Bruxelas: europeus têm de começar a cortar no consumo de combustíveis

Bruxelas: europeus têm de começar a cortar no consumo de combustíveis

Comissão Europeia envia carta aos 27 governos e exige medidas e planos que obriguem famílias e empresas a poupar no consumo de combustíveis e até sugere limites à produção das refinarias europeias.
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As famílias, o Estado e as empresas, designadamente as do "sector dos transportes", têm de tomar medidas rápidas, urgentes e eficazes para começar a poupar ou a cortar no consumo de combustíveis e produtos derivados do petróleo, tal é a gravidade da crise petrolífera em curso por causa da guerra que alastrou a todo o Médio Oriente, diz uma carta enviada pela Comissão Europeia (CE) aos governos da União Europeia (UE), esta terça-feira.

Há cerca de uma semana, a 23 de março, Bruxelas tinha lançado um primeiro alerta laranja, mas relativo à crise no gás, quando decidiu avisar os países para se prepararem para o frio do próximo inverno, aconselhando-os a iniciarem o quanto antes o reforço das suas reservas desta matéria-prima, também ela produzida abundantemente por países como Irão ou Qatar.

Deste vez, o aviso grave incide sobre o petróleo. A carta enviada pela CE, e que o governo português também recebeu, diz que "tendo em conta a volatilidade do mercado, decorrente do conflito no Médio Oriente e do encerramento do Estreito de Ormuz, a Comissão Europeia insta os Estados-Membros a prepararem-se de forma atempada e coordenada para garantir o aprovisionamento de petróleo e de produtos petrolíferos refinados na UE".

Há escassas semanas, os países foram convidados a libertarem parte das suas reservas de petróleo, uma forma de fazer subir a oferta de crude nos mercados internacionais e tentar aplacar a subida muito agressiva do preço do barril de crude. Os resultados não foram incríveis. O petróleo, que desde o primeiro ataque dos EUA ao Irão (a 28 de fevereiro), já tocou os 119 dólares, subiu de 72 dólares a 27 de fevereiro (véspera do início da guerra) para 105 dólares esta terça-feira, à tarde.

Mas isso não chega. Do lado da procura, é preciso cortar também. A CE pede "medidas de poupança" no consumo.

Segundo a tutela europeia da Energia, a Europa "está bem preparada graças à obrigação de os Estados-Membros manterem reservas de petróleo e disporem de planos de emergência em resposta a incidentes de segurança do aprovisionamento".

Os Estados-Membros "estão a contribuir, em cerca de 20%, para a libertação de mais de 400 milhões de barris de reservas de petróleo de emergência, ação coordenada pela Agência Internacional da Energia (AIE)", recorda a CE.

O comissário que tutela esta área, Dan Jørgensen, considera que "a segurança do aprovisionamento da União Europeia continua a estar garantida", mas que agora é preciso mais. "Temos de estar preparados para uma perturbação potencialmente prolongada do comércio internacional de energia" e "por isso temos de agir já".

Bruxelas já admite perturbações no abastecimento

Fonte oficial da CE refere que "numa carta dirigida a todos os ministros da Energia da UE", o comissário pediu a todos os governos que se coordenem o melhor possível nas "reuniões no âmbito do Grupo de Coordenação do Petróleo e do Grupo de Trabalho para a Segurança da União da Energia, a fim de assegurar uma boa coordenação".

Além disso, mas não menos importante, os países devem começar a "ponderar a promoção de medidas de poupança da procura, com especial atenção para o sector dos transportes, tal como aconselhado pela AIE no seu plano de dez medidas para reduzir a utilização de petróleo".

Segundo o gabinete de Dan Jørgensen, é "essencial um acompanhamento sólido, mecanismos rápidos de partilha de informações e coordenação" e qualquer problema de abastecimento deve ser logo reportado. "Quaisquer riscos de emergência ou alterações materiais nas condições do aprovisionamento de petróleo e da indústria, incluindo as existências comerciais, devem ser acompanhados e notificados à Comissão, a fim de assegurar uma avaliação contínua e uma ação coordenada".

Refinarias europeias devem ser desincentivadas e manutenções adiadas

"No mesmo espírito, os Estados-Membros devem abster-se de tomar medidas que possam aumentar o consumo de combustível, limitar o livre fluxo de produtos petrolíferos ou desincentivar a produção nas refinarias da UE", defende Bruxelas, ao mais alto nível.

Os países e os governos também "consultar os seus Estados-Membros vizinhos e a Comissão, a fim de preservar a coerência a nível da UE e o funcionamento do mercado interno".

"Para salvaguardar a disponibilidade de produtos petrolíferos no mercado da UE, qualquer manutenção não urgente das refinarias deve ser adiada" e "o aumento da utilização de biocombustíveis pode ajudar a substituir os produtos petrolíferos fósseis e aliviar a pressão sobre o mercado".

E preparem-se para o frio do próximo inverno

Tendo em conta o choque petrolífero em curso e com poucas ou nenhumas garantias palpáveis de que vá terminar, a CE decidiu avisar os países para se prepararem para o frio do próximo inverno, noticiou o DN há pouco mais de uma semana.

"Tendo em conta a volatilidade dos mercados decorrente do conflito no Médio Oriente, a Comissão Europeia insta os Estados-Membros a iniciarem a época de enchimento de gás e os respetivos preparativos de forma coordenada e atempada para o próximo inverno", recomendou a CE, no passado dia 23 de março.

Segundo o executivo liderado por Ursula von der Leyen, "os preparativos atempados e coordenados são fundamentais para garantir o correto reenchimento das instalações de armazenamento de gás para a próxima época de aquecimento, adaptando-se às condições do mercado e aplicando as flexibilidades disponíveis".

Evitar corridas às compras para não fazer subir ainda mais os preços

Dan Jørgensen, comissário para a Energia, considerou que "estamos muito mais bem preparados do que em 2022", mas avisa que "a nossa exposição à volatilidade do mercado mundial é clara e temos de nos certificar de que atuamos desde já na preparação para o inverno e de que o fazemos de forma coordenada".

Repor gás e combustíveis em armazenamento deve ser feito "o mais cedo possível", permitindo assim termos "um período de injeção mais longo e adaptar-nos às circunstâncias do mercado, a fim de mitigar a pressão sobre os preços e evitar uma corrida participada no final do verão".

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