choque nos mercados emergentes, que são destino preferencial deste tipo de aplicações, mas também nos países mais desenvolvidos ou ricos, por via da forte interligação financeira que existe atualmente no globo, alerta o Fundo Monetário Internacional (FMI).No novo estudo "Fluxos de capital para os mercados emergentes: o papel dos investidores não bancários globais" (abre em pdf), divulgado esta terça-feira e que é parte integrante do Relatório de Estabilidade Financeira Global, que será publicado na íntegra na próxima terça-feira, 14 de abril, o FMI receia que a crescente ligação entre esses ativos digitais e o sistema financeiro tradicional possa acelerar e agravar futuras crises, tornando-as assim mais perigosas.Segundo o FMI, empresas e até alguns Estados soberanos recorrem cada vez mais a financiamento fora da banca tradicional, através de fundos de investimento e outros grandes investidores.O problema é que muitos destes financiadores funcionam “através de estruturas opacas, com pouca supervisão, o que dificulta a avaliação dos riscos para o sistema financeiro”, alerta o FMI.A situação tornou‑se mais preocupante com a entrada das criptomoedas neste circuito, refere.O FMI nota que os investidores não bancários estão cada vez mais ligados aos criptoativos e alerta que “as ligações entre os mercados cripto e os investidores financeiros estão a aprofundar‑se, aumentando os riscos de contágio”.Stablecoins sob vigilânciaAs stablecoins, que prometem ser moedas digitais de valor mais estável do que outras no mercado (como a Bitcoin) estão no centro das preocupações da instituição sediada em Washington. As moedas digitais são cada vez mais usadas nas transações comerciais e começam também a ser utilizadas em transferências internacionais.De acordo com o Fundo dirigido por Kristalina Georgieva, à medida que estas interligações crescem, eventuais “choques nos mercados de criptoativos podem propagar‑se mais facilmente através dos portefólios financeiros”, afetando áreas das economias que vão muito além do universo digital.Bancos podem acabar por ser atingidosO FMI avisa também que os riscos não se limitam a países mais frágeis. Os bancos das economias avançadas estão cada vez mais expostos aos grandes fundos e investidores não bancários, através de empréstimos, derivados financeiros e outros negócios.Isto significa que problemas fora da banca tradicional podem acabar por fazer ricochete no sistema bancário.Segundo o FMI, “um stress no sector não bancário pode impactar no sistema financeiro [tradicional], levando a uma redução do crédito e à venda apressada de ativos”, o que provocaria fortes desvalorizações nos mercados e na banca.Além disso, em momentos de instabilidade global, a procura por proteção cambial dispara, podendo “pressionar a liquidez dos mercados de divisas e aumentar a volatilidade das moedas”, acrescenta o Fundo.Regulação para evitar surpresasFace a todos estes riscos, o FMI recomenda mais regulação: mais regras e uma vigilância mais apertada. A expansão dos criptoativos e das stablecoins, diz o Fundo, “exige reforço da supervisão regulatória, especialmente num sistema financeiro cada vez mais interligado”.Para o antigo credor de Portugal, a inovação financeira pode trazer vantagens, mas sem controlo pode transformar‑se num fator que tornará as futuras crises mais rápidas, mais profundas, perigosas e mais difíceis de resolver..FMI ataca "não-bancos", corretoras e negócio das criptos: "são um risco para a estabilidade financeira"