O aumento dos custos tem estrangulado os empresários da restauração nos últimos anos. Depois da pandemia, a guerra na Ucrânia ditou a escalada da inflação que levou por arrasto a quebra na procura, o que se traduziu na sentença de morte para muitos negócios no país. Agora, somam-se à equação os prejuízos das tempestades no início do ano e a subida dos preços provocada pelo conflito no Médio Oriente. Os restaurantes vão “sobrevivendo” e estão a chegar “ao fim da linha”, assegura Ana Jacinto, secretária-geral da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP). Sobre o pacote de ajudas ao setor, anunciado pelo Governo no início do ano, e que ainda não está em vigor, - que estipula um apoio de até 60 mil euros para investimento (30% a fundo perdido) e o alargamento dos prazos para o pagamentos dos empréstimos covid - a responsável da associação diz que foi o “possível” e lamenta que o Executivo não vá mais longe na ajuda prestada a um setor que gerou 30 mil milhões de receitas no ano passado. “Não nos podemos esquecer de que o turismo é o motor da nossa economia e, se o motor estiver gripado, a economia também vai gripar”, alerta. Embora rejeite, para já, o cenário de crise, assume que “as empresas estão com muitos problemas e será cada vez pior”.Nos últimos meses multiplicaram-se os relatos de restaurantes a fechar e de empresários e chefs a denunciar dificuldades. O setor da restauração está em crise? Não sei se podemos falar exatamente de uma crise. Existe um problema de falta de rigor nos números porque o setor continua sem um cadastro atualizado, o que dificulta a obtenção de dados fidedignos. Muitos restaurantes estão a fechar e a maioria dos encerramentos é silenciosa, não entrando nas estatísticas. No final, os números acabam por indicar mais aberturas do que encerramentos, o que não reflete a realidade. Os empresários estão muito preocupados e apreensivos com o aumento dos custos. Mesmo em zonas onde ainda existe alguma procura, nem sempre é suficiente para garantir a rentabilidade dos estabelecimentos. A situação é particularmente difícil para restaurantes localizados em áreas de menor fluxo turístico e mais dependentes do cliente residente, cujo poder de compra tem vindo a diminuir. Ao mesmo tempo, verifica-se uma transferência crescente do consumo para o retalho, o que também tem desviado a procura da restauração. Muitos estabelecimentos enfrentam dificuldades sérias, que não são recentes, mas resultam de um acumular de desafios, nomeadamente da pandemia, que deixou muitas empresas fortemente endividadas. Agora, ao começarem a pagar essas dívidas, algumas já não têm margem financeira para o fazer. Os restaurantes estão a chegar ao fim da linha? Estão. Durante a pandemia, muitas empresas recorreram a apoios que apenas começaram a ser pagos mais tarde. Agora, num setor maioritariamente composto por microempresas, há dívidas acumuladas que precisam de ser saldadas. Para isso, seria necessário um aumento da faturação, o que não está a acontecer. O poder de compra dos portugueses tem vindo a diminuir e os conflitos geopolíticos também contribuem para um contexto de incerteza. A isto soma-se o impacto significativo do aumento dos custos salariais, que não foi acompanhado por uma redução da carga fiscal. Qualquer sopro serve para abanar a estrutura destas empresas.O que falta, então, para considerar que há uma crise emergente? Não queria chamar de crise nem causar alarmismos. Não sei se é crise, mas as empresas estão com muitos problemas e vai ser cada vez pior. Além de todos os desafios acumulados, o setor foi ainda afetado pelas tempestades que atingiram várias empresas, muitas das quais ainda não recuperaram totalmente, e enfrenta agora também o impacto da guerra. Se não forem adotadas medidas verdadeiramente estruturantes para apoiar este setor, receio que muitas destas empresas possam entrar numa situação muito difícil. E aí, sim, poderíamos estar perante uma crise séria na restauração.Há quem defenda que existe um excesso de restaurantes, principalmente nas grandes cidades. Poderia ser benéfico para a própria sobrevivência do setor a criação de um mecanismo de contenção, por exemplo, à semelhança do que foi feito no alojamento local (AL)? A AHRESP não toma posições sem informação. Houve algumas vozes a defender que o AL deveria ser contido e várias autarquias avançaram com regulamentos restritivos sem terem dados reais. Hoje estamos a perceber melhor essa realidade com a limpeza que está a ser feita aos registos. Muitos alojamentos locais não estavam em operação e basta olhar para o caso de Lisboa, onde cerca de 40% dos estabelecimentos estavam inativos. Na restauração, enfrentamos um problema semelhante: não sabemos ao certo quantos estabelecimentos existem. Há comunicações prévias de atividade que têm de ser feitas às câmaras municipais, mas os estabelecimentos rodam a uma velocidade enorme, ora fecham, ora abrem, e, em muitos casos, os encerramentos nem sequer são comunicados.As câmaras municipais não conseguem aferir o número exato de restaurantes abertos nas respetivas autarquias? Claro que não. Há várias câmaras a perguntarem à AHRESP quantos estabelecimentos é que têm no seu próprio concelho. Se não há dados reais, não podemos tomar decisões em perceções. Há uma ideia de que existem muitos restaurantes, mas não sei se isso é verdade, se calhar há zonas com muitos e outras com poucos. É preciso recolher informação.Mas é obrigatório comunicar o encerramento. Em bom rigor, sim, mas se não o fizerem nada acontece. Há empresários que simplesmente fecham a porta e vão-se embora. O cadastro da restauração não existe e seria importante criar um mecanismo que obrigasse os empresários em atividade a comprovar a sua existência. Nem a própria ASAE tem informação completa sobre os estabelecimentos que estão em funcionamento. É preciso olhar para os números para perceber quantos estão efetivamente abertos, quantos fecharam e em que zonas.O ano passado foi o melhor de sempre para o turismo do país. Por outro lado, esta está a ser a pior fase para a restauração? Não sei se é a pior fase, mas não é uma fase nada boa. Os dados mostram que continuamos a crescer, mas sobretudo nas dormidas. Temos mais pessoas a entrar no país e seria desejável que esse fluxo se refletisse também em mais consumo nos restaurantes, no lazer e na animação turística. No entanto, isso não está a acontecer ao mesmo ritmo, pelo contrário. Temos vindo a sinalizar esta situação e a apresentar propostas. Ainda antes das tempestades, já estávamos a falar com o Governo sobre a criação de uma linha de apoio específica para microempresas, porque muitos empresários nos diziam que não estavam a conseguir pagar os empréstimos contraídos durante a pandemia. Ao mesmo tempo, enfrentam aumentos significativos nos custos, desde a inflação alimentar aos custos de operação, sem margem para continuar a aumentar preços e estão completamente estranguladas. Essa linha de apoio foi anunciada, mas acabou por ainda não ser publicada porque se meteram as tempestades pelo meio, mas espero que em breve haja notícias.O apoio anunciado pelo Governo, com uma componente de apenas 30% a fundo perdido, foi a resposta possível ou esperava que o Executivo tivesse ido mais longe? Foi o possível porque estamos numa encruzilhada. A componente a fundo perdido não é aquela que gostaríamos, é um facto, mas existe também outra vertente relacionada com a reestruturação das dívidas contraídas durante a covid junto da banca. Esperamos que o Governo retome esse tema e encontre um mecanismo que permita voltar a alongar os prazos, dando alguma folga às empresas. Preferíamos que esta conversa nem existisse, o que desejávamos era a adoção de medidas estruturantes para o setor. Apresentámos várias propostas no âmbito do Orçamento do Estado (OE) para este ano, precisamente porque antecipávamos que o cenário se poderia agravar, mas poucas foram acolhidas. Não é com agrado que temos vindo a pedir apoios ou ajudas. O que queremos é que o setor tenha capacidade para gerar riqueza por si próprio. Para isso, no entanto, é fundamental que exista um ambiente fiscal e económico mais favorável.Continua a ser urgente mexer no IVA e na TSU? Absolutamente. Não compreendemos porque é que algumas bebidas continuam sujeitas à taxa máxima de IVA. Ao mesmo tempo, o alívio fiscal e contributivo sobre o rendimento do trabalho é vital para um setor tão intensivo em mão de obra como este. Não há outra alternativa: se não aumentarmos salários, não termos trabalhadores e ninguém quer trabalhar na restauração. Neste momento, esse aumento de custos não está a ser equilibrado por qualquer medida de alívio.As medidas do Governo são apenas um paliativo? Sim. Não tendo havido alterações estruturais no Orçamento do Estado, o quadro acabou por se agravar e, neste momento, não temos outra alternativa senão procurar soluções paliativas. O que conseguimos negociar com o Governo foram duas dimensões de apoio: uma dirigida às empresas com empréstimos contraídos durante a pandemia e outra focada no apoio à tesouraria. São medidas para ajudar a responder às dificuldades imediatas, depois será necessário perceber que soluções poderão ser adotadas mais à frente.É um setor que vai sobrevivendo? É um setor que vai sobrevivendo. Nós fizemos o nosso trabalho de casa e as nossas propostas atempadamente, falámos com os grupos parlamentares todos e com o Governo e explicámos os nossos motivos. Mais uma vez, não fomos ouvidos. Estamos nesta situação e agora não resta outra solução senão encontrar medidas que permitam às empresas continuar a sobreviver. Compreendo que o país tem outros setores de atividade e enfrenta várias dificuldades, pelo que também existem limitações na criação de linhas de apoio com a dimensão e abrangência que gostaríamos de ver. Ainda assim, as propostas que apresentámos para o OE teriam permitido criar mais postos de trabalho e tornar as empresas mais produtivas. Se conseguirmos aumentar a produtividade da economia, acabaremos, também, por gerar mais valor e contribuir mais para o crescimento do país.Compreende que o Governo não dê uma resposta mais cabal quando um setor que gerou 30 mil milhões de euros em receitas em 2025 lhe pede ajuda? Exatamente, é estranho que assim seja. Não nos podemos esquecer de que o turismo é o motor da nossa economia e, se o motor estiver gripado, a economia também vai gripar. É muito importante que se olhe para o setor pela importância que tem para o país. Há, muitas vezes, a tendência de olhar para o turismo de forma isolada, mas a verdade é que ele impulsiona muitas outras atividades. Basta olhar para uma mesa de um restaurante: temos as toalhas, a louça, os copos, as madeiras, toda a cadeia alimentar e, portanto, a agricultura e a pesca. Tudo isto é dinamizado quando o setor também está bem. É preciso não estragar aquilo que temos e continuar a apoiar esta atividade para podermos alavancar todas as outras.Num contexto já difícil para o setor, que impacto pode ter a guerra no Médio Oriente? É tudo ainda muito incerto. Já ouvi alguns responsáveis ligados ao turismo dizer que este conflito até pode beneficiar Portugal, mas acredito que uma guerra nunca beneficia nenhum destino. Além disso, existem outros efeitos colaterais, como o aumento do preço dos combustíveis, que terá obviamente um impacto significativo, quer na restauração, quer no alojamento.No ano passado encerraram mais de mil restaurantes. Se o conflito se prolongar, haverá mais restaurantes a encerrar até dezembro? Se não conseguirmos controlar estes custos, sim. O maior problema da restauração são os custos operacionais, desde a inflação alimentar aos custos energéticos e salariais, e tudo indica que irão continuar a subir. Por isso, queremos que o Governo esteja atento e acompanhe as preocupações do setor.A AHRESP fez um questionário aos seus associados no seguimento das tempestades. Quais foram os danos apurados e o valor estimado dos prejuízos? Continuamos a fazer esse levantamento, que ainda não está fechado. Há empresas que continuam a apurar os prejuízos e outras que, apesar de não terem sofrido danos diretos, foram afetadas indiretamente, por exemplo através do cancelamento de reservas. O território continua marcado por estes acontecimentos e ainda não existe confiança suficiente para que as pessoas procurem determinadas zonas.A resposta no âmbito do PTRR é suficiente para responder aos prejuízos causados pelas tempestades? O PTRR foi apresentado apenas agora e a AHRESP já fez algumas sugestões que irá formalizar. Há um tema particularmente importante e crítico, relacionado com os seguros. Muitos equipamentos já não estão valorizados como quando os seguros foram contratados e, como as apólices não são atualizadas, o valor recebido acaba por ser irrisório e insuficiente para substituir equipamentos. Existem ainda situações que simplesmente não são cobertas por qualquer seguro. É o caso, por exemplo, dos apoios de praia: se forem atingidos pelo mar ou por uma onda de grande dimensão, não há seguradoras que cubram esse tipo de risco. Temos de refletir seriamente sobre este tema, até porque estamos a entrar num contexto cada vez mais complexo. Segundo vários especialistas, fenómenos como os que ocorreram poderão repetir-se com maior frequência. A própria Lei de Bases do Clima determina que todas as autarquias tenham planos de ação climática, mas mais de metade das câmaras municipais ainda não dispõe de qualquer plano. As empresas precisam de estar verdadeiramente protegidas, porque também não podemos estar sempre à espera de apoios públicos. Ou encontramos uma solução semelhante à de Espanha, onde existe um fundo de garantia que entra em ação em situações desta natureza, ou tem de haver algum tipo de garantia do Estado relativamente aos seguros contratados pelos empresários. Caso contrário, se as coberturas aumentarem para responder a estes riscos, é natural que o valor das apólices suba drasticamente e muitas empresas deixem de ter capacidade financeira para suportar esses custos. É preciso haver também uma responsabilidade partilhada..Crise na restauração. Empresas não estão a conseguir pagar os empréstimos covid .Restauração teve ano negro. Quebra de 20% no Natal e revéillon agrava encerramentos