A situação dos mercados da energia (petróleo e gás) e, por arrasto, o impacto nos preços finais dos combustíveis é tensa, incerta e preocupante, mas Portugal e os restantes parceiros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e o conjunto dos 32 países da Agência Internacional de Energia (AIE), ainda não estão em "emergência energética", explicou a ministra da Energia, Maria da Graça Carvalho.No Porto, disse aos jornalistas que é preciso que os aumentos cheguem a 70% para se poder declarar uma situação de crise, o que ainda não é o caso.Segundo cálculos do DN, a média do preço do petróleo está agora cerca de 30% acima da média pré-guerra com o Irão.Esta quarta-feira, o barril de crude (Brent) para entrega em maio negociava na casa dos 92 dólares.No caso do gás natural, o contrato de referência (TTF, para entrega em abril), o agravamento é muito superior, ia nos 54% (face ao período pré-conflito), mas ainda assim abaixo da referência crítica do aumento de 70%.Ainda não estamos no ponto crítico, diz o governoO uso das reservas será ativado quando chegarmos ao ponto crítico. "Uma emergência energética é quando há um aumento de 70% no gás, ainda não estamos lá", indicou a governante.Esta quarta-feira, a AIE anunciou que os 32 países membros (um deles Portugal) concordaram em libertar parte das suas "reservas" energéticas para aplacar a subida dos preços.No total deste grupo, estamos a falar em despejar nos mercados internacionais 400 milhões de barris de petróleo das reservas estratégicas existentes. Se acontecer, será a maior intervenção de sempre.Luís Montenegro, o primeiro-ministro, revelou que "vamos disponibilizar uma parte importante, em princípio 10%, das nossas reservas estratégicas para poder haver mais oferta e maior contenção no preços dos combustíveis”.É o equivalente a dois milhões de barris já que a reserva portuguesa (57% detida pelo Estado, o resto pelas empresas do sector, designadamente a Galp) tem 20 milhões de barris ou 2,75 milhões de toneladas de petróleo e derivados.Ao preço atual (assumindo 90 dólares, por exemplo), dá um potencial de intervenção no valor de180 milhões de euros ao abrigo do novo acordo da AIE. São 155 milhões de euros de encaixe potencial a dividir entre o vendedor Estado e os privados (Galp ou eventuais empresas que detenham reservas destas), de acordo com contas do DN usando o câmbio de quarta-feira, 11 de março de 2026.Seja como for, a ministra sinalizou grandes preocupações com a situação, mas relevou também alguns pontos mais positivos na vulnerabilidade portuguesa face a esta crise em formação.Stress no diesel e gás naturalOs preços do gasóleo e do gás natural são os que estão a causar maior stress ao governo português (e aos consumidores e empresas, claro), assim como a outros governos da OCDE e a instituições internacionais, como a AIE, fez saber a ministra."Atualmente, nós temos reservas de petróleo para 93 dias. No gás, temos para quatro semanas, portanto menos um período menor", referiu.Segundo a ministra, "a Agência Internacional de Energia está essencialmente preocupada com o diesel porque é um produto refinado e as refinarias são muito naquela zona do Médio Oriente".Portanto, "além dos problemas de transporte, há também da origem do petróleo e de onde é feita a refinação", explicou a ex-eurodeputada.Além da vulnerabilidade no gasóleo – que Portugal e tantos outros países europeus não fabricam, têm de comprar lá fora, boa parte ao Médio Oriente – há a questão do gás.Maria da Graça Carvalho explicou que Portugal convive com dois planos diferentes nesta questão, um mais favorável, outra nada bom, o que a faz estar apreensiva, na mesma. "Estamos muito preocupados com o preço do gás. Felizmente que na produção de eletricidade, temos muito pouco gás [incorporado]. Ao longo dos anos fizemos um grande esforço nas renováveis".Só como exemplo, "nos primeiros dois meses temos que 83% da eletricidade veio das renováveis e ainda podemos aumentar isso", disse a ministra.É o único lado bom das tempestades. Portugal "está a usar muito a energia de fontes hídricas, temos as barragens cheias".No entanto, há o outro lado pouco ou nada bom. "O gás é essencial para algumas das nossas indústrias, que são muito importantes. No nosso país, estamos a falar do sector do vidro, da cerâmica, parte do vestuário", exemplificou.Esta quarta-feira, a Agência Internacional de Energia (AIE) anunciou que os 32 países membros (um deles é Portugal) decidiram de forma unânime que podem libertar uma parte das suas "reservas de emergência", que no conjunto da AIE é a maior de sempre".No entanto, a ministra considera que, no caso de Portugal (10% do total das reservas de energia fóssil), até é pouco. Disse mesmo que "é quase que simbólico do ponto de vista português", é sobretudo um ato de solidariedade e para mostrar união entre países perante a atual crise energética."Nós somos muito cautelosos com as reservas e seria sempre uma pequena parte das nossas reservas. O que nós acordámos a nível da Agência Internacional de Energia é que 10% das nossas reservas podem ser libertadas em conjunto com os outros países da OCDE para fazer face a grandes aumentos de do preço, mas não acordámos que íamos fazê-lo hoje ou durante esta semana", explicou a governante.Mas, com este acordo, "agora temos essa possibilidade, iremos coordenar com os nossos colegas da União Europeia para ver o que vamos fazer, mas será sempre uma pequena parte [no caso de Portugal]", reforçou a ministra Graça Carvalho..Teerão ameaça fazer de Ormuz um estreito intransitável.Ministra da Energia diz que maior preocupação é sobretudo com o diesel e o gás